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Adega de Borba Reserva (Rótulo de Cortiça)

Fotografia: Ricardo Garrido
José João Santos

José João Santos

Tendo por pretexto a 25ª edição do Adega de Borba Reserva tinto, o desafio desta vertical foi o de provarmos duas colheitas por década que ajudassem a ilustrar a notável capacidade de envelhecimento do vinho, dos mais reconhecidos e populares do país. Habituámo-nos a identificá-lo simplesmente por Rótulo de Cortiça, na medida em que a rotulagem recorre, precisamente, a uma lâmina muito fina de cortiça. 


A primeira edição do Rótulo de Cortiça é a de 1964. Até meados da década de 80, as castas maioritariamente usadas para corporizarem o lote foram Castelão, Trincadeira, Alicante Bouschet, Grand Noir, Moreto e Aragonez. A reestruturação generalizada de vinhas nos anos 80 motivou o arranque de parte do encepamento mais antigo, o que deu lugar a vinhas novas, mais rentáveis. Variedades como o Moreto perderam representatividade e outras, como o Aragonez (Tinta Roriz), reforçaram-se.

O novo figurino no xadrez das vinhas acabaria por ter reflexos inevitáveis no perfil do vinho. De um fruto mais delicado e uma perceção vegetal mais evidente, de teores alcoólicos de 12 a 12,5%, passamos para um quadro de fruta primária em primeiro plano e teor alcoólico superior. Claro, os ditames de mercados e modas também tiveram contributo, sobretudo na década de 90 e primeiros anos de 2000.

O ADN do Rótulo de Cortiça deve-se também muito ao terroir. O planalto de Borba eleva-se a mais de 400 metros de altitude, o que aporta frescura natural mas também permite maturação final das uvas. Ao longo do ano a pluviosidade fica acima da generalidade do Alentejo e as noites são geralmente frescas. O solo é rico em mármores e calcários.

“Estrutura, equilíbrio e elegância”. É assim que Óscar Gato, o enólogo da Adega de Borba, define o Rótulo de Cortiça.


Um contexto bem definido

A Adega de Borba é a primeira cooperativa alentejana, com assembleia geral em 24 de abril e estatutos definidos em junho desse mesmo ano, 1955. Vai ainda no quarto presidente, pelo que é fácil depreender-se que a estabilidade tem sido um dos alicerces destes 65 anos.

Os 270 associados representam 2.200 hectares de vinhas, cerca de metade de toda a produção da sub-região de Borba. Se restringirmos a geografia à escala concelhia, 80% da produção de uva.

Em média anual, a Adega de Borba engarrafa 13,5 milhões de exemplares, muitos dos quais destinados a 30 mercados de exportação: Rússia, França, Alemanha, Brasil e EUA, os principais. Portugal absorve a maioria, 75%.

A segunda maior adega do Alentejo conheceu 17,2 milhões de euros em volume de negócios em 2019 e empunha a bandeira do endividamento zero. Os investimentos de monta mais recentes aumentaram as capacidades de vinificação e de estágio, sendo a nave de 1.200 barricas (75% carvalho francês) e 32 tonéis das mais impressionantes.

Onde tudo começa, na vinha, a matéria-prima é oriunda de plantas que nascem entre os 300 e os 480 metros. O rendimento médio é de 7.000kg/ha.

Inspirado no Adega de Borba Reserva tinto, a cooperativa lançou mais recentemente duas outras versões complementares: o Reserva branco (2011, 2015 e 2017) e o Grande Reserva tinto (2007, 2009, 2011, 2013 e 2014, sempre um bi-varietal de Trincadeira e Alicante Bouschet).