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Grandes vinhos para o Natal

Uma seleção de sonho

Fotografia: Arquivo
José João Santos

José João Santos

É bem provável que o dilema se eternize: até que ponto o Natal é a melhor altura do ano para abrirmos aquelas garrafas que nos fazem suspirar? Sim, a família está reunida mas o permanente cruzamento de conversas, o constante rebuliço da criançada, o vai e vem de diferentes pratos e sobremesas… Será que a audiência lá de casa estará disposta a prestar a devida atenção que esses vinhos merecem? E até que ponto é justo forçarmos um momento mais cerimonial para falar sobre vinhos? 


Tememos que não haja um conselho perentório, tanto mais que a fronteira entre o bom-senso e o risco da enochatice será, num caso como este, especialmente ténue. Mas, sim, pode sempre arriscar partilhar grandes vinhos com aqueles de quem mais gosta numa data como o Natal ou imbuir-se de um espírito de dádiva e ofertar. 

Para o ajudar na sempre árdua tarefa da seleção, a Revista de Vinhos apresenta propostas de primeira grandeza, que ao longo deste ano têm chegado ao mercado. Alguns já estão disponíveis há alguns meses, muitos outros entram agora no circuito comercial precisamente a pensar no Natal.

Notamos, desde logo, um dado que nos apraz. Lentamente, os produtores portugueses parecem estar cientes da mais-valia em guardar os vinhos em cave antes de os lançar no mercado. Assim, integramos nesta criteriosa seleção vinhos com oito e sete anos de estágio, expectantes para perceber se este movimento se tornará mais transversal a médio prazo. Os vinhos portugueses possuem pergaminhos raros que lhes permitem muitas vezes evoluir por décadas, um fator distintivo que urge ser ainda mais explorado enquanto argumento extra de posicionamento na montra do mundo. E nós, que os provamos e os consumimos, também agradeceremos abrir determinada garrafa no tempo certo, quando o vinho se expressar na plenitude. Ora, se nestes dias raramente temos espaço livre em casa que nos permita manter uma cave generosa, convém que o compasso de espera fique a montante, na origem.

A quase centena e meia de vinhos que surge destacada nas próximas páginas representa diversidade e apuro da viticultura e da enologia, que se faz particularmente sentir nos vinhos brancos, a tipologia que mais tem evoluído nos tempos recentes no nosso país. A esse propósito, um sublinhado para a evolução assinalável dos vinhos brancos alentejanos – atualmente muito mais frescos, finos e vibrantes, não apenas confinados à dupla de castas Antão Vaz e Roupeiro (Síria).

Na globalidade fica novamente demonstrado o carácter dos DOC Douro, o potencial de longevidade de regiões como a Bairrada e o Dão, a frescura dos vinhos de Lisboa. Saúda-se igualmente a evolução dos brancos minhotos, Vinhos Verdes bem sérios, afirmativos e cheios de carácter que rompem com o dogma de vinho do ano e demonstram o largo futuro da região para produzir vinhos brancos de primeira linha, com aptidão gastronómica e capacidade de longevidade em garrafa.

Um derradeiro olhar global revela que os exemplares mais entusiasmantes conseguem harmonizar os predicados que sempre esperamos dos grandes vinhos com uma interpretação do lugar, do terroir. Esse é um dado fundamental nos dias de hoje, uma espécie de derradeiro filtro que separa a ourivesaria da mais detalhada filigrana. Feliz Natal com grandes vinhos… e boas compras!

Conheça aqui a seleção de vinhos.