VINHOS DA COSTA VICENTINA

Portugal e o mar

Fotografia: Fabrice Demoulin
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

Na Costa Vicentina, bem colada às águas frias do Atlântico, assiste-se ao nascimento de uma espécie de sub-região de vinhos. De Grândola à Zambujeira, Cortes de Cima, Vicentino, Pêgo da Moura e Herdade do Cebolal materializam o sonho da frescura e da diferença, com resultados que prometem longa vida. 

 

Existe um Alentejo diferente, até há bem pouco tempo afastado de qualquer imaginário associado a vinho. A costa atlântica, numa faixa que começa na zona sul da Península de Setúbal e se estende até à fronteira com as praias algarvias (da Comporta a Odeceixe), está a ser descoberta por produtores que pretendem uma alternativa a alguma da robustez e concentração dos vinhos do interior. Surge um movimento à volta de palavras-chave como “frescura atlântica”, “clima ameno” ou “ventos marítimos”, que vai ganhando expressão e cujos vinhos são notados exatamente pelo perfil elegante.

Os projetos que existem têm todos o denominador comum de uma certa dose de pioneirismo. Começa a nascer um sentimento de identidade, a partir do qual se pode quase falar de uma nova “sub-região”. Essa sub-região (chamemos-lhe assim), Costa Alentejana ou Costa Vicentina, tem ainda a particularidade de englobar as denominações Alentejo e Península de Setúbal. Ou seja, a diferença é a sua força, independentemente das fronteiras das regiões geográficas e das denominações de origem. O clima marítimo, com verões moderados, invernos frescos e húmidos, ventos e nevoeiros, condicionam a maturação, tornando a época de crescimento da uva mais longa, com um amadurecimento mais lento, benéficos para a acidez, equilíbrio e frescura dos vinhos. Se a tudo isto associarmos ainda diversidade e riqueza de solos, a zona com mais horas de luz solar, o ecletismo de castas e a criatividade e ambição de quem faz vinho, percebemos que estamos perante o início de um fenómeno que corre o sério risco de assumir papel de relevo entre os vinhos portugueses.

Em 2013 foi criada a APVCA – Associação de Produtores de Vinhos da Costa Alentejana. O papel, ainda discreto, tem sido promover os vinhos junto dos municípios, conseguindo já que os restaurantes apresentem nas cartas cerca de 50% de vinhos da região.

Visitámos quatro produtores, todos com identidade própria e filosofia distinta. Em todos nos encantámos com a história, percebendo o enorme potencial e plasticidade da região, muitas vezes em vinhas ainda muito novas e projetos que, apesar do sucesso, ainda estão no início. A ligação de Portugal ao mar é histórica e epidérmica… surpreendentemente, em pleno século XXI ainda existe Atlântico por descobrir.

CORTES DE CIMA - VINHAS DA COSTA

O atlântico de Carrie e Hans

 

A história desta família americana-dinamarquesa já foi desvendada vezes sem conta. Carrie e Hans Jorgensen fixaram-se na Vidigueira, em 1988. Após vários anos a velejar, encontraram o que hoje continuam a chamar de “paraíso”. E por lá ficaram, iniciando Cortes de Cima.

Na Universidade de Davis, na Califórnia, Hans foi aconselhado a apostar em boas castas tintas ibéricas e, mesmo sendo a Vidigueira uma zona histórica de brancos (na Exposição de Berlim de 1888, a Grande Medalha de Honra foi atribuída a um vinho branco da Vidigueira), Hans sempre produziu tintos. Para os brancos procurava outra motivação, um perfil de frescura que considerava não ser possível naquela região. Começa, assim, uma nova procura de “paraíso”, com foco na faixa atlântica.

O projeto Vinhas da Costa, com cerca de 35 hectares na zona de Vila Nova de Mil Fontes, inicia-se em 2008 e é pioneiro na localização a sul da costa alentejana, a apenas três quilómetros do mar. A nova vinha está ainda mais próxima, a 1,5 km. Em solos maioritariamente arenosos, com argila a um metro de profundidade, as castas escolhidas são Verdelho, Gouveio, Alvarinho, Loureiro, Antão Vaz, Sauvignon Blanc e Chardonnay. Quanto a tintos, Pinot Noir e algum Aragonês. A vinificação é feita na adega de Cortes de Cimas, na Vidigueira, com enologia de Hamilton Reis.

A grande diferença apontada pelos produtores é a frescura conseguida através de uma temperatura que nunca sobe dos 30ºC (enquanto na Vidigueira facilmente existem dias acima dos 40ºC), o nevoeiro matinal e as brisas marítimas.

