José Maria da Fonseca: Herança que se reinventa

Fotografia: Ricardo Garrido
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

Existe um certo ar de clã quando os vemos todos juntos. Quase intimida. Mas não assusta. Pelo contrário, queremos saber mais sobre uma família em cujas veias se mistura sangue e vinho, ou não estivéssemos perante as sexta e sétima gerações que prosseguem um trabalho ininterrupto desde 1834.

 

Os irmãos António e Domingos Soares Franco são os rostos a que nos habituámos quando se fala da José Maria da Fonseca. Há já algum tempo, os filhos assumem um papel cada vez mais relevante e os nomes de Sofia, António Maria e Francisco são, hoje, naturalmente associados à empresa.


A história desta família é de uma riqueza e densidade notáveis, estando nela contida muitos marcos fundamentais do vinho em Portugal. E porque é que continuamos a ter interesse quando parece que tudo já foi dito e escrito? Porque há um profissionalismo e uma alegria associados a todos e a cada um, que se estendem aos vinhos e às estórias. Os membros da família, uns mais expansivos, outros mais reservados, frontais e com um sentido de humor inteligente, funcionam como peças de um puzzle que parecem completar-se. Se o todo é maior que as partes? Não pensamos nisso quando estamos com a família Soares Franco. O que transparece é que esse todo, a José Maria da Fonseca, é a grande herança que interessa preservar, proteger, reinventar e continuar a passar à geração seguinte.


Claro que a história poderia ter-se esgotado no lirismo de uma família que atravessou vários séculos numa actividade bucólica e ligada à terra, que descobriu a beleza de Azeitão e da Serra da Arrábida. Mas, a tudo isto, associa-se o percurso de uma das maiores empresas de vinho em Portugal, um império que em algumas das suas vertentes apresenta um crescimento anual de 20% e que produz dez milhões de garrafas por ano, distribuídas por mais de 40 marcas. É esta relação entre o legado histórico e o sentido do negócio, que faz desta uma história fascinante. E, claro, uma história de sucesso.

A elegância de José Maria da Fonseca


O retrato conhecido de José Maria da Fonseca mostra um homem preocupado com a imagem, impecavelmente vestido, que poderia fazer parte da corte de Napoleão. Transposto para os nossos dias, seria facilmente capa da Vogue tal o apuro e cuidado com que se apresenta. Ditaria tendências? Em termos de moda, não sabemos. Mas relativamente à actividade que escolheu, deixou marcas de bom gosto, de extrema inovação e pioneirismo. Criou realmente tendências e iniciou caminhos, quase inimagináveis na altura, que ainda hoje são seguidos na empresa e no sector do vinho em geral.


A vida de José Maria da Fonseca percorreu praticamente todo o séc. XIX. Nasceu em 1804, em Nelas, e formou-se em Matemática, em Coimbra. Cedo veio para Lisboa, acompanhando o pai numa actividade comercial que, a par de outros três ou quatro burgueses do Cais do Sodré, dominava o exclusivo contrato dos Tabacos. Os negócios eram prósperos, sendo fácil imaginar o jovem e elegante José Maria a encarnar uma personagem literária na sociedade lisboeta de 1800, em cafés e tertúlias.


Foi, entretanto, na execução de uma dívida no âmbito do comércio dos tabacos, que chegou a Azeitão. Algumas quintas teriam sido dadas como penhora e quando José Maria as visitou, tomou a decisão de ficar com a terra. Ele e o pai compram a parte dos sócios e é a partir desses terrenos, e respectiva produção de vinho, que nasce a empresa José Maria da Fonseca, em 1834.


Todo o brilho, magnetismo e estilo que se intui ao olhar para o seu retrato, são confirmados nas histórias contadas pela família. José Maria da Fonseca era um homem muito exigente consigo próprio e esse rigor estendia-se ao trabalho e a quem o rodeava. Por exemplo, ele e a mulher davam uma navalha de barba aos empregados porque “não queriam ver gente mal composta na empresa”. Todo o negócio do vinho foi pensado com planeamento, criatividade, muita inteligência e, claro, o indispensável rigor. Desde a vinha e castas escolhidas, até à forma de vender vinho, tudo foi sendo construído de forma a corresponder ao seu grau de exigência. José Maria não estava satisfeito com a venda a granel e ao fim de algumas encomendas sucessivas do mesmo cliente, tomava a iniciativa de lhe enviar uma carta, perguntando: “Porque é que, em vez de levar o meu vinho em barricas, não leva antes em garrafas?” E justificava com o argumento de ser a única forma de garantir que o vinho não tinha sido adulterado até lhe chegar às mãos. Foi, assim, a primeira pessoa, em Portugal, a engarrafar vinho tinto para vender, porque considerava ser “esta a maneira civilizada de apresentar os objectos”. 

