O Douro numa quinta

Fotografia: Ricardo Garrido
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Marc Barros

Marc Barros

Uma quinta que reúne toda a região. É assim que a descrevem os proprietários da Quinta de Santa Eufémia, juntos na quarta geração que sucede à figura tutelar, o bisavô Bernardo Rodrigues de Carvalho. Verdadeira empresa de quinta, distingue-se pelo facto de deter um lote invejável de vinhos, que lhe permite abranger todas as categorias de Vinho do Porto, sem esquecer os vinhos do Douro e o fenómeno do enoturismo.

 

Tal como em tantas outras quintas e produtores familiares do Douro, esta é uma história que remonta a meados do século XIX, mas com origens ainda mais remotas, que podem ser traçadas até ao período da ocupação romana na Península Ibérica. A Quinta de Santa Eufémia, localizada em Parada do Bispo, Lamego, tem como figura tutelar um homem ímpar, Bernardo Rodrigues de Carvalho, bisavô dos atuais proprietários. Estes reúnem sete irmãos na quarta geração da família, todos com um papel mais ou menos ativo na gestão da operação, apesar de ser a Bernardo Carvalho (bisneto e diretor comercial) e à irmã e enóloga Alzira Carvalho a quem cumpre, desde 1994, liderar este projeto no quotidiano.

Mas, como dizíamos, foi o patriarca histórico da família, Bernardo Rodrigues de Carvalho quem, em 1864, funda a Quinta de Santa Eufémia. Bernardo, o bisneto, conta que, apesar de existirem “registos da família no Douro desde 1700”, é aquele ano de 1864 que consideram como tendo sido o marco iniciador da quinta. “A nossa referência é o bisavô”, confirma. “Era uma pessoa diferente pois, apesar de não ter educação, chegou a ir a Roma falar com o Papa e trouxe até uma bula papal, válida até à quarta geração, segundo a qual seremos recebidos no céu se, na hora da morte, arrependermo-nos dos nossos pecados. É a nossa Via Verde para o céu!”, brinca. Republicano, Bernardo Rodrigues de Carvalho albergou na quinta aristocratas seus amigos, perseguidos pela I República. Era usual vê-lo a passear a cavalo pelas vinhas e foi um dos primeiros a possuir um automóvel.

A propriedade chegou à posse deste fundador por casamento e compra: Bernardo começou a relacionar-se “com a filha do patrão, 10 anos mais velha; fugiram para casar” mas contraíram matrimónio “apenas um ano depois, quando já tinham uma filha”. Bernardo Carvalho adquire mais tarde a quinta à sogra, tendo a partir daí expandido progressivamente a sua dimensão, sobretudo quando a filoxera grassava no Douro e muitos se viam obrigados a vender as suas terras.
Há cerca de 25 anos atrás, a quinta veio parar na posse da quarta geração, sendo que os sete irmãos possuem quotas iguais. A empresa distingue-se pelo facto de, em certa maneira, terem sido “pioneiros dos vinhos de quinta”, conta Alzira Carvalho. “Temos uma gama muito vasta, que é algo que também nos distingue. O nosso pai deixou-nos muito vinho, pois ao longo dos anos só vendia as quantidades necessárias para manter a quinta. O resto armazenava. Temos por isso um stock bastante grande, o que não é usual num produtor desta dimensão”, refere.

Nessa época, a participação em concursos e feiras internacionais trouxe o primeiro reconhecimento, o impulso que faltava para que o projeto fosse bem-sucedido. “Havia procura por empresas diferentes no mercado”, recorda a enóloga. O facto de ser um produtor de quinta com a gama completa das diversas categorias de Vinho do Porto trouxe essa distinção. O reverso da medalha está no facto de, necessariamente, as quantidades lançadas no mercado serem limitadas. “Por vezes é difícil explicar por que razão determinado vinho acabou”, afirma Bernardo Carvalho.