As primeiras produções datam de 2010 e, atualmente, estes vinhos representam cerca de 20% da produção da Cortes de Cima: Sauvignon Blanc, que Hans pretende se revele pelo carácter delicado e fresco da casta no Loire, Alvarinho, que destaca pela acidez natural alta, Chaminé, Cortes de Cima branco e Pinot Noir. Quer o Chaminé quer o Cortes de Cima resultam de “blends” de Viognier, da herdade da Vidigueira, com uvas da zona atlântica. Para o descontraído Chaminé foram usadas Sauvignon Blanc, Verdelho e Antão Vaz. Para o Cortes de Cima, mais exigente e parcialmente estagiado em madeira, foram usadas Sauvignon Blanc e Alvarinho. Por último, falta ainda referir o especial carinho dos Jorgensen pelo Pinot Noir, um pequeno príncipe reinante neste “paraíso” de brancos, que teve quatro anos de estudo e experimentação até ser lançado.

Os vinhos atlânticos da Cortes de Cima seguem o perfil moderno dos irmãos do interior alentejano e revelam um projeto adulto, coerente e profissional, felizmente com a dose certa de emoção. A beleza do sítio é contagiante. E os vinhos agradecem.

 

VICENTINO WINES

Da Noruega, com rigor

 

Vamos encontrar as vinhas da Vicentino Wines próximo da Zambujeira do Mar, já quase na fronteira com o Algarve. Esta é a mais recente aposta de Ole Martin, norueguês que há 30 anos inicia uma atividade agrícola no litoral alentejano, conseguindo uma exploração exemplar de 300 hectares. A Frupor centra a atividade em couve chinesa para mercados nórdicos, a par da produção de cenoura e de plantas ornamentais.

Para o vinho, Ole Martin usou o mesmo rigor e precisão que pautam as restantes atividades agrícolas. A vinha teve início há cerca de 10 anos e dos 40 hectares atuais pretende avançar para os 60.

A nossa visita foi acompanhada pelo entusiasmo de Bernardo Cabral, o enólogo que entra no ponto de viragem do projeto, quando a Vicentino deixa de vender uvas e se transforma em marca (primeiro vinho em 2014). Bernardo destaca a viticultura rigorosa que encontrou e a qualidade das uvas com potencial para vinhos diferenciados pela frescura e equilibrados pelas maturações mais longas que os nevoeiros permitem, numa zona com temperaturas que raramente chegam aos 30ºC. Os solos alternam entre argilo-xistosos e franco-arenosos, sendo as castas escolhidas Aragonês, Touriga Nacional, Syrah, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Semillon e Alvarinho. Como ainda não existe adega, as uvas são colocadas em câmaras de frio, para serem vinificadas na Casa Santa Vitória. 

Com o mar a 1,5 km, a paisagem varia entre vinha e jardins minuciosos, pequenos oásis de cor e geometria (ao gosto de Martin). A equipa, que envolve a enologia, a viticultura e a parte comercial, transmite-nos intensamente a motivação e orgulho. A reforçar esta segurança, Henri Boillot, produtor de referência na Borgonha, com múltiplos vinhos superiores nos melhores Crus, incluindo o mítico Grand Cru Le Montrachet, é visita regular e ter-se-á mostrado impressionado com o Sauvignon Blanc…

Entre rosé, brancos e tintos, contam-se sete referências, estando a ser lançado o Pinot Noir. Todos estes vinhos são realmente diferentes, de grande empatia. O rosé, um lote de Touriga Nacional e Aragonês, é exemplar no estilo seco e fresco. Os brancos variam entre o lote (Semillon, Sauvignon Blanc e Alvarinho) e o Sauvignon Blanc estreme, com este último a desarmar os mais céticos pela expressividade da casta e pela identidade de cada colheita, com diferenças marcantes entre 2014 e 15. O Colheita tinto é um lote de Syrah, Aragonês e Touriga Nacional, e o Reserva um varietal de Touriga Nacional. Por último, o Pinot Noir faz brilhar os olhos de Bernardo Cabral, na primeira edição, com a casta numa expressão própria e bonita, que não desonra os pergaminhos.

PÊGO DA MOURA

Dois amigos em Grândola

 

Na serra de Grândola, a propriedade Pêgo da Moura deve o nome a uma barragem romana na qual ainda corre água. Os nossos anfitriões são José Mota Capitão, nome incontornável da Herdade do Portocarro, e Manuel Ricciardi, amigo e sócio. A parceria surgiu porque, além da extravagância de plantar vinhas no Torrão - Península de Setúbal (Portocarro), que coexistem com campos de arroz, Mota Capitão intuía que a serra de Grândola, com o xisto, os ventos permanentes, a morfologia, as temperaturas moderadas e a proximidade do Atlântico, seria um local privilegiado para vinha. Como as coincidências mais não são que a prova que Deus existe, esta conversa foi tida com o amigo Manuel, que lhe disse ter os terrenos que ele procurava.

Em 2011 é plantada a vinha: 2 hectares de abordagem biológica, divididos entre Arinto e Antão Vaz. A vindima é realizada muito cedo, de forma a obter maior acidez e um grau alcoólico baixo: “O álcool é aborrecido”, diz-nos Mota Capitão. As vinhas estendem-se nas encostas, em clareiras rodeadas de árvores e “a magia do lugar transmite-se ao vinho”, continua.