 

Gerações modernas



Quando falamos do estilo de José Maria da Fonseca e do seu cuidado com a indumentária, Domingos Soares Franco dá uma gargalhada e diz, apontando para si próprio: “Eu não sou nada assim!” Já o seu irmão surge em defesa desse predicado de família e diz de forma perentória: “O tio António demorava uma hora para se arranjar”.


Os dois irmãos dispensam apresentações, mas ainda assim, não é demais referir que o primeiro é enólogo e vice-presidente da José Maria da Fonseca, enquanto o segundo, António, é o presidente do Conselho de Administração.


A conversa corre fluída e quase damos por nós a pensar em António Porto Soares Franco, essa figura maior do séc. XX vitivinícola português, como “o tio António”. Também sobre este antepassado todos falam apaixonada e respeitosamente. Não só os que tiveram o privilégio de o conhecer, como a geração mais nova de Sofia, António Maria e Francisco. O “tio António” (chamemos-lhe assim) estudou e trabalhou em Montpellier, contactando com profissionais do mundo inteiro. Também ele, seguindo a tradição familiar, não se fechou e frequentava congressos internacionais, estabelecendo relações muito importantes, quer em termos pessoais, quer em termos empresariais e de negócio. António Soares Franco, presidente, refere que um dos grandes trunfos da José Maria da Fonseca foi ter tido donos formados no negócio, em enologia e viticultura. Nas longas décadas do séc. XX isso não acontecia em Portugal e o máximo que que se encontrava era, eventualmente, formação em agronomia. Mas nesta empresa, sempre foi natural que acontecesse dessa forma.


Sobre a universalidade do “tio António”, Domingos Soares Franco acrescenta uma história pessoal. Domingos formou-se em Ciências de Fermentação na Universidade de Davis, na Califórnia, e quando chegou lá, não conhecia ninguém. Corria a década 1970 e Portugal não era propriamente o país mais conhecido e divulgado, pelo que a hipótese de reconhecer ou ser reconhecido era remota, senão impossível. A verdade é que dois professores foram falar-lhe para saber do “tio António”, um deles perguntando especificamente se ainda tinham Moscatel Roxo. Esta história é contada com orgulho, o que é natural, e também com um enorme reconhecimento pelo que António Porto Soares Franco significou no rumo da empresa e dos seus vinhos.


A geração mais nova olha para trás e tem uma leitura muito clara. António Maria, vice-presidente e filho de António (presidente), refere que o pioneirismo sempre foi uma das características “desta empresa e desta família de cabeça aberta”. E mais um exemplo de vanguarda é, sem dúvida, a criação de rosés, primeiro o Faísca, em 1937, depois o Lancers, em 1944, este último totalmente concebido para agradar ao mercado norte-americano (que, na altura, não estava habituado a beber vinho), ambos com a assinatura, mais uma vez, do “tio António”. Sofia Soares Franco, irmã de António Maria e responsável pela Comunicação e Enoturismo, acrescenta que há um “ADN que vem desde o fundador. Não fazemos só o que nos está destinado, vem desde a fundação há quase 200 anos”. E acrescenta ainda: “Foi passando de geração em geração. São gerações mais modernas que os seus pares”.


Ao longo de quase 200 anos de história, os exemplos de marcas, estilos, atitudes, mercados conquistados ou adegas ultra modernas poderiam continuar a ser referidos. Há, no entanto, um tema que, pela sua atualidade e por se apresentar, hoje em dia, como uma tendência sólida, não resistimos a introduzir na conversa: os vinhos de talha.

