Manuel Pinheiro

“Houve uma alteração de cultura da região”

Fotografia: Fotos D.R.
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Nuno Guedes Vaz Pires

Nuno Guedes Vaz Pires

Presidente da Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) há 17 anos, Manuel Pinheiro é licenciado em Direito pela Universidade Católica e pós-graduado em Administração pelo Collége d´Europe de Brugge, Bélgica. É também presidente da ANDOVI – Associação Nacional das Denominações de Origem Vitivinícolas, que agrega as regiões demarcadas portuguesas – e foi vice-Presidente do Conselho Europeu Profissional do Vinho e secretário-geral da ANCEVE. Esteve envolvido na definição estratégica que abriu caminho ao aparecimento da ViniPortugal. Nesta entrevista à Revista de Vinhos, falámos essencialmente da grande tarefa das últimas décadas: a revolução tranquila da região dos Vinhos verdes.

 

Está há 17 anos à frente da CVRVV e desde então as exportações mais do que duplicaram. A que se deve esta afirmação dos Vinhos Verdes nos mercados internacionais?

Realmente, a região tem feito uma revolução grande, embora tranquila. No início da década de 2000 tínhamos excedentes enormes. Só para lhe dar um exemplo, em 2003 pedimos à Comunidade Europeia para destilar 50 e tal milhões de litros que tínhamos a mais. Não havia mercado para as uvas. E, de facto, isso conseguiu-se inverter. Julgo que uma grande parte disso resultou do facto de os produtores aceitarem que investir na viticultura era essencial, que era preciso fazer mais e melhores uvas, e terem concentrado esse investimento nas castas da região. Nos anos 90 e no início da década seguinte discutíamos se devíamos fazer aqui vinhos como se fazia à data no Alentejo. Mas a região concluiu que não. Que tinha que fazer os Loureiros, os Alvarinhos, os Avessos. E, no tinto, o Vinhão. E depois, mais tarde, o rosado. Hoje, temos melhor matéria-prima e vamos tendo cada vez mais. E depois também houve uma alteração na parte comercial. Hoje em dia não há semana alguma em que não haja produtores de Vinho Verde pelo mundo fora. E na altura não havia.

No meio de tudo isto está o vinho, que é o produto final e o mais importante. E eu acho que os vinhos mudaram muito. Houve uma alteração de cultura da região. A comissão terá ajudado alguma coisa, com certeza. Mas essa alteração de cultura da região foi muito motivada pela crise do início da década de 2000, em que havia vinho a mais, em que o vinho não tinha valor, não tinha mercado. Houve aí uma filtragem e o lançamento de novos projetos.

 

Já que estamos a falar de exportações, os EUA são um mercado fundamental…

Sim, nós exportamos para mais de 100 países e os EUA são o nosso mercado número um. E trata-se de um mercado muito interessante porque absorve muito vinho, mas ainda tem um potencial enorme. Para nós, os EUA são importantes; para eles, o Vinho Verde não é importante, nós não representamos nada no mercado norte-americano. E o potencial de crescimento está aí. Além disso, é um mercado muito diverso. Colocamos vinhos de entrada de gama e colocamos Alvarinhos. Por exemplo, a Alemanha, que é o nosso mercado número dois, é um mercado muito mais difícil porque é sobretudo um mercado de supermercados, onde o preço médio é mais baixo. De facto, a exportação tem corrido muito bem e estamos a crescer de forma muito clara. Sobretudo nos mercados de topo, estamos fortes. Tenhamos nós produto de qualidade e bom senso para não descer da gama onde já estamos, e acho que vamos continuar a crescer.

 

E o mercado nacional?

Pois, o mercado nacional é uma dificuldade enorme. Estamos estagnados no mercado nacional. Crescemos um pouco no preço médio, mas estamos estagnados em volume. O Alentejo é líder – e com mérito e com grande força – e nós somos números dois. O mercado nacional é um mercado muito pressionado pelo preço. Temos um outro problema, que é o mercado regional. No Norte estamos muito presentes, mas muito pouco presentes no Sul, em Lisboa e no Algarve. Aí podemos crescer. E há uma área que é um desafio que temos de ultrapassar: o crescimento do turismo em Portugal não está a ter resultados no Vinho Verde como está a ter nalguns outros. Nós aí temos de fazer uma maior associação do Vinho Verde à restauração. É uma área a trabalhar.

 

Há uma frase sua que lhe peço para interpretar no contexto da conversa que estamos a ter agora: “Não é preciso ter uma licenciatura para pedir um Vinho Verde”…

A cultura do vinho é apaixonante. Mas não nos podemos esquecer do fenómeno dos “enochatos”. Há os enófilos, mas também há os “enochatos”. Ou seja, cria-se uma cultura de enorme complexidade em volta do vinho que dificulta a aproximação ao vinho por parte do consumidor. Eu julgo que o Vinho Verde de entrada de gama, os lotes, que é o vinho mais competitivo e mais conhecido, abre-se muito a esse conhecimento. Não é muito exigente, digamos assim, é um vinho que se dispõe a um convívio mais informal. Nós próprios temos de chamar o consumidor para conhecer outros vinhos, para conhecer as castas, o Loureiro, o Alvarinho, para conhecer as sub-regiões. Temos de crescer nessa complexidade, mas sem perder o primeiro ponto. E há outra coisa que não devemos perder: o desafio de fazer vinhos interessantes, complexos e ricos, mas que sejam moderados no álcool. O álcool será um problema cada vez maior no futuro. Vamos ter rotulagem de nível de calorias, assim como já temos hoje do álcool, e o consumidor está consciente de que álcool é igual a calorias.

