São Lourenço do Barrocal

Ouvir silêncio. Sonhar a cores.

 
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

Propriedade criada no século XIX no sopé de Monsaraz, São Lourenço do Barrocal foi, desde cedo, modelo de uma forma de viver autossuficiente, na qual uma comunidade de cerca de 200 pessoas se articulava entre habitações, campos de cultivo, gado, lagar, vinha, cavalariças e celeiros. A escala é a de uma pequena aldeia, com a hierarquização da malha perfeitamente definida, com alameda, ruas, praças e claustros. Padaria, vários ofícios, escola, igreja, sofisticados sistemas de condução de água para rega completam um programa que reflete um cuidado de planeamento e uma ambição concretizada com generosidade. 

 

O responsável por tudo isto foi Manuel Mendes Papança (1852-1913), 1º Conde de Monsaraz. Homem de letras, privou com a elite intelectual da época, estudou em Coimbra, foi político, advogado e poeta, entre outros atributos que poderíamos enunciar. Foi também agricultor. No Alentejo comprou 9.000 hectares, tendo esta exploração agrícola sido criada com condições de subsistência e de conforto para os trabalhadores e respetivas famílias se fixarem. Terras de mato, que até então mais não eram que áreas de caça da Casa Real passaram a conhecer culturas permanentes, grandes olivais e vinha, por exemplo.

Papança deu sempre particular atenção ao vinho, tendo tido a iniciativa de oferecer (doar!) terra aos trabalhadores que se comprometessem a plantar vinha. Entre a vinha que plantou e a que surgiu à luz deste “programa” crê-se ter sido responsável por um milhão de cepas na região de Reguengos de Monsaraz, sendo reconhecidamente um grande visionário e impulsionador do ressurgimento do Alentejo no panorama vitivinícola português.

A herdade manteve atividade até ao 25 de abril de 1974. E 1975 foi ano de mudança no Barrocal. A herdade foi ocupada e nacionalizada, deixando assim de pertencer aos herdeiros do 1º Conde de Monsaraz.

Ditou o destino que nesse ano nascesse José António Uva, oitava geração após a criação do Barrocal. Para ele, o monte era apenas um local onde ia brincar, com um conjunto de casas ao abandono, do qual ouvia histórias antigas. Fotografias de época não deixavam perder a memória do que havia sido São Lourenço do Barrocal – trabalho, festas, quotidiano de muitas famílias cristalizado no contraste do preto e branco.

A restituição da herdade à família dá-se nos anos de 1980 e 90. O tempo foi transformando gradualmente os edifícios em ruínas e a herdade, do ponto de vista agrícola, refletia o declínio do modelo agrícola, trabalhando como uma commodity, não com qualquer produto de valor acrescentado. Ia andando.

José Uva, cujas primeiras décadas de vida acompanharam a decadência e a sombra do Barrocal, olhou de forma crítica para esta realidade. Com formação em gestão e alguns anos de experiência no estrangeiro, regressa a Portugal em 2002 e passa dois anos a estudar a herdade. A levantar camadas de história. A perceber que todo o potencial daquele território era uma herança demasiado preciosa para não ser continuada.

Da pré-história subsiste um importante conjunto de menires, ordenadores do espaço físico e psicológico dos nómadas neolíticos. Esta ocupação de 7.000 anos do território dá-lhe uma perspetiva muito mais interessante, a uma escala que podemos denominar cósmica. Depois, a família dá-lhe um contexto mais imediato do que é este monte em particular, com a experiência do que lá se fazia, da autossuficiência e do que poderia vir a ser o futuro da herdade. E se é na família que pensa quando mergulha neste projeto, de uma coisa tem a certeza. Não poderá nunca ser um espaço familiar e doméstico. Não tem esse espírito. Nasceu, sim, com uma escala industrial onde tudo estava no sítio certo. O monte foi planeado para dezenas de famílias e seria esse o propósito para o novo projeto.

Foi então feito o estudo de viabilidade para transformar a herdade num hotel, com a mesma filosofia de autossuficiência e sustentabilidade que sempre a caracterizou. Além da unidade hoteleira, São Lourenço do Barrocal produz vinho e azeite, cereais, tem uma horta de 10.000m2 (ainda a ser recuperada), tem vacas e cavalos.