A aposta nos vinhos de talha


A José Maria da Fonseca é, como vimos, uma empresa de Azeitão que, ao longo da sua história, expandiu investimentos para outras geografias além da Península de Setúbal. Hoje está em cinco regiões e os seus vinhos do Alentejo são, há muito, reconhecidos. E, também aqui, a história antecipou-se e o capítulo escrito pela José Maria da Fonseca aconteceu algumas décadas antes de o país acordar para os vinhos de talha.
Conta-nos António Soares Franco que o desejo de comprar terra no Alentejo surgiu naturalmente, já que uma parte da família era alentejana - a “avó Soares Franco” vinha de Évora e o “avô Soares Franco” vinha de Fronteira (quarta geração, portanto). O primeiro impulso foi Portalegre porque o pai de António e de Domingos, Fernando Soares Franco, sempre lhes disse: “Há um Alentejo que a maioria não conhece, mas que eu sempre conheci, Portalegre. Os vinhos são completamente diferentes.” Também aqui temos que enfatizar o discernimento sobre a qualidade e diferença destes vinhos, muito antes de se olhar com a devida atenção para a Serra de São Mamede, como agora acontece.
Por este motivo, quando decidem avançar para outras regiões, compram inicialmente uma propriedade em Portalegre, que veio dar origem aos vinhos D’Avillez (de Jorge Avillez, primo dos Soares Franco). Paralelamente a este negócio, surge a oportunidade de comprar a adega e as vinhas de José de Sousa Rosado Fernandes, tendo a proposta acontecido de forma irrecusável, quando os herdeiros escolhem a José Maria da Fonseca como a única empresa capaz de continuar o trabalho da histórica casa alentejana. É desta forma que se muda agulhas e, de Portalegre, a José Maria da Fonseca passa a sua aposta para Reguengos de Monsaraz. 


O início não foi fácil. Encontraram uma adega a apodrecer e a decisão passou por salvar a história de uma casa única. Assim, manteriam a forma tradicional de fazer vinho em talha, conforme sempre tinha acontecido. Mas esta decisão acarretou vários problemas. O primeiro de todos era o facto de não existirem vinhos na adega, logo não havia historial para estudar o seu perfil. Depois, a vinha não estava cuidada e, com a ocupação pós 25 de Abril, houve a introdução de castas diferentes, sem qualquer critério, pelo que era necessário perceber como era originalmente e reestruturá-la. Quanto à questão das talhas, Domingos diz-nos, de forma pragmática e sorriso rasgado: “Em Davis não me ensinaram a fazer vinhos em potes!” Mas fez. A adega foi recuperada e dois adegueiros foram a ajuda preciosa para aprender o método de vinificação em talha.
Na altura, um outro dado foi fundamental para a compreensão daqueles vinhos. O irmão António conseguiu 12 garrafas de José de Sousa de 1940 num leilão da Christie’s e, nessa altura, comprovou-se o potencial e a raça, percebeu-se o estilo e, muito importante, houve a certeza que o caminho escolhido, seguindo a tradição, estava certo. Foi assim que nasceu o José de Sousa Garrafeira.


1986 é a data de colheita do primeiro vinho de talha da José Maria da Fonseca, feito por Domingos Soares Franco. Ou seja, esta empresa está há mais de 30 anos a trabalhar com talhas e o enólogo nunca parou a sua busca pela autenticidade destes vinhos, procurando reconstruir todos os passos deste processo milenar, encontrando formas de se manter fiel ao que se fazia tradicionalmente no Alentejo, quer em termos de variedades de uva, quer na adega. E tudo isto em épocas em que o gosto ia exactamente no sentido oposto, quando se procurava vinhos modernos, com castas internacionais, concebidos para agradar uma crítica que valorizava extracção, álcool e sobrematuração.


Por continuar seguidor do método original, Domingos Soares Franco é frequentemente apelidado de “o purista da talha”. Mas não se incomoda… o que o incomoda verdadeiramente é ver vinhos rotulados como “talha” que não cumprem o que é necessário. E tem a maior convicção que não há, no geral, empenho em fazer vinho de talha como antigamente, achando que falta à maioria desses vinhos a tipicidade da talha. Quanto perguntamos se quem está a começar vai à adega José de Sousa ver como se faz, não só para aprender, como para optimizar tempo de aprendizagem (já que existe um enólogo que estuda este processo há décadas), a resposta é não. Contrariamente ao que acharíamos normal, parece que não há muitas visitas com esse objectivo…


Quanto à tendência que se tem vindo a consolidar e que leva à procura de vinhos de talha, quer entre consumidores, quer entre produtores, António Maria e o primo, Francisco, filho de Domingos Soares Franco e director de Estratégia e Desenvolvimento, defendem que é uma evolução natural. O mundo do vinho está a passar da standardização para uma altura em que as pessoas querem coisas diferentes e autênticas. A talha tem uma história para contar, tem muito de genuíno e é isso que encanta as pessoas, continuando a ser um vinho de nicho, que deve ser explicado.

