Vale Meão: O magnetismo de um grande do Douro

Fotografia: Ricardo Garrido
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

É lugar comum dizer que os vinhos traduzem a paisagem onde nasceram. Quase evitamos essa figura de tal forma já explorada e, por isso, banalizada. Mas, no caso do Vale Meão, é tão gritante a relação entre os vinhos e o território que se torna impossível não a referir.

 

O Pocinho é o fim da linha. O comboio não vai mais além. É longe. Exige horas de viagem. Quase como uma alegoria do fim do mundo. Que é mais ou menos como, ao longo da história, Trás-os-Montes e o Douro foram vistos pelo resto do país. Longe, muito longe. 
O dia estava muito frio. E cinzento. Chegámos a Vila Nova de Foz Côa numa manhã de inverno, no conforto dos meios modernos e, ainda assim, não esquecíamos o frio. Passámos pela estação do Pocinho, pela barragem, pela vertigem das encostas esculpidas, desnudadas pelas vinhas já podadas. E, ao olhar para a paisagem extrema do Douro Superior, com a nostalgia que o inverno reforça, não deixámos de nos questionar, pela enésima vez, sobre a força que terá levado Antónia Adelaide Ferreira a desbravar aquela terra no “fim do mundo”.
A história é deveras conhecida, sobre ela já correu muita tinta, continuando a ser fonte de inspiração. Esta mulher, que ficou para a história como Dona Antónia ou Ferreirinha, viveu no séc. XIX e foi um marco na história do Douro. As qualidades enquanto empresária, a tenacidade e o empenho na produção de Vinho do Porto levaram-na, ao longo da vida, a investir, a comprar terra e a investigar. Era uma figura respeitadíssima, com uma história única, cujo projeto final de uma vida extraordinária foi exatamente humanizar o Douro Superior. Em 1877, decide construir uma exploração modelo, de raiz, comprando para tal 300 hectares de terra virgem à Câmara Municipal de Vila Nova de Foz Côa… Mas, quem é que ia para Foz Côa?!? As pessoas, as que podiam, saíam de lá, abandonavam a vida difícil da terra e do frio, dos lugares ermos e isolados. O que nós vemos como poesia e paisagem maravilhosa, como epopeia da verdadeira força do homem e de uma inteligência que parece inspirada por Deus, era para muitos trabalho duro e miséria. E nem sequer havia vinha naquela região. Então, porquê? A verdade é que a intuição não a traiu e aqueles solos pobres eram mesmo local de vinha e de vinho, como a história veio rapidamente a demonstrar.
A construção decorreu entre 1887 e 1895, tendo Dona Antónia morrido um ano depois, em 1896. É precisamente o portão original dessa construção que hoje atravessamos para entrar na Quinta do Vale Meão, último impulso visionário da grande senhora do Douro.

 