Quanto ao projeto de arquitectura, a assinatura é de Eduardo Souto Moura, tendo José Uva trabalhado com uma equipa multidisciplinar que englobou arquitetos, arqueólogos, paisagistas, geólogos, historiadores e antropólogos.

E a 16 de março de 2016 é inaugurado o Hotel de São Lourenço do Barrocal. Um espaço com 7.000 anos é reinventado. Depois da ocupação pré-histórica, da fixação de romanos e árabes, de séculos de lazer de nobres da corte, de um século XIX próspero e de um século XX com ambiguidades tão marcantes como o sucesso, a revolução e a decadência, o Barrocal assiste ainda ao surgimento do Alqueva e vê-se renascer enquanto hotel rural de cinco estrelas que engloba também exploração agrícola e um projeto imobiliário ambicioso.

 

O projeto e o hotel

 

O arquiteto Souto Moura (prémio Pritzker 2011) é reconhecido pela capacidade de tocar na ruína com uma sensibilidade, um respeito e uma humildade únicos. A interpretação do local conduz a uma intervenção de várias dimensões. A técnica, obviamente, mas também a dimensão emocional e estética, filosófica mesmo. No Barrocal todas as construções foram mantidas, respeitando quer o planeamento urbano do monte quer a volumetria quer as fachadas. Há o reconhecimento da harmonia do local e a preservação foi certamente um dos princípios de projeto. Depois, houve que adaptar todas essas pré-existências ao novo programa do hotel – quartos (22), suites (2), casas (16), receção, bar, spa, restaurante, salas polivalentes, loja, piscina, casa dos brinquedos, adega, sala de provas, picadeiro. 

A empreitada teve uma duração de dois anos e na recuperação dos edifícios foram usados materiais locais e tradicionais. O resultado é tão extraordinário e natural que o melhor elogio é dizer que não o sentimos. Quando chegamos ao hotel estamos verdadeiramente a chegar a um monte alentejano, com a patine das paredes de cal, os telhados de telha tradicional, uma rua cujo pavimento parece ter estado sempre ali, as portas de madeira pintada. Não cheira a novo. A austeridade de formas, a clareza e a ortogonalidade levam-nos quase para um espírito de mosteiro.

Na alameda principal, a Rua do Monte, seguindo o ritmo dos vãos, encontramos uma porta aberta, com uma bicicleta à porta. Estamos na receção. Nos interiores sucedem-se abóbadas maravilhosas que foram mantidas em generosos pés-direitos. O bar também é assim. E nas paredes sucedem-se fotografias e documentos originais. As primeiras com várias gerações de antepassados de José Uva, os outros com anotações do quotidiano da herdade, valores pagos e recebidos, colheitas, nomes, memórias…

Já na rua, continuando o nosso percurso, temos uma série de quartos que se sucedem, cada um exibindo “nº de polícia” sobre a porta. Eram as casas dos trabalhadores, agora transformadas em confortáveis e arejados quartos do hotel. Mas, antes, entramos ainda no SPA, cujos produtos orgânicos Susanne Kaufmann foram criteriosamente escolhidos por traduzirem a pureza dos Alpes austríacos. Quatro salas de tratamento, sauna, banheira quente e fitness são as propostas. E o que mais impressiona é o enorme corredor de distribuição para estes espaços, com um comprimento de várias dezenas de metros e uma abóbada de berço, no qual se sente verdadeiramente uma atmosfera monástica (também aqui a opção de projeto foi a reconstrução integral deste elemento arquitetónico tão depurado quanto poético). 

Do outro lado da rua temos a loja e o restaurante. A loja vende uma enorme diversidade de produtos da herdade, mas também tem uma oferta mais alargada, que traduz acordos com produtores locais. O objetivo, se os hóspedes optarem por cozinhar “em casa”, é conseguirem comprar na loja o que necessitam. Mesmo nas prateleiras dos vinhos, muitos rótulos podem ser encontrados para além do vinho da herdade, de outros produtores e de outras regiões. 