Uma prova distinta


Na nossa visita, tivemos oportunidade de provar novas colheitas, novidades e grandes clássicos. Começámos por alguns exemplos da série Colecção Privada Domingos Soares Franco, com o Moscatel Roxo Rosé 2017, que continua no seu estilo “Provence”, seco e de cor ténue, a que a personalidade da casta vem dar um certo romantismo, com todo o seu lado floral muito presente, quase como se exalasse essência de rosas. Depois, o Verdelho, ainda com muito pouco tempo de garrafa e a perceber-se já a sua personalidade muito limpa, com aromas bonitos de madressilva e cidreira, e grande frescura. Aqui, Domingos Soares Franco sublinha a origem desta variedade: “É mesmo Verdelho, da Madeira, não o Verdejo de Rueda”, diz-nos.


Tanto o rosé como o branco estão no mercado desde Fevereiro. Já os dois tintos que se seguiram, apenas estarão disponíveis em Maio. Ambos varietais, o Grand Noir, na sua primeira edição, e o Touriga Francesa que, para o enólogo, continua a ser a grande casta portuguesa. São vinhos sem madeira, muito focados e incisivos. O Grand Noir, que sempre foi usado nos lotes dos vinhos José de Sousa, foi na colheita de 2015 vinificado separadamente (2600 litros), pretendendo dar a conhecer a casta tintureira que partilha a ascendência com o Alicante Bouschet (também foi criada por Henry Bouschet, a partir de Aramon e Petit Bouschet). E parece-nos que o valor deste vinho vai muito para além da intenção didática, uma vez que nos encantámos com a sua personalidade. É um vinho com estrutura e profundidade, e provou a sua vocação para a mesa, já que nos acompanhou ao almoço de forma primorosa.


Quanto à Touriga Francesa, que Domingos Soares Franco continua a apelidar desta forma (e não Touriga Franca), é um vinho de 2013, com uma expressão de grande elegância. Pelo tempo que demora a revelar-se, a Touriga Francesa foi conjugada com 5% de Moscatel Roxo. Desta forma, nos primeiros anos, enquanto a Touriga ainda está a crescer, o Moscatel vem ajudar na composição pictórica. Agora, com quase cinco anos, é um vinho mais adulto, ao mesmo tempo delicado e poderoso, com um equilíbrio muito particular destas duas qualidades. E, aqui, começamos a entrar já numa certa intelectualidade.
Conhecemos, depois, produções de grande volume, para os quais Domingos Soares Franco, com o pragmatismo que lhe conhecemos, revela sem hesitação a sua intenção de agradar transversalmente a públicos vastos. E começamos com o Periquita Reserva 2015, com uns expressivos 998.000 litros, ou seja, muito para além de um milhão de garrafas. Este vinho resulta de um lote de Castelão (50%), Touriga Nacional (30%) e Touriga Francesa (20%), com oito meses de carvalho, maioritariamente americano, expressão que se nota bem na sua doçura, baunilha e ligeiro coco. Depois deste vinho, cuja facilidade de apreensão é declarada, segue-se o alentejano José de Sousa 2015 (provado na ed. 335), com Grand Noir, Trincadeira e Aragonês, numa produção de 83.500 litros, menos marcado pelas notas mais adocicadas da madeira (tem mais carvalho francês) e que resulta num vinho muito geométrico, no qual taninos, acidez e estrutura estão perfeitamente harmoniosos, num estilo que podemos associar ao classicismo da região e, sobretudo, a uma grande versatilidade na mesa.
Passamos, depois, a vinhos premium da Adega José de Sousa. Com o sugestivo nome Puro Talha, poucas dúvidas restam relativamente à filosofia com que foi criado. O Puro Talha 2015 (provado na ed. 335) é então um vinho de talha, com um lote de Grand Noir (50%), Trincadeira (30%), Aragonês (10%) e Moreto (10%), de uma vinha com mais de 70 anos, com uvas pisadas a pé, mesa de ripanço (desengace à mão) e fermentação em talha, com temperatura controlada pela rega diária das talhas, sendo usado 30% de engaço na fermentação. Depois de Novembro, uma parte do vinho estagia em cascos de 600 litros de castanho, durante 18 meses, enquanto o restante vinho faz estágio em talha. É um vinho fluído na boca, com um estilo bem definido, sem exuberância e com uma saudável alegria. As notas de barro estão lá, a madeira quase imperceptível, a frescura verde que lembra gengibre, a evolução diferente, que desperta curiosidade e nos faz querer perceber o estilo. Um vinho aparentemente simples - e é essa a sua riqueza, muito autêntico e com uma persistência notável.