A personalidade de uma quinta

Estas vinhas sempre produziram Vinho do Porto e, no início da década de 1950, passam também a fazer parte dos lotes do mais requintado vinho tranquilo que Portugal havia conhecido até então, o Barca Velha, com a assinatura de Fernando Nicolau de Almeida e rótulo Ferreirinha (da Casa Ferreira, empresa criada pelos descendentes de Dona Antónia). A quinta manteve-se na família e, na década de 1970, um dos trinetos de Dona Antónia, Francisco Olazabal, assume a gestão numa relação tão intensa que dura até aos dias de hoje.
Francisco, “Vito” como por todos é conhecido, está próximo do 80º aniversário e continua a recordar as primeiras visitas ao Vale Meão. A atmosfera. A noite de veludo, silenciosa, suave. A natureza, os animais, a sensação de liberdade. Tudo era diferente.
Diz-nos que tem muita sorte porque não teve de escolher. Nasceu no vinho e toda a vida se mistura e confunde com essa inevitabilidade. De forma inteligente e apaixonada, permitimo-nos acrescentar. Começou na Ferreirinha em 1966, com o pai, Jaime de Olazabal y Mendoça. Aí, trabalhou também com Fernando Nicolau de Almeida, que viria a ser seu sogro – e a inevitabilidade parece reconfirmar-se a cada passo.
Com Vito à frente da quinta por decisão unânime de todos os familiares (e eram muitos: 16 e respetivos descendentes), o Meão conhece uma nova fase de mudanças e investimentos. O apelo do Vale Meão é tão evidente, que Vito vai comprando aos tios e aos primos. Em 1994, já com 38%, os últimos seis primos venderam a sua parte e a quinta passa definitivamente a ser propriedade de Francisco Olazabal e dos filhos – Luísa, Francisco e Jaime. Nessa altura, a Ferreira havia sido vendida à Sogrape, em cujo Conselho de Administração Vito se manteve até 1998, e as uvas do Vale Meão continuavam a ser vendidas à antiga empresa familiar. 
Entretanto, com 100% da propriedade e o filho Francisco formado em Enologia desde 1991, com 21 anos de Ferreira e 11 de Sogrape, Vito Olazabal cede definitivamente à sedução do Vale Meão. Sai, como vimos, da Sogrape, e 1999 é a primeira colheita da marca criada para os vinhos produzidos na quinta, com a família: Quinta do Vale Meão. 
Dos 262ha, cerca de 100ha são de vinha (à área total da propriedade, serão anexados 10 ha de uma aquisição recente). Na nossa visita, assistimos à surriba de uma área da qual se arrancou Tinta Amarela e Tinta Roriz. Este trabalho, que consiste em partir a rocha para criar solo, é hoje totalmente mecanizado. Os bulldozers e retroescavadoras avançam lentamente pelo terreno, o que nos faz pensar em toda a criação da região do Douro, apenas com força manual e dinamite para destruir o xisto.
Relativamente à renovação das vinhas, “Xito” (o Francisco enólogo que, tal como o pai, tem um “petit nom” que rapidamente se popularizou) é muito pragmático e, se sente que devem ser arrancadas para dar lugar a outras com mais qualidade, não hesita em fazê-lo. “Os solos demasiado pobres do Douro Superior são intransigentes e muito duros com as plantas, pelo que uma vinha com qualidade não atinge idades tão avançadas como em outros locais”, diz-nos. E é por isso que, mesmo reconhecendo o valor das vinhas velhas, não são para ele prioridade ou selo de qualidade, em abstrato, para um vinho. Já o pai, nos anos 70, encontrou as vinhas com problemas causados pela idade e procedeu à replantação. E as vinhas mais velhas da quinta datam exatamente das décadas de 70 e 80, já com muita Touriga Nacional e Touriga Franca, castas que não eram, então, privilegiadas como são hoje (há cerca de 15 anos, haveria pouco mais de 400ha de Touriga Nacional, no Douro), mas às quais Vito reconheceu qualidade e que ainda hoje são a grande base dos vinhos da quinta.

Agora, as vinhas são pensadas em função da localização e do tipo de solo. A escolha de castas é, também ela, fruto de uma atitude pragmática relativamente ao que faz sentido para a identidade dos vinhos, sem qualquer paternalismo poético, com vinhas misturadas e variedades autóctones cujo valor seja meramente “arqueológico”. O que percebemos é que “ser interessante” não é suficiente. Tem mesmo de ser muito bom. E a verdade é que a Tinta Amarela e a Tinta Roriz que agora desapareceram e cujos solos estão a ser surribados, haviam sido plantadas por Vito. Eram das vinhas mais velhas e, no entanto, nunca entraram nos lotes do Vale Meão. “Não tinham qualidade para tal”, diz-nos Xito.
O Vale Meão tem uma riqueza única de solos, uma vez que além do óbvio xisto, encontramos também granito e aluvião. Assim, a diversidade e o potencial das inúmeras equações dessa diversidade são um permanente desafio como veremos, mais à frente, nos vinhos que provámos.
As duas adegas da quinta, que faziam parte do plano inicial de Dona Antónia, continuam em funcionamento. A Adega dos Novos foi alvo de um projeto de ampliação, com o edifício original a manter a construção e a linguagem arquitetónica. Quanto à Adega da Barca Velha (junto à vinha que durante décadas deu corpo ao icónico vinho com o mesmo nome), é usada para estágio de Vinho do Porto. Mas não são só estes dois edifícios que testemunham o grandioso projeto que foi o Vale Meão. Além de uma ermida, também a casa se mantém e, por ser habitada, logo, ter vida, é um elemento absolutamente incontornável em toda a magia do sítio. O rio, esse, desarma até os mais céticos. A beleza toca-nos profundamente, mesmo que não saibamos explicar porquê. 
Vito vê hoje, nos filhos, a confirmação da continuidade. Xito, na enologia e direção técnica, Luísa, na direção comercial e de marketing, e, muito recentemente, Jaime, que saiu da banca para se juntar à família. Por um lado, a herança Ferreira e Olazabal do pai. Por outro, o nome Nicolau de Almeida da mãe. Na interseção de todas estas vidas, está a Quinta do Vale Meão. Como uma inevitabilidade. A Quinta do Vale Meão vai passando por gerações, ditando tendências e existindo com a mesma energia com que foi criada. Com uma força que parece superior e um querer que lhe empresta personalidade.

