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Conde de Anadia: A Touriga reinterpretada

 

O Dão sempre ostentou uma aura de nobreza. E com razão, pois é vasto o número de palácios e solares antigos que alberga, com raízes genealógicas que remontam, por vezes, até à fundação da nacionalidade. Mas a tradição não impede o rasgo da inovação, da irreverência e até de certa iconoclastia. É isso mesmo que o enólogo Luís Leocádio tem imprimido na nova vida dos vinhos Conde de Anadia, propriedade da família do Conde de Anadia, hoje na pessoa de Miguel Paes do Amaral, o conhecido empresário que, entre outros, detém a Companhia das Quintas. Este projeto, contudo, sempre foi encarado numa perspetiva familiar e, desta forma, autónomo. 


O Palácio dos Condes de Anadia, no centro de Mangualde, é algo de portentoso. Não apenas pelo edifício em si, cuja origem data de finais do século XVI, mas também pelos cerca de 10 ha. de vinha, a que se juntam os belíssimos jardins, inseridos na Rota dos Jardins Históricos do Dão, ou a mata, com cerca de 20 ha., plantada no século XVIII e localizada num ponto mais alto relativamente à vinha e jardins. Tudo isto dentro de muros, tendo como pano de fundo a Serra da Estrela. 

Antes dos vinhos, porém, um pouco de história. Foi ainda no início do século XVIII que o então proprietário, Simão Paes do Amaral, ordenou a reedificação da antiga casa, empreitada que durou cerca de um século, concluída apenas em 1807. Mas foi só em princípios do século XIX que passou a ser conhecido como Palácio Anadia, por casamento do então senhor do palácio com D. Maria Luiza de Sá Pereira de Menezes de Mello Sottomayor, 3.ª Condessa de Anadia. O edifício, atualmente aberto ao público, foi classificado como Imóvel de Interesse Público e distingue-se por ser um dos mais importantes exemplos da arquitetura senhorial setecentista. Alberga fascinantes conjuntos de azulejaria, como os patentes na escadaria e salão nobre, datados de 1740 e atribuídos a Salvador Sousa Carvalho, ou até um conjunto de painéis de azulejos cujo tema é a troca de relações entre vários aspetos do mundo real, como o criado a castigar o senhor, os animais a caçarem o homem, o burro a ser carregado ou a criança a exercer práticas médicas. Irreverência e ousadia, portanto. 

É também possível conhecer a coleção de trajes históricos da família Paes de Amaral, que esteve guardada em baús e sótãos e foi recentemente resgatada com o apoio técnico do Museu do Traje de Lisboa, ostentando lindíssimas e finas peças, femininas e masculinas, usadas ente 1750 e 1910. 

As visitas ao Palácio e jardins foram instituídas pelo 6.º Conde de Anadia, pai de Miguel Paes do Amaral, recentemente falecido. As portas abriram em 2018 nas diversas valências, como conta Cláudia Paiva, diretora da Companhia das Quintas e aqui na veste de responsável pela gestão do projeto. “É possível visitar o interior da casa-museu, ainda hoje partilhada e habitada pela família Paes do Amaral”. As visitas guiadas contemplam “os magníficos jardins do Palácio dos Condes de Anadia, onde o elemento central é a vinha, com programas de enoturismo e prova de vinhos”. Podem igualmente conhecer “os jardins e apreciar espécimes magníficos, como o plátano e a magnólia seculares”. Também se podem marcar visitas à mata histórica. E, com sorte, poderão até testemunhar a chegada do senhor Conde e todo o rebuliço que ainda hoje causa…

 

Touriga Nacional, a ilusionista


Chegamos assim à vinha e aos vinhos. Como referido, a área de vinha conta cerca de 10 ha. e inclui ainda algumas videiras centenárias, refere Luís Leocádio, que sucedeu a João Correia, primeiro, e Paulo Nunes, depois. A primeira vinha pensada para servir com seriedade um projeto vínico “foi plantada nos anos 70 e depois arrancada e replantada nos anos 90. Em 2010 houve uma restruturação total da vinha, já com encepamento típico da região”, conta Luís Leocádio. Esta abrange um “campo experimental de brancos, no sentido em que se colocaram as castas que pensávamos que melhor se adaptavam: Encruzado, Uva Cão e Gouveio. E também as tintas mais importantes da região: Touriga Nacional, Alfrocheiro e Jaen”.

Esta vinha, localizada a 500 metros de altitude, destaca-se desde logo pelo facto de estar totalmente murada, no centro da cidade de Mangualde. “O projeto de viticultura pretende mostrar o terroir do Dão, aqui no sopé da Serra da Estrela, em solo granítico bastante fértil e com muita disponibilidade de água”, refere Luís Leocádio. O objetivo passa por “adequar a produção à sua estrutura, seguindo uma linha de frescura e mineralidade. Não são vinhos concentrados, antes pelo contrário, são vinhos bastante elegantes e com muita frescura”.

Nesse sentido, a vinha foi segmentada, plantada em talhões por castas para selecionar o que pretende. Leocádio dá como exemplo a Touriga Nacional, casta nobre do Dão mas interpretada de forma bastante original. “Temos a casta plantada na parte com maior frescura e identidade para brancos, que usamos para fazer espumante e o nosso ‘blanc de noirs’; e também na zona dos tintos, onde conseguimos ter maior produção e uvas mais concentradas que as restantes, mas sempre com aquele lado vivo e a maturação fenólica que considero importante” para o perfil de vinhos pretendido.

Foquemo-nos neste vinho branco de Touriga Nacional, cuja história Luís recorda: “Existia antes um rosado, com o qual não nos identificávamos, mas a estrutura e o potencial de guarda estavam lá. Como já fazíamos o vinho base para espumante, no qual percebíamos o carácter de branco, muito mineral, não tão cítrico, mas muito fresco e mentolado, decidimos apostar num branco de Touriga Nacional, um pouco diferente, mais irreverente, a partir de uma casta tradicional”. O objetivo foi, desde logo, “quebrar as barreiras psicológicas que dividem os brancos dos tintos”. E podemos dizer que a sua aprovação pelas entidades certificadoras não foi fácil… “A Touriga Nacional, que tem uma vertente aromática exuberante, mostra-se aqui com fruta vermelha mais fresca, com groselha e framboesas”. Trata-se de um vinho incolor, “com um nariz muito enigmático”. Uma versão quase que ilusionista da casta, onde ressoam “a frescura e a mineralidade do solo”, num “vinho descomprometido, irreverente, com boa frescura e acidez, para desfrutar com comida mas também um bom convívio”, assinala o enólogo. A Touriga é também a casta base para o espumante da casa, um ‘assemblage’ que segue o princípio dos vinhos-mãe usado pelas casas de Champagne. Quem disse que a Touriga Nacional não pode ser irreverente, até no Dão? 

Texto: Guilherme Corrêa e Marc Barros
Fotos: Daniel Luciano, Jorge Matos e Ricardo Garrido