O J de José de Sousa 2014 (provado na ed. 335) foi fermentado em potes e em lagares (50%+50%), e teve um estágio de 12 meses em carvalho francês. Este vinho apenas tem edição em anos especiais e, para Domingos Soares Franco é realmente especial. O lote integra Grand Noir (56%), Touriga Francesa (12%) e Touriga Nacional (32%), tendo sido produzidos 2.600 litros. Este 2014 é um vinho muito fino, de aroma muito sedutor e grande arquitectura, que mostra bem a raça dos José de Sousa e que está, certamente, no universo dos grandes vinhos portugueses.


Para terminar os vinhos tintos, voltámos à Península de Setúbal. O Periquita Superyor é o topo de gama da marca histórica, no qual se pretende encontrar a melhor expressão do Castelão. Assim, o 2015 é um lote constituído quase totalmente por Castelão (92%), ao qual se juntou Cabernet Sauvignon (8%) e Tinta Francisca (2%), tendo sido usados lagares e 10 meses de estágio em carvalho francês novo. O resultado é um vinho muito polido, de acidez elevada, que alia uma notória suavidade a uma textura bem marcada. Existe, também, uma vibração com alguma frescura vegetal a lembrar notas de seiva, à qual não será alheio o uso de 30% de engaço. Toda a sua nobreza de carácter não nos deixa esquecer que foi na vinha da Periquita que tudo começou, quando José Maria da Fonseca decidiu engarrafar com esse nome os vinhos da casta Castelão Francês ali produzidos (variedade que, ao longo de várias épocas, foi chamada exatamente “Periquita”).


Por último, o Hexagon 2009. É claro o grande prazer que Domingos tem com este vinho que apenas considera fazer em colheitas que, pela sua qualidade, mereçam a distinção. E o próximo a merecê-la será o 2014. Quanto ao nome, resulta das seis castas que o compõem, sendo elas Tannat, Syrah, Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinto Cão e Trincadeira. É tratado como um príncipe e, como os príncipes da casa, é feito em lagar e estagia em carvalho francês durante um ano. Pela sua idade, podemos apreciá-lo de forma diferente. É um vinho já com uma evolução que permite um outro patamar de envolvimento. É encorpado e complexo, aveludado, com uma altivez que o distingue e que se relaciona com a refeição de forma tão natural quanto elevada.