Respeito pelas vinhas e castas

Com uma produção anual que ronda 200 mil garrafas de Vinho do Porto, a Quinta de Santa Eufémia tem vindo a crescer nos vinhos do Douro, apesar de representar apenas cerca de 10% da produção total. “Não compramos uvas; temos hipótese de comprar ou alugar terras, mas teremos sempre a dificuldade em arranjar pessoas para trabalhar”, lamenta. A Quinta de Santa Eufémia reúne hoje cerca de 50 hectares de vinha em produção integrada, incluindo cinco hectares de vinhas velhas com cerca de 60/70 anos. Procura aplicar práticas sustentáveis na gestão da vinha e preservar as castas autóctones. “Quanto estudava, dizia ao meu pai que devíamos ter as castas separadas, pois era essa a tendência do momento; o meu defendia que não, devia ser tudo misturado. Quando começamos a reestruturar, fiz essa separação; hoje estou a misturar tudo”, reflete Alzira. Antes de avançar para qualquer restruturação, existe o cuidado de “recolher material vegetativo para replicar”.

Assim, para além das variedades mais usuais, “sempre tive a preocupação de usar castas diferentes, apesar da nossa pequena dimensão, incluindo a Tinta Amarela, Sousão, Tinta Francisca, Bastardo. E ando a namorar a Mourisco tinto”, afirma Alzira. Por outro lado, “temos toda a região na quinta, com todo o tipo de exposições, grande amplitude de altitudes, entre 120 a 350 metros e diferentes afinações, o que se reflete no diferente comportamento anual das castas”, assegura. Por isso a quinta reúne “características especiais para brancos: altitude e frescura para brancos de qualidade. Deixamos de vender a granel e há Vinhos do Porto brancos velhos de muitas casas cuja base são os nossos vinhos”, assegura Bernardo Carvalho. A Quinta de Santa Eufémia tem hoje no mercado os Vinhos do Porto Vintage de 2008, 2014, 2016 e 2016 (lançadas 2000 garrafas de cada); LBV 2013 e 2014; Colheita 1999, 2000 e 2001 (2000 litros cada a lançar no mercado) e, em stock, dos anos 2003, 2004 e 2005, 2006 e, finalmente; 10 Anos Branco (5000 litros).

De turistas e romanos 

A procura externa sempre foi dominante nas vendas da empresa. “Chegamos a ter 70% de quota de exportação”, estima o diretor comercial. “Essa relação está agora a inverter-se, pois temos à porta um mercado aliciante que não nos obriga a fazer feiras. Estamos no mercado nacional nos polos turísticos: Ribeira do Porto, com as nossas caves; Lisboa, na baixa pombalina e; no Algarve”. E se “hoje o negócio principal do Douro é o vinho, no futuro poderá ser o turismo, sobretudo ligado ao vinho e natureza”, reflete este responsável. “Gera receita direta nas vendas e uma grande notoriedade nos mercados externos, pois os clientes visitam, provam e compram nos seus países”.

A Quinta de Santa Eufémia recebe anualmente cerca de 10 mil visitantes e, no caso das caves de Gaia, são cerca de 300 a 400 mil visitantes anuais. O reforço do projeto de enoturismo está em marcha, coincidindo com a celebração do mais de século e meio da quinta. “Vamos renovar o nosso museu, aproveitando os achados arqueológicos aqui revelados, com elementos que remontam ao século I a.C. e à presença dos romanos”, afirma Bernardo Carvalho. São sobretudo peças de cerâmica, denominadas Sigillata, que dataram a presença romana. Este trabalho está a ser efetuado pelo historiador Gaspar Martins Pereira, que dará origem a um núcleo museológico, com um ‘timelime’ cronológico desde essa época até aos dias de hoje. “A presença dos romanos está diretamente associada a uma povoação bárbara, localizada no Monte de S. Domingos, que fornecia a mão-de-obra de trabalho”, conta Bernardo Carvalho.

Para além disso, ressalta o facto de parte da quinta estar inserida na primeira delimitação do Douro, sendo que guarda hoje dois marcos pombalinos do século XVIII, com as demarcações nºs 26 e 28. Está ainda em preparação um livro, a cargo do referido historiador, que retratará a vida e o percurso do fundador, coincidindo em paralelo com o lançamento de um Vinho do Porto especial para comemorar a data. Este Vinho do Porto 1864 resultará de um lote de três vinhos de vários anos, ainda não definidos. Serão lançadas 100 garrafas de 50 cl, com uma roupagem especial que representará o Douro. Uma justa homenagem a um visionário, um homem do Douro que deixou um legado único aos sete bisnetos, saibam eles valorizá-lo, como certamente saberão.


Quinta de Santa Eufémia
5100-651 Parada do Bispo
T. 254331970
Email. qtastaeufemia@qtastaeufemia.com 
quintasantaeufemia@sapo.pt

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