 

E a afirmação da região vai passar mais pelas castas, de que são exemplos maiores o Loureiro ou o Alvarinho, ou pelos “blends”, pelos vinhos de lote?

Hoje, cerca de 90% do vinho da região são “blends”. É o que fez a nossa história. De há dois ou três anos a esta parte, contudo, as castas estão a desenvolver-se muito. Há mercados que as procuram e há cada vez mais conhecedores. Sobretudo Loureiro e Alvarinho. Quanto ao Avesso, é pena, mas ainda temos muito pouca matéria-prima. E refira-se o lote de duas castas, Loureiro/Alvarinho, por exemplo, que não existia antes do acordo do Alvarinho, e que este ano fechará com cerca de 800.000 litros de venda. É, portanto, um lote de sucesso. E o lote Alvarinho/Trajadura, claro, que já tem marcas muitos fortes há algum tempo. Hoje temos matéria-prima que dantes não tínhamos e imensas vinhas estremes, onde é possível ir buscar bom Loureiro e bom Alvarinho.

 

Depois há a questão dos preços…

Quem faz os preços é o mercado e são os produtores. Nos que diz respeito ao mercado nacional, a região dos Vinhos Verdes já está longe de ser a região com preço médio mais baixo. Temos vindo a fazer um percurso de crescimento, criando uma imagem de valor. Os produtores têm de fazer o trabalho por parte deles… e quando lhes aparece um negócio muito tentador de baixo preço, não podem queixar-se de que é a Comissão ou o Estado que fazem com que os preços sejam baixos. Na CVRVV, o nosso esforço é no sentido de valorizar.

 

“Precisamos fazer as marcas de quinta”

Mas ainda existe um défice de marcas na região. Há os grandes “players” com marcas fortes, é verdade, mas depois há pequenos produtores que fazem grandes vinhos – mesmo alguns dos melhores vinhos brancos do país –, que no entanto são penalizados por não haver um trabalho específico de construção de marcas…

Subscrevo inteiramente. Temos algumas marcas muito fortes, de lote, mas precisamos de fazer agora esta segunda geração, que são as marcas de quinta, as marcas de castas, marcas que tragam mais valor. Há quem o esteja a fazer de forma admirável – Soalheiro, Covela, Rasa – mas precisamos de outros que o façam. Fazer marca é essencial e os produtores têm de ter consciência disso. E ao fazerem marca ganham autonomia.

 

E quanto ao Alvarinho, à sub-região de Monção e Melgaço e à mudança do quadro legal, como estão as coisas?

Em 2014, somos confrontados com a seguinte situação: temos uma legislação muito antiga que circunscreve a Monção e Melgaço a rotulagem de vinhos com a casta Alvarinho, mas começamos a ter plantio de Alvarinho um pouco por toda a região. E fora da região estava a crescer mais do que na sub-região de Monção e Melgaço. Nós somos confrontados com este problema. Se na altura não temos mudado a lei, ia começar a aparecer Vinho Regional Minho com a casta Alvarinho de forma crescente. A certa altura nós íamos ter a concorrência na mesma, só que um chamava-se Vinho Verde e o outro chamava-se Alvarinho. Neste contexto, tivemos uma queixa em Bruxelas de um produtor que levou a Comissão Europeia a notificar o Estado português de que tinha de abrir imediatamente as fronteiras do Alvarinho. E o acordo fez-se, demorou mais de um ano, teve as vicissitudes que teve, naturalmente, mas hoje está feito.

 

E qual é a avaliação do acordo que podemos fazer hoje?

A nova lei entrou em vigor em 2015. Aumentaram as vendas de Alvarinho, aumentaram as vendas dos lotes, e o preço da uva não desceu. Parece-nos que os primeiros passos estão ser dados com muito interesse. A verdade é que as vendas de Alvarinho após o acordo bateram recordes. E um ponto muito importante foi este: enquanto antes do acordo bastava ter 1% de Alvarinho na garrafa para mencionar-se a casta, agora é preciso ter pelo menos 30% de Alvarinho no lote. E a sub-região passou a ter meios como nunca teve antes. Repare: Monção e Melgaço vão poder fazer nos próximos seis anos um investimento em “marketing” que a maior parte das regiões demarcadas não poderá fazer. A questão está em saber se vão aproveitar esta oportunidade para se internacionalizarem e para crescerem ou apenas para, durante algum tempo, fazerem uma promoção sem resultados. Eu acho que na sub-região há produtores capazes de aproveitar isso a sério.

 

Há 17 anos neste cargo, imagino que tenha de renovar estímulos permanentemente para não cair na rotina…

É verdade. Veja: no início preocupava-me mais a parte comercial e enológica. Hoje preocupa-me muito mais a viticultura. Mas muito mais! A parte comercial e de mercado tem um rumo claro. A enologia da região está muito boa. Mas precisamos de fazer uma revolução na área vitícola. Interessa-me muito o seguro de colheitas – e temos o maior seguro de colheitas da Europa – e preocupa-me muito o preço da uva. Temos de criar condições para que as pessoas invistam na vinha para termos fruta de qualidade e assim termos grandes vinhos.

 

Mais 17 anos pela frente, se for caso disso?

Sinceramente, é da minha própria maneira de ser ir gerindo num prazo mais curto. Não tenho planos para o futuro. Logo se verá.

 

Assista aqui à entrevista da Revista de Vinhos - A Essência do Vinho com Manuel Pinheiro.

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