 

A matriz do Vale Meão

À nossa espera alinhavam-se várias colheitas de Vale Meão, escolhidas por Xito Olazabal, que abrangiam um período significativo da história recente da quinta. Com início em 2007, avançaríamos até ao vinho mais novo, 2015.
O Quinta do Vale Meão é um vinho pisado a pé e fermentado em lagar, que passa 15 a 16 meses em carvalho francês, cujo lote é constituído maioritariamente por Touriga Nacional e Touriga Franca, em partes iguais, com Tinta Barroca e Tinta Roriz a completarem o conjunto (5% + 5%). Nos anos mais recentes, a definição conceptual do vinho levou a menos extração e a vindimas mais precoces. Também a influência de madeira tem vindo a diminuir e, se nos primeiros anos a opção passava apenas por barrica nova, agora usa-se também barrica de segundo ano em 40% do lote.
Os primeiros vinhos mostraram imediatamente o potencial de longevidade e a raça dos Quinta do Vale Meão, numa aliança declarada entre elegância e robustez. O 2007 é um vinho de grande presença, muito vigoroso e profundo. Com a cor ligeiramente evoluída, tem uma boca muito intensa e um bouquet muito elegante que remete para notas de outono. É claramente um sedutor. O único em que a Touriga Franca tem maior peso que a Nacional. Depois, o 2008, muito encorpado, com um carácter mais marcado pela fruta madura e por taninos vigorosos. Robustez na essência. A colheita seguinte, 2009, é talvez a que tem traços vegetais mais impressivos. A acidez é muito vincada e a adstringência ainda marca a prova. É um vinho de extremos, de vertigem. Deliciosamente “violento”. Depois, acalmamos um pouco com o 2010. Aqui, temos uma personalidade mais delicada (apesar da transversal e recorrente robustez), uma boca extraordinária e um carácter floral insinuante. É um vinho muito fino, equilibrado, perante o qual apetece não parar.
Todos estes vinhos são profundos na cor, concentrados e escuros. Com o 2011 entramos no registo dos brilhos violáceos dos vinhos muito jovens. Robustez e amplitude são as palavras para este 2011. Extração, taninos muito impressivos, madeira, especiaria farta. A estrutura alcoólica é sentida, em sintonia com uma frescura final que vem suavizar, um pouco, toda a prova. Quanto ao 2012, é um príncipe. Muito novo ainda, é o resultado de um ano austero. É muito distinto, elegante, tem espessura e grande personalidade. Há nele um mistério que não se explica… é desconcertante. Impróprio para iniciados. Austero como a natureza daquele ano.
Passamos para a garrafa seguinte e é desnecessário continuar a referir a juventude destes vinhos. É uma evidência que segue pela prova. O que surpreende no 2013 é a quase suavidade que encontramos a par da boca poderosa. E o final que parece não ter fim.
Entramos nas duas últimas colheitas, nas quais uma pequena parte fermentou com engaço. E há realmente uma vibração diferente, mais fresca (quase que poderíamos dizer… mais autêntica?) que podemos associar a esse facto. Há um traço vegetal distinto, comum aos dois. O 2014, mais fechado, a recusar insinuar-se, neste momento. Com uma elegância latente e grande equilíbrio. E o 2015, muito bonito e polido, com frescura e potência. De desenho seguro. Grande sentido de proporção e harmonia. Aristocrático. Um grande vinho.
O que nos fica desta prova é o estilo perfeitamente definido. A identidade. A matriz do Vale Meão que, uma vez identificada, se descobre em todos e em cada um destes vinhos. 
É lugar comum dizer que os vinhos traduzem a paisagem onde nasceram. Quase evitamos essa figura de tal forma já explorada e, por isso, banalizada. Mas, no caso do Vale Meão, é tão gritante a relação entre os vinhos e o território que se torna impossível não a referir. A geografia única, a morfologia do vale, as esculturas das vertentes, a natureza austera, poderosa, os contrastes, o rio, a explosão. Tudo se traduz nestes vinhos. São austeros e concentrados, grandes, alguns vertiginosos. Emotivos e emocionados. Como o Douro. Superior.

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