Os moscatéis da José Maria da Fonseca


Para o final da prova, estavam reservados os moscatéis. E, para não nos esquecermos que estamos numa casa “irrequieta” e que durante toda a sua história lançou tendências, deparamo-nos com uma garrafa diferente, que havíamos conhecido no lançamento do Bastardinho 30 Anos, em Abril de 2017, no Belcanto de José Avillez, em Lisboa. Estamos, aqui, perante uma inovação a que Domingos Soares Franco foi buscar inspiração a partir dos espumantes de Ice Wine canadianos. Neste caso, fê-lo a partir de Moscatel, criando um espumante licoroso. E o resultado é surpreendente, ao mesmo tempo que inesperado. Os nossos sentidos parecem ser sucessivamente atraiçoados à medida que o vinho se vai revelando. Senão vejamos. A garrafa parece de espumante, de uma dimensão reduzida (375 ml), mas a rolha é como a de um vinho tranquilo, que se retira com um saca-rolhas (!). Depois, estamos à espera de ver bolhas no copo mas apenas conseguimos distinguir um vinho com ar glicerinado, sem qualquer vestígio de efervescência. Por último, quando já acreditávamos que o vinho era mesmo um Moscatel, bebemo-lo e sentimos uma finíssima bolha, como um picar. Ou seja, estamos a ser permanentemente desafiados e o resultado é um vinho completamente diferente a que a José Maria da Fonseca chamou Alambre Ice. A primeira edição, de apenas 578 litros, é da colheita de 2005 (provado na ed. 336) e interessa perceber como se chegou a este vinho que cheira a frio. A base é um Moscatel Roxo, com 18% de volume de álcool e 244g/l de açúcar. Depois, foi desalcoolizado, baixando o seu teor alcoólico para 5% (uma destilação a baixa temperatura e em vácuo). Só depois se provocou uma segunda fermentação, que aconteceu em cuba fechada (método Charmat), resultando num vinho com 8,5% de álcool e 185 g/l de açúcar residual. A extrema viscosidade do vinho permite um vidro de espessura normal para a garrafa aguentar as três atmosferas de CO2, ao mesmo tempo que não é necessária rolha com muselet. Essa viscosidade é também a causa para não vermos bolhas e apenas as sentirmos.


O Alambre Ice é muito aromático. Os descritivos florais e frutados que associamos à casta estão lá, acompanhados de uma ligeira nota metálica no aroma que, ao mesmo tempo que lhe acrescenta nervo, também parece que cheira “a frio”. A boca é uma explosão de sensações, com doçura e grande viscosidade a serem povoadas por bolhas mínimas e nervosas. Quanto à acidez, há que frisar que é uma das grandes protagonistas da equação. Sem uma acidez tão alta, o vinho perderia todo o encanto, tornando-se cansativo pela doçura. A acidez ajuda, também, a amplificar o brilhantismo de uma efervescência tão pouco ortodoxa. Por último, a temperatura a que este vinho é bebido faz toda a diferença. Domingos Soares Franco confiou em Rodolfo Tristão, sommelier do Belcanto e colaborador da Revista de Vinhos, para o ajudar nesta tarefa e os 6ºC apontados são completamente certeiros. Só a uma temperatura tão baixa o vinho exprime a sua frescura e equilibra todas as suas facetas mais extremadas.


Muitos poderão dizer que é um vinho tecnológico. Seria apenas isso se não tivesse o virtuosismo de provocar emoções. A criação e o exercício de experimentação devem ter dado um tremendo gozo mas, mais que isso, a enologia e capacidade técnica foram usadas como ferramenta, como meio e não como fim. E essa é a grande lição a retirar. O Alambre Ice é um vinho de nicho, produzido em “micro” quantidades e que, na sua constante tensão doce-ácido e viscoso-pétillant, vem reforçar a plasticidade do Moscatel fortificado.


E terminamos com dois Moscatéis de Setúbal, o Alambre 20 Anos e o Trilogia (provado na ed. 337). O primeiro é um clássico, cujas colheitas que entram no lote variam entre 1911 e 1994. O resultado é um vinho extraordinário, num universo muito ligado aos aromas de laranja, já com o indispensável vinagrinho que a mescla de idades lhe deu. A boca é ampla e sedosa, de acidez e doçura em perfeita sintonia, num vinho de grande sedução. E, se todos estes adjectivos vão já no sentido da contemplação, o que dizer do Trilogia? Para o lote foram escolhidos três grandes anos, 1900, 1934 e 1965, e este vinho que está agora a ser colocado no mercado com uma garrafa diferente, mais sofisticada e elegante, é o mesmo lote inicial, lançado há alguns anos.


Perante vinhos como este impõe-se respeito e o acto de beber é então reconhecido como acto de cultura em toda a sua plenitude. Que adjectivos usar senão grande, sedutor, infindável, belo? É um Moscatel lânguido, com uma surpreendente frescura que acompanha uma idade invejável e um mistério que excede tudo isto. E é precisamente quando nos deparamos com algo que mantém sempre um lado misterioso, livro, vinho ou obra de arte, que devemos tomar como lição de humildade. Quanto à nova garrafa, o melhor elogio será evocar o fundador, “esta é a maneira civilizada de apresentar os objectos”.

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