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Herdade Grande: Uma Lança na Vidigueira

Fotografia: Fabrice Demoulin
Nuno Guedes Vaz Pires

Nuno Guedes Vaz Pires

Com um século de história, a Herdade Grande pode gabar-se de ser precursor dos vinhos do Alentejo, a vários títulos: é o terceiro produtor engarrafador do Baixo Alentejo e introduziu castas de outras proveniências, como Sousão, Rabigato ou Sauvignon Blanc. Mas nunca perdeu de vista a tradição e a sua herança, seja nas variedades autóctones, que preserva e recupera, seja na vinificação, como o regresso da talha agora atesta, seja até em modelos de viticultura em consociações entre a vinha e o olival. Sempre com António Lança como figura tutelar.


A Herdade Grande localiza-se na Vidigueira e possui cerca de 60 ha. de vinhas implantadas em solos xistosos. O clima é mediterrânico, com amplitudes térmicas elevadas e noites frescas (sobretudo pelos pedrões alentejanos), muito em parte pela barreira natural imposta, a norte, pela Serra do Mendro. 

A Herdade Grande foi adquirida em 1920 pelo avô de Eduardo Lança, abrangendo hoje a quarta geração da família. Foi António Lança, agrónomo de formação, quem desenhou no final da década de 70 o mapa de vinhas hoje existente. E se as uvas eram, numa fase inicial, vendidas à cooperativa da Vidigueira, da qual o seu pai foi cofundador, decidiu, em 1997, tornar-se produtor engarrafador, sob a marca Herdade Grande.

“Em breve irei cumprir três quartos de séculos de idade, 50 anos como viticultor e 25 de produtor engarrafador; isto quando comemoramos o centenário da herdade”, sublinha António Lança. É, por isso, tempo de celebração, com a introdução de várias novidades no portefólio da marca. “Sempre procurei a diferenciação”, refere. Nas suas palavras, este projeto caracteriza-se pela “continuidade, experimentação, recuperação de tradições, como a talha, ou a introdução de castas de fora, como a Sousão”. E elenca outras, como Rabigato, Viosinho, Alvarinho ou Sauvignon Blanc que, porém, “não impedem que mantenha as castas tradicionais do Alentejo e da Vidigueira, como Antão Vaz, Roupeiro e até Arinto”.

Até porque António Lança não esquece as suas origens: tem ali o “berço, e dos meus irmãos, numa propriedade adquirida pelo meu avô. Era uma agricultura diferente da atual, mas com coisas que continuaram, como por exemplo a vinha consociada com olival”. Depois de formado em agronomia, passou pelo Ministério da Agricultura e mais tarde trabalhou na banca, mas resolveu ser empresário agrícola em 1980, em conjunto com o meu pai – “de certa forma como acontece hoje com a minha filha Mariana”, sublinha. “Depois de trabalhar de perto com a cooperativa da Vidigueira, resolvi declarar a independência e sou o terceiro produtor do Baixo Alentejo. Foi tudo muito natural e dediquei-me totalmente a este projeto”. Paralelamente, pretende evoluir no projeto de olival, com uma área sensivelmente igual à vinha.


Objetivo: diferenciação


O enólogo Diogo Lopes vinca o caráter experimentalista de António Lança como uma das grandes mais-valias da Herdade Grande, pois permitiu consolidar uma palete de variedades, introduzidas na década de 80, e de vinhos que são hoje referência na região, considera. “Estamos por isso a colher o fruto desse trabalho”, afirma. O desafio será agora “afunilar para as que nos permitem fazer os vinhos que queremos”, visando “maximizar o caráter diferenciador dos vinhos da Vidigueira”. Na vinha, o objetivo passa por “continuar a restruturar e fazer esta seleção para variedades que sabemos que são valores seguros”. O histórico sobre o comportamento das castas no passado permitirá “selecionar e canalizar esse trabalho para aumentar a área das melhores castas, como o Sousão, a Tinta Miúda, nas brancas, como o Rabigato”.

Diogo realça a ligação que mantém com a família desde os tempos da faculdade. “Não queremos mudar muito, pois é um projeto familiar com muita consistência e paixão, mas que consegue sair do standard”. 

E dá como exemplo o regresso às talhas: “É um método ancestral muito particular de fermentar e eu próprio estou a aprender com ele”. Mostra-se “maravilhado com os resultados, são vinhos com muito caráter, que vão honrar o legado histórico destes 100 anos” sob a forma do Herdade Grande Amphora branco e tinto, ambos de 2018. 

O primeiro é descrito por Diogo Lopes como “um talha puro, de fermentação em curtimenta. Selecionámos uvas de vinhas mais velhas, entre as castas Antão Vaz, Perrum e Roupeiro, e também algum Alvarinho, que entraram em simultâneo nas talhas, para fermentação com as leveduras indígenas. Procedemos ao removimento das massas, em busca da extração das películas, e interrompemos o processo em novembro, procurando um compromisso que garantisse rigor e distinção ao vinho. O resultado é um branco cheiro de caráter, com bastante boca, devido à fermentação com as películas. No nariz tem a nota resinosa do pez e do pinheiro, que lhe confere autenticidade e pureza. É um branco com tanino, muito rico e volumoso na boca”.

O Herdade Grande Amphora Tinto 2018, “em termos de processo, passa apenas pelo estágio no barro. Resulta de um lote de castas portuguesas (Tinta Grossa, Tinta Caiada e Touriga Franca) que, depois da fermentação em lagares de inox, faz um estágio nas talhas, em busca do lado mais terroso. No final, torna-se um tinto muito interessante, sem a maquilhagem da madeira, com os taninos muito arredondados, muito apetecível e guloso”.

Já o monocasta Sousão, datado de 2017, é o expoente da experimentação de António Lança, revelando-se no terroir da Vidigueira uma variedade “muito curiosaque , aguenta bem o estágio em barricas novas e mantém a acidez. Vai surpreender muita gente”, assegura o enólogo.

Na ocasião, foram ainda provados dois vinhos da Herdade Grande datados de 1999, um branco e um tinto. A prova “permite-nos perceber o passado da herdade e compreender tudo o que foi feito até aos dias de hoje”, percebendo “este trajeto e consistência da gama; tem sido uma viagem de grande aprendizagem”, reforça Diogo Lopes, que se mostra “fascinado sobretudo com o vinho branco, muito diferenciador, que mostra que os brancos da região têm grande potencial para envelhecer, que a Vidigueira tem as castas certas e o potencial está cá. Não temos que inventar muito mas sim interpretar bem a matéria-prima que temos”. Estes são, sem dúvida, tempos especiais para a Herdade Grande.