Quinta da Alorna - O clássico latifúndio

Fotografia: Fabrice Demoulin
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

Hoje, chegamos à Quinta da Alorna pela estrada nacional, mas nem sempre foi assim. Quando os marqueses se deslocavam da capital, faziam-no pelo Tejo. Como burgueses do século XXI, entramos de carro, passando um portão imponente que anuncia a alameda que nos vai conduzir a uma casa nobre, de ar afrancesado e desenho seguro.


A história desta quinta tem a dose certa de romantismo. D. Pedro de Almeida conquista o Forte da Alorna, na Índia, obtendo por esse feito o título de “Marquês da Alorna”. Em 1725 constrói este palácio, em Almeirim, que só sairá da família já em finais do século XIX, quando é vendido ao Conde da Junqueira. Depois, em 1915, é novamente vendido a Manuel Caroça, estando na família Lopo de Carvalho há cinco gerações (por ligações familiares a Manuel Caroça). A famosa Marquesa de Alorna, 4ª na descendência, que empresta o nome aos vinhos premium da casa, foi uma mulher culta e viajada, amante das letras e ainda hoje lembrada pelo pioneirismo de ter criado as primeiras escolas femininas em Portugal.

Esta é uma parte importante da história da região – as antigas casas aristocráticas do Ribatejo, com as explorações agrícolas ligadas à terra e às gentes, com os cavalos e a tradição. A propriedade tem 2.800 hectares, dos quais 220ha são de vinha, ocupando a floresta uns expressivos 1.900 ha. A quinta também produz azeite, cereais, horto-frutícolas e orgulha-se do centro equestre, com cavalos puro sangue lusitano. Pedro Lufinha, diretor-geral, diz-nos que a importância do Ribatejo é, por um lado, a relação com as pessoas (as mesmas que defenderam a quinta das ocupações no 25 de abril), por outro, o latifúndio que proporciona a tranquilidade (entenda-se “cashflow”) de não estar dependente da produção de vinho.
Martta Reis Simões é a enóloga da Quinta da Alorna há 13 anos e é responsável por uma produção anual de 1,85 milhões de litros, dos quais se exportam 45%. A maior parte das vinhas encontra-se em área de charneca (estamos na margem esquerda do Tejo) e Martta decidiu recentemente apostar nos solos de transição, junto ao palácio, onde já se vêem vinhas em produção.

Visitámos a charneca, em zonas de planície e planalto, com projeto para reestruturação a curto prazo. Segundo Martta, o Castelão será preservado pela qualidade e delicadeza. Aqui percebem-se claramente os solos de calhau rolado e areia, nada homogéneos, passando a areia pobre em apenas poucos metros. As vinhas mais antigas, com cerca de 30 anos, encontram-se precisamente nestas zonas. Nos vinhedos da Alorna existem 19 castas, que se dividem entre portuguesas e internacionais.

Os vinhos da Quinta da Alorna são muito consistentes e bem representativos do carácter da região. Tivemos oportunidade de partilhar uma refeição na magnífica sala de jantar do palácio, onde alguns vinhos nos mostraram a apetência para a mesa. O Verdelho 2016 e o Touriga Nacional 2015, de carácter franco, direto e versátil, ótimos exemplos do estilo da Alorna. Para a sobremesa, Colheita Tardia 2012, 100% Fernão Pires, cujo rótulo encontrou já lugar entre os clássicos.

Não poderíamos terminar sem comentar o perfil dos Marquesa da Alorna, um projeto que se iniciou em 2005 e cujos primeiros vinhos foram lançados em 2011, com o branco de 2009 e o tinto de 2008. A filosofia inerente conduz a um critério de exigência que leva a produções reduzidas, com cerca de 3.500 garrafas de cada referência. São escolhidas as melhores castas em cada ano, pelo que se procura um perfil idêntico através de lotes que variam de colheita para colheita. A Quinta da Alorna opta por não divulgar o lote associado a cada vinho e, dos que agora conhecemos, sabemos apenas que o branco tem quatro castas e o tinto, cinco. São vinhos sedutores, posicionados num nível distinto e que se distinguem pela forma magnífica como combinam suavidade e profundidade.

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