Prova Temática: Vinhos Palhete

Fotografia: Ricardo Garrido
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José João Santos

José João Santos

Numa fase em que os rosés tendem para o estilo Provence, nada extrativo em cor e aromaticamente mais neutro, serão os Palhete os outros rosés ou mesmo os tintos leves e atraentes que milhões de consumidores pelo mundo anseiam provar?


Pinot Noir será porventura a mais sedutora casta tinta da atualidade à escala global e não apenas pelo facto de a Borgonha ser das regiões do momento. De aromas sinceros a fruta vermelha (cereja, framboesa, morango), nos exemplares mais complexos quase sempre também encontramos notas elegantes de especiaria e folha de tabaco. Acrescem outros predicados: taninos finos, acidez média-alta, final longo, álcool moderado, predisposição para boa evolução. 

Um dos mais exclusivos vinhos do mundo, o Romanée-Conti, é um Pinot. Milhares de outros – franceses, norte-americanos, neo-zelandeses – apresentam abordagens diversas, umas mais leves e imediatas, outras estagiadas e detalhadas para patamares igualmente distintos.

Em Portugal, as experiências com Pinot Noir têm-se intensificado de norte a sul, ora com resultados interessantes ora sem acrescentos que entusiasmem. A maioria das regiões do nosso país não tem nem os solos nem o clima da Borgonha; a casta é cheia de caprichos, tem película muito delicada, é pouco amiga de um clima cada vez mais quente e sujeito a intempéries súbitas. À luz da viticultura e da enologia tudo isto é um desafio suplementar, pelo que alcançar um bom Pinot Noir português é uma espécie de garantia de ovação de pé, já que desafia a lógica das coisas e contraria inevitabilidades.

Recorrendo ao nosso incrível património de castas, por vezes esquecemo-nos que parte originará vinhos semelhantes a alguns dos Pinot que o mundo tanto quer provar. O Castelão, vinificado de forma mais suave está na base de vinhos tentadores que podem expressar-se ao jeito de um Pinot; a Baga, interpretada de outra forma na adega, também. Alargando o leque, o Rufete, o Bastardo, o Alvarelhão (…). Aromaticamente atraentes, de acidez mais evidente nuns casos e menos sublinhada noutros, sujeitas a timings de vindima pensados e ao tratamento devido na hora da vinificação, todas estas castas podem revelar-se boas opções. Mas há uma roda que já está inventada em Portugal, os vinhos palhete/clarete.

A Comissão Europeia, na lei transposta para Portugal, não traça uma clara linha de fronteira entre o que é um palhete e um clarete. Por isso, seguimo-nos pela legislação aplicável na Portaria 26/2017, de 13 de janeiro de 2017. Clarete: “Menção prevista para vinho tinto, pouco colorido, com um título alcoométrico volúmico adquirido não superior em 2,5% vol. ao limite mínimo legalmente fixado”, ou seja, em torno dos 11,5%; palhete ou palheto: “Menção prevista para vinho tinto, obtido da curtimenta parcial de uvas tintas ou da curtimenta conjunta de uvas tintas e brancas, não podendo as uvas brancas ultrapassar 15% do total”.

Há as exceções de cariz regional, a mais conhecida das quais o Medieval de Ourém, agora um DOC Encostas d´Aire elaborado com 80% de uva branca (Fernão Pires) e 20% tinta (Trincadeira), precisamente uma receita contrária à do palhete. 

Iniciam a fermentação separadamente – o Fernão Pires em bica aberta, a Trincadeira desengaçada e fermentada em dornas e com maceração. Respeitando a tradição dos monges de Cister, na parte final da fermentação o mosto tinto, com as películas, é adicionado ao mosto branco em fermentação permitindo um final fermentativo em conjunto.

O tradicional método ainda hoje é seguido por pequenos produtores da zona de Ourém, embora nos anos 80 e 90 do século passado tenha corrido o risco de desaparecer por não respeitar as diretrizes da União Europeia. O regime de exceção surgiu em 2005, com a aprovação do Medieval de Ourém que estabeleceu regras bem apertadas.

Sinais de um caminho

Numa fase iniciática, consumidores mais jovens temem começar pelos tintos, optando pelos brancos, pelos rosés, pelos espumantes. Os tintos são frequentemente entendidos como uma espécie de território mais agressivo pelos eventuais excessos de taninos, estágios e estruturas menos dóceis. Numa fase de procura de algo diferente, consumidores experimentados esmiúçam possibilidades que lhes ofereceram algo como nunca provaram, talvez até difícil de decifrar – se rosés raçudos, se tintos leves. Estão assim identificadas duas oportunidades, às quais poderemos acrescentar uma terceira, a da imprensa especializada.

“Devo admitir o meu agrado pelo renascimento das categorias tradicionais dos vinhos palhete e clarete de Portugal, que expandem o repertório dos vinhos rosa”, escrevia na Revista de Vinhos nr. 351, de fevereiro deste ano, Sarah Ahmed, a nossa “Wine Dectetive”.

No mundo do vinho, felizmente em constante evolução graças a tendências mais ou menos duradouras no calendário dos tempos, os vinhos palhete/clarete e os Medieval de Ourém são uma outra preciosidade portuguesa que importa dar a conhecer. São o retrato de Portugal, são os melhores dos melhores? Não, são sobretudo uma peça do incrível xadrez da diversidade portuguesa, algo que por si só é já qualquer coisa. Mas se ninguém o souber, de que adianta?

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