A vinificação faz-se em Portocarro, com a consultoria enológica de António Rosado. O vinho Alfaiate resulta de um lote de Pêgo da Moura com as castas brancas de Portocarro, Sercial e Galego Dourado (base do vinho Carcavelos e que terá sido a casta do Torrão). Apesar da Sercial ser difícil de domar, a vivacidade e a longevidade que imprime aos lotes é uma aposta ganha. Com início em 2012 e uma produção de 12.000 garrafas, o Alfaiate é um branco sério e profundo, com identidade e diferentes expressões em cada ano. O 2014, por exemplo, é muito austero e altivo, enquanto o 2016 está ainda com aromas mais primários, demonstrando enorme potencial para evoluir como o irmão.

Pêgo da Moura tem, entretanto, mais 2 hectares de vinha plantada em Melides, a 1,5 km do mar, e uma área em zona de montado, com projeto para 5ha. A aposta passa pelas variedades atlânticas Ramisco, Malvasia de Colares, Castelão, Galego Dourado e Arinto. O projeto de José Mota Capitão e Manuel Ricciardi pretende, assim, agregar pequenos vinhedos. Os que vimos, inteiramente idealizados por ambos, mas também outros que descobrem, como o do artista plástico inglês Jason Martin, com quem já estão a fazer um vinho, ou a vinha centenária de Bual (Sémillon), de pé franco em areia, mantida pelo neto de quem a plantou, atualmente com 84 anos. Desta preciosidade serão lançadas, no verão, 1.000 garrafas. É um vinho que grita vida, de boca brutal, assertiva, desenhada com traço seguro. É muito impressionante, profundamente misterioso e um grande exemplo do que a idade provoca numa vinha.

 

HERDADE DO CEBOLAL

Mãe e filho unidos pelo “terroir”

 

No extremo sul da Península de Setúbal, a cerca de 17 km de Santiago do Cacém e a 10 da praia de Porto Côvo, encontramos a Herdade do Cebolal. Isabel Mota Capitão conta-nos que a produção de vinho foi iniciada pelo bisavô Caio, em 1880. Depois, a filoxera fez cumprir a história e as vinhas foram dizimadas. A replantação dá-se com o avô Francisco, tendo cada geração continuado a produção. Em 2008, Isabel herda a propriedade e começa um projeto individual ao qual se junta o filho Luís, enólogo, que tinha iniciado atividade com o tio, José Mota Capitão, da Herdade do Portocarro.

A adega original do bisavô foi ampliada há cinco anos. O moderno edifício, que envolve a construção antiga, inclui loja e sala de visitas com vista para as vinhas. Isabel e Luís desenvolvem um estudo intenso dos solos e dos encepamentos, reestruturam vinhas e traçam caminhos que continuem a herança da família e defendam a região. Comprovam que, na herdade, existem cinco microclimas e 12 solos. A norte, mais calcários, enquanto a sul existe mais xisto. Na mesma vinha há diferenças significativas entre parcelas e são essas personalidades distintas que Luís quer ver nos vinhos. O projeto rege-se pela trilogia “complexidade” (Alentejo), “frescura” (Setúbal) e “acidez” (Costa Atlântica).

Com cerca de 23 hectares, as vinhas têm idades que variam entre os 8 e os 50 anos. Por lá encontram-se Castelão, Cabernet Sauvignon (que o pai de Isabel foi buscar especialmente a Saint-Émilion), Merlot, Petit Verdot, Touriga Nacional, Aragonês, Alicante Bouschet, Syrah, Arinto (que viajou da Quinta da Romeira, em Bucelas), Fernão Pires, Roupeiro, Antão Vaz, Bual (Sémillon) e Sauvignon Blanc. A produção situa-se nas 80.000 garrafas, mas querem chegar às 110.000.

O portefólio é suficientemente vasto: na gama de entrada, o Vale das Éguas, depois o Herdade do Cebolal, e o topo de gama, Caio. Luís dá especial ênfase aos projetos de nicho: os vinhos de Castelão incluem um branco proveniente de cepas com 30 anos, que é sedutor pela sugestão de doçura inicial e sério pelo carácter vegetal do final, com um quase impercetível tanino; também os vinhos de Calcário e Xisto, a par dos varietais, estão a ser trabalhados com precisão e a longo prazo. Por exemplo, o Arinto de 2013 só irá para o mercado em 2018/19.

A maior surpresa estava reservada para o final, com dois brancos do avô de Luís, colheitas de 1999 e 98. Lotes de Fernão Pires e Arinto são a prova da longevidade destes vinhos. No 1999 sente-se mais a evolução, num estilo mais oxidado, quase um vinho de final de refeição. Já o 1998 está muito mais alegre e luminoso. Ambos surpreendentes e distintos pela ousadia, profundidade e diferença.

 

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