Encontramos também mantas, cerâmica, trabalhos em cortiça, em madeira ou em pedra. Estes são alguns exemplos de objetos que resultam de parcerias com ofícios locais, num trabalho conjunto com a equipa criativa do Barrocal.

O restaurante tem como chefe consultor José Júlio Vintém, reconhecido intérprete da cozinha alentejana no restaurante Tomba Lombos, em Portalegre. A oferta é extensa, privilegia os produtos biológicos e pretende comunicar uma cozinha autêntica e variada, onde não falta o colorido dos legumes e ervas aromáticas, os pratos de carne tão característicos da mesa do Alentejo ou os peixes do Alqueva. O triângulo pão, vinho e azeite é incontornável, funcionando como coluna dorsal de toda a carta.

A decoração é da responsabilidade do ateliê Anahory Almeida, como aliás o é a decoração de todo o hotel. Uma instalação da autoria de Joana Astolfi domina a sala, ocupando uma parede com objetos históricos da herdade, desde achados arqueológicos a instrumentos de trabalho, objetos pessoais e fotografias antigas.

A composição desta parede lembra-nos instalações dos restaurantes de José Avillez, a que nos habituámos desde o Cantinho. E não é por acaso. As assinaturas, tanto do projeto de decoração como desta peça, são as mesmas que constam nos projetos dos restaurantes do chefe lisboeta.

As composições de Ana Astolfi são feitas com objetos vintage, que procura e encontra aqui e ali. Mas para a instalação criada para o Barrocal foi diferente. Não teve de procurar. Todas as peças estavam à espera. Tiveram o uso que há décadas aguardavam e quem as reencontrasse enquanto capítulos de uma história que deve ser contada.

Para chegar à piscina atravessamos um prado verde, um pomar de laranjeiras e uma horta (estes dois últimos exatamente como eram anteriormente). O rigor do retângulo que limita a água é abruptamente interrompido por uma pedra enorme (barrocal). E sentimos como pode ser impressionante a capacidade que uma pedra tem de humanizar um espaço…

À volta da piscina brincam crianças. Também as havíamos visto noutros pontos do hotel. Diz-nos José Uva que o objetivo de ter sempre crianças pelo Barrocal está a ser cumprido. Trinta a 40 tem sido a média, havendo uma sala de brinquedos e, de entre as 40 bicicletas disponíveis para os hóspedes, muitas delas são para os mais pequenos. 

 

O vinho

 

A adega insere-se em todo o conjunto do monte e foi recentemente terminada, sendo esta a primeira vindima que recebe.

Mas o vinho em São Lourenço do Barrocal tem história antiga, como vimos. Quando o projeto foi estruturado na cabeça de José Uva, a componente vinho era uma certeza e, para tal, obteve a colaboração da enóloga Susana Esteban (prémio “Produtor Revelação do Ano 2015” atribuído pela WINE – A Essência do Vinho), tendo a vinha sido plantada em 2008 e 2009, nos solos franco argilosos de granito e xisto da herdade.

Susana entusiasmou-se com a vinha velha que encontrou. Sessenta anos, no Alentejo, é uma idade de respeito e não muito fácil de encontrar. As variedades autóctones Roupeiro, Perrum, Rabo de Ovelha e Manteúdo continuam a existir nessas vinhas que são o testemunho para a transição entre a história antiga do Barrocal e a nova produção do século XXI.

Algumas decisões foram tomadas por Susana, passando por ela a escolha das castas. Viognier, Marsanne, Antão Vaz e Encruzado para os brancos, enquanto para os tintos encontramos Touriga Nacional, Alicante Bouschet, Aragonês e Syrah. Foi também a enóloga que decidiu o método para a plantação das vinhas, primeiro o bacelo e só depois fazer os enxertos com as castas pretendidas. Desta forma, as cepas mostram-se mais resistentes, conseguem raízes mais profundas e como resultado temos uma vinha que, por opção, não é regada e se mantém verde e saudável em pleno agosto.

O primeiro vinho tinto surge em 2011, ao qual se junta, no ano seguinte, o Reserva e o branco. Neste momento, a produção é de 40.000 garrafas. E 15 são os hectares de vinha.

