O novo Douro de Alves de Sousa

Fotografia: Arquivo
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Luís Costa

Luís Costa

São vinhos que vão fazer história, seguramente, mas que já hoje evidenciam um nível elevadíssimo, mostrando bem a qualidade ímpar do “terroir” que lhes dá origem apesar da relativa juventude do projeto. Da Quinta da Gaivosa, estrela do Baixo Corgo que brilha com marca própria desde 1992, para a Quinta da Oliveirinha, no coração do Cima Corgo, na zona mais prestigiada do Douro vinhateiro, Domingos Alves de Sousa dá mais um passo estratégico na afirmação do seu projeto familiar de fazer grandes vinhos durienses com renome mundial.

 

Na margem direita do Douro, paredes meias com a Quinta da Boavista – que já foi estrela da Sogrape e agora segue caminho firme e bem-sucedido com a dupla Marcelo Lima e Tony Smith – a Quinta da Oliveirinha sempre foi terra de vinhedos com “letra A”, mas as suas uvas eram integralmente canalizadas para a produção de vinhos do Porto a granel vendidos às grandes empresas do setor.
Antiga propriedade de Sebastião José de Carvalho, 1º Visconde de Chanceleiros (1833-1905) que se notabilizou no combate à filoxera e que em 1895 seria distinguido como presidente honorário do Primeiro Congresso Vitícola Nacional, a Quinta da Oliveirinha mudou de rumo em 2007 quando Domingos Alves de Sousa, indiscutivelmente um dos pioneiros do Douro moderno, comprou a quinta à sua irmã e cunhado.
Graças a estes 12 hectares, o produtor de referência do Baixo Corgo não se limitou a ampliar a área total das suas quintas vinhateiras para perto dos 140 hectares; conseguiu, como nos confessa o próprio, “entrar no território dos colegas e concorrentes, que estão todos aqui, no Cima Corgo, enquanto nós estávamos isolados na Quinta da Gaivosa, a 50 ou 60 quilómetros de distância. Mas agora também estamos aqui”, diz um orgulhoso Domingos Alves de Sousa à medida que calcorreamos a sua mais recente “menina dos olhos”, uma quinta belíssima que se junta – mas com papel de natural destaque – à já referida Quinta da Gaivosa e também às suas outras quintas do Baixo Corgo: Vale da Raposa, Caldas, Estação e Aveleira.


O passar dos anos não retira energia a Domingos Alves de Sousa, que é um exemplo de empreendedorismo, persistência e capacidade de inovar, sempre disponível para correr riscos e fazer novos investimentos. Se nos anos 80 do século passado era um viticultor duriense que se dedicava exclusivamente à venda a granel de Vinho do Porto, no início da década seguinte foi dos primeiros a fazer vinhos DOC com marca própria. “Estive mesmo no ano zero com o branco Vale da Raposa 1991”, recorda Domingos, lembrando que “as coisas vão evoluindo num trajeto entusiasmante que temos vindo a fazer degrau a degrau. Aliás, degraus são o que mais existe no Douro. E desníveis para vencer”.
Depois seguiu-se a consolidação – e expansão nacional e internacional – do seu projeto com a ajuda de Jorge Dias na parte da vinha (que atualmente lidera o grupo Gran Cruz) e de Anselmo Mendes na enologia. Mas ele próprio, engenheiro civil de formação, não se fiou pelo conhecimento empírico do mundo dos vinhos e fez uma formação na UTAD em Vila Real e outra na Uni¬versidade Católica, para além de diversas visitas ao estran¬geiro, designadamente a Bordéus.
Agora com o seu filho Tiago na liderança da enologia e com a filha Patrícia na parte financeira, Domingos Alves de Sousa cumpre um velho desejo de quem já figura na história recente do Douro mas sentia ter um “handicap”: faltava-lhe uma quinta e vinhos com a sua chancela no Cima Corgo. Agora já não falta.
 
Aposta determinante na Touriga Franca


 
Depois de recebidos pela dupla Domingos e Tiago na sede deste importante projeto familiar, na Quinta da Gaivosa – desde há quatro anos apetrechada com uma moderníssima adega desenhada pelo arquiteto Belém Lima – rumamos de jipe para a “nova” Quinta da Oliveirinha, o que nos permitiu ir pondo a conversa em dia ao longo do trajeto pela Estrada Nacional 2, passando por Santa Marta de Penaguião, e depois pela incomparável EN 222, entre a Régua e o Pinhão.
“Quando falamos no nosso vinho “Abandonado” [por referência à vinha “abandonada” da Quinta da Gaivosa que lhe deu origem], eu digo que a Quinta da Oliveirinha é o nosso “Adotado”, pois era uma quinta da minha irmã e do meu cunhado que se transformou numa oportunidade que quisemos abraçar”, conta-nos Domingos Alves de Sousa à medida que nos conduz suavemente pelas curvas e contracurvas do trajeto, ao mesmo tempo que estimula o seu filho Tiago a juntar-se à conversa: “Este é um Douro um bocadinho novo para nós. O conhecimento profundo que temos da vinha é do Baixo Corgo. Por isso estivemos quase 10 anos a estudar os solos, a vinha e aquilo que seriam as castas fundamentais da Quinta da Oliveirinha. E só no final de 2017 é que lançámos os primeiros vinhos. Até aqui chegar fizemos muitas experiências, houve muito trabalho de bastidores”, conta-nos Tiago Alves de Sousa, orgulhoso de o primeiro vinho desta quinta – o Quinta da Oliveirinha Reserva 2014 – ter sido vendido para um clube de vinhos norte-americano do prestigiado Wall Street Journal. “Foi um início auspicioso e logo numa plataforma que nos deu muita visibilidade”, observa Tiago, fazendo lembrar os primórdios da Quinta da Gaivosa quando o tinto Vale da Raposa 1992 integrou a lista dos 30 “best buys” do mundo inteiro do conceituado crí¬tico Oz Clark. Depois disso, foi sempre a subir.
Naquela altura, Tiago Alves de Sousa ainda era um miúdo mas lembra-se bem que não foram tempos fáceis: “Pura e simplesmente não existia mercado para vinhos DOC Douro. E foi mais fácil conquistar compradores lá fora do que em Portugal. No mercado nacional sentimos alguns obstáculos. Lembro-me bem de o meu pai chegar a casa, ao final do dia, triste e cabisbaixo por não ter vendido nada”. “É verdade”, confirma o próprio Domingos, lembrando que “ninguém queria vinhos do Douro, então nos restaurantes era só Alentejo”.


Ou seja, foram as circunstâncias que levaram os “novos” viticultores-engarrafadores do Douro a abrir portas no mercado internacional. “Mas a região já tinha essa vocação exportadora por causa do Vinho do Porto, sempre fomos abertos para o mundo a todos os níveis. Foi por necessidade, é verdade, mas também porque já existia essa vocação natural”, observa Tiago. Não por acaso, a família Alves de Sousa exporta 70% do vinho que comercializa (para 30 países diferentes, com destaque para Canadá, Rússia, Bélgica e Brasil), embora o mercado português lidere as vendas do produtor sediado na Quinta da Gaivosa.
Outra das (boas) características desta casa é lançarem os vinhos já com alguns anos de estágio em garrafa. Como observa Tiago Alves de Sousa, “hoje o Douro tem facilidade de venda imediata. Mas nós não queremos cair nessa tentação. Por esse caminho, o Douro pode tornar-se vítima do seu próprio sucesso, pois existe a tentação de vender os vinhos prematuramente quando têm um potencial tão grande de evolução em garrafa. Há demasiada gente a lançar vinhos dois anos após a colheita independentemente de o vinho ser entrada de gama ou topo de gama. Não queremos cair nesse erro. Num ano normal, digamos assim, lançamos, em média, vinhos de oito colheitas diferentes. Ou seja, procuramos lançar cada vinho no momento mais adequado. Sabemos que é complexo, que é uma logística difícil de gerir, que é um esforço financeiro, mas é uma questão de disciplina. Essa tradição [de lançar os vinhos já com alguns anos de estágio em garrafa] existe no Douro, existe no Vinho do Porto, há apenas que pô-la em prática”.
Antes de regressarmos à Quinta da Gaivosa, nosso ponto de partida, calcorreamos algumas parcelas dos 12 hectares da Quinta da Oliveirinha, onde a casta Touriga Franca é rainha, a par de alguma vinha velha. “A Touriga Franca é a casta mais plantada da região do Douro por algum motivo”, sublinha Tiago Alves de Sousa, muito seguro do encepamento de que dispõe para fazer grandes vinhos na sua quinta do Cima Corgo: “Acho mesmo que a Touriga Franca, que domina 40 por cento da região – enquanto a Touriga Nacional andará pelos 10 por cento, apesar do crescimento dos últimos anos – pode ser a casta unificadora de toda a região. Em minha opinião, há que dar valor à grande casta que fez ao longo da história os grandes vinhos do Porto. E que tantas vezes é esquecida”.
 