Na adega tivemos oportunidade de conhecer os novos projetos. Desenha-se um espumante rosé (Touriga Nacional) e um branco Reserva. Este último pretende aproveitar a riqueza e austeridade das vinhas velhas (Roupeiro), a frescura das novas (Viognier) e o estágio em barrica de carvalho francês.

No branco da colheita 2014 é usado pela primeira vez o conjunto de castas de vinha velha (até então, apenas tinha sido escolhido o Roupeiro), a que se juntaram Viognier e Marsanne. É um vinho bastante fresco e de nariz muito nítido, que está a resistir muito bem à passagem do tempo. O tinto 2014 é um vinho versátil. A partir do lote Aragonês, Alicante Bouschet e Touriga Nacional, vinificado em inox, é simples e descontraído. Quanto ao Reserva 2013, ao qual a WINE atribuiu 17,5 valores em edição anterior, pretende valorizar a textura do Alicante Bouschet, numa composição em que também tem lugar Aragonês e Touriga Nacional (conforme as colheitas, é usado Syrah). A madeira é usada como o fundo de uma pintura, enquadra, é determinante, mas não nos apercebemos. Susana diz-nos achar estimulante suscitar a dúvida se o vinho tem ou não madeira.

Visitámos as vinhas, passando por menires e por cavalos. A vista para o castelo de Monsaraz é absolutamente deslumbrante e o aspeto selvagem da vinha parece fazer parte de todo esse enquadramento. Diz-nos José António Uva que é a escala do tempo que interessa. O que se deixa para as futuras gerações. Passaram 200 anos. Os próximos 200 começam agora.

 

PROGRAMAS E ATIVIDADES DO HOTEL

 

Equitação / passeios e aulas. A herdade tem cavalos puro-sangue lusitano e proporciona a hipótese de os hóspedes levarem o seu próprio cavalo.

Bicicletas / O hotel tem rotas quer para passeios em bicicleta clássica portuguesa, quer para viagens mais longas, dentro e fora da herdade, em modelo híbrido.

Passeios e caminhadas em trilhos definidos. Passeios de balão.

Trail running.

Spa / Com tratamentos e massagens, máquinas de fitness e aulas de pilates.

Piqueniques / Com o respetivo cesto preparado com a refeição.

Atividades lúdicas para crianças / que incluem uma caça ao tesouro.

Observação de estrelas.

Provas de vinhos / Visita à adega e prova dos vinhos da herdade.

Vindimas / O dia está organizado, começando com a entrega do “kit vindima” que inclui uma tesoura de poda, um chapéu de palha, luvas, caixa de vindima e água. O objetivo de cada participante é, ao início da manhã, apanhar 20 kg de uvas. Com a entrega da caixa, acontece uma pausa para a “bucha à alentejana”, à qual se segue uma visita à adega, pisa a pé e almoço.

 

Em redor…

Monsaraz / Com a estrutura defensiva muralhada, o castelo e torre de menagem medievais, assim como toda a riqueza histórica e patrimonial muito bem preservada, funcionando como um museu vivo.

Regueiros de Monsaraz / Onde é possível ainda hoje testemunhar a importância das alterações urbanísticas de Manuel Mendes Papança enquanto presidente da Câmara (de 1852 a 1877).

Évora / A cerca de 50 km. Desde 1986, Património Mundial (UNESCO). É bom perdermo-nos nas ruas, com a arquitetura, monumentos, a maravilhosa sé catedral, as igrejas e os museus.

Restaurantes / A Maria (Alandroal), Esporão (Herdade do Esporão, Reguengos de Monsaraz), O Fialho (Évora).

Compras / Imperdíveis os antiquários de Borba (a cerca de 50 km), na rua dos Terreiros, também conhecida exatamente como rua dos antiquários.

Alqueva / A maior barragem e maior lago artificial da Europa, com muitas oportunidades para passeios, desportos náuticos e atividades de lazer.

OLA / Observatório Lago do Alqueva, com aulas de Astronomia, Astrofotografia e sessões de observação de estrelas

 

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