Notas de prova

18,5
QUINTA DA OLIVEIRINHA VINHA FRANCA 2013
Douro / Tinto / Alves de Sousa

 Lote com predomínio em 80% de Touriga Franca, de vinhas com 30 anos, integra também Touriga Nacional e Sousão. Rubi denso na cor tem aromas marcados pela complexidade, mas com muita subtileza e elegância. À fruta preta madura juntam-se notas de bosque, grãos de café, especiarias, mas também a frescura das folhas de chá. Na boca é acetinado, elegante, é seda pura, com taninos presentes mas escondidos. E de novo a frescura que mostrou no nariz, a acidez no ponto, o equilíbrio perfeito. Um hino ao Cima Corgo, um tributo à Touriga Franca.
Consumo: 2019 - 2033
71,95 € / 16ºC

18
QUINTA DA OLIVEIRINHA GRANDE RESERVA 2015
Douro / Tinto / Alves de Sousa

Rubi denso e profundo. Aroma complexo com notas de fruta preta e vermelha madura envolvida em balsâmicos (cedro, resina, aromas de bosque), alcaçuz e bergamota, cacau, fumados e vapor de café. Ao nariz portentoso segue-se a prova de boca com enorme profundidade, persistência, acidez e taninos fantásticos mas completamente amadurecidos, a prometer longevidade e a garantir também prazer imediato. Um vinho que espelha bem a vinha velha – com mais de 60 anos – que lhe dá origem.
 Consumo: 2019 - 2030
22,50 € / 16ºC

17,5 
QUINTA DA OLIVEIRINHA VINTAGE 2016
Vinho do Porto / Vinho do Porto / Alves de Sousa

Cor púrpura intensa, profunda e opaca. Mostra perfil de frescura no nariz, com fruta muito limpa, madura e persistente – mais azulada e vermelha do que preta – mas também casca de pinheiro, notas de resina, raspa de gengibre. Na boca sedosa e balsâmica mostra estrutura e equilíbrio, com bela acidez e taninos firmes. Um belo Vintage “single” quinta.
Consumo: 2019 - 2040
56,95 € / 16ºC

17
QUINTA DA OLIVEIRINHA RESERVA 2015
Douro / Tinto / Alves de Sousa

Lote com destaque para a Touriga Franca, completa-se com Tinto Cão e Touriga Nacional. Cor rubi e aromas em que predominam a fruta azulada e preta, as especiarias, os sinais de esteva e urze. Balsâmico sem ser excessivo, apresenta madeira – de segundo e terceiro ano – discreta e bem integrada. Vinho de terras de xisto e corpo médio, bela acidez e grande equilíbrio. Denso sem ser pesado graças à frescura e mineralidade do conjunto.
Consumo: 2019 - 2023
11,95 € / 16ºC

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