Vinha do Convento, a saudável obsessão pelo terroir

Fotografia: Fabrice Demoulin

Mais do que as regiões ou as zonas dentro das regiões, hoje fala-se de vinhas. O trabalho apurado, aparentemente insano de tão focado, reflete uma atenção detalhista como não há memória no passado recente. A verdade é que há vinhas verdadeiramente especiais, detentoras de uma identidade que não consegue ser replicada noutro qualquer lugar. No Tejo, a Vinha do Convento, da Falua, é um bom exemplo.

 

Antonina Barbosa não consegue disfarçar o brilho nos olhos à chegada à Vinha do Convento. Será certamente o espelhar sincero do que lhe corre na alma, a expressão corporal de um sentimento maior perante um pedaço de terra que impressiona desde o primeiro contacto. Segue-se o sorriso da enóloga e diretora-geral da Falua quando a desafiamos a segurar nas mãos uma das milhares de pedras que o solo ostenta – calhau rolado, de diferentes dimensões, formas e pesos, resquícios da passagem por ali do rio Tejo, há 400 mil anos.
Não é nada comum vermos um chão de vinha como este em Portugal. Pelos estudos de solo realizados percebe-se que o calhau rolado existe em exclusividade até quatro metros de profundidade, permanecendo constituinte primordial até uns mais profundos 12 metros.


Estamos na sub-região da Charneca. Nesta Vinha do Convento deparámo-nos com um solo arenoso muito pobre em concentração de matéria-orgânica, mais ácido. As raízes da videira, em busca de nutrientes, são por isso mais longas e o desenvolvimento vegetativo da planta acaba por ser também diferente. Aliás, o modo como algumas castas por aqui se expressam é distinto do comportamento apresentado nas redondezas – as maturações são plenas, as uvas conseguem preservar a acidez natural, surgem mais concentradas mas sempre elegantes, expõem uma expressividade aromática igualmente distintiva. A assinalável amplitude térmica ao longo de todo o ciclo vegetativo é ainda importante para explicar a qualidade final do fruto. Os invernos são aqui frios e os verões chegam a ser tórridos, embora com noites frescas.


As castas brancas em maioria são Arinto, Chardonnay e Fernão Pires, a que se juntam as tintas Touriga Nacional, Castelão, Aragonês e Cabernet Sauvigon. A vinha foi plantada em 1996, ou seja, está a completar 25 anos. Por entre os 45 hectares de dimensão, as falhas identificadas têm vindo a ser preenchidas com novas plantas, uma operação manual, a exemplo da esmagadora maioria dos trabalhos realizados durante o ano, dado que apenas nos tratamentos fitossanitários se recorre ao auxílio da mecanização.
Permanente puzzle para quem faz viticultura e enologia, os humores da Vinha do Convento não são dos mais fáceis de descodificar. Antonina Barbosa explica que é frequente o controlo de maturações feito em laboratório não corresponder ao imediatismo de uma visita à vinha, onde uma prova de bagos rapidamente conclui ter chegado a hora de colher esta ou aquela uva, que em análise pareciam ainda não ter atingido o grau desejado. “É preciso, de facto, um acompanhamento mais próximo e muito pessoal das videiras e das uvas que aqui temos”, diz-nos.

Como um livro por capítulos

A partir da Vinha do Convento é obtido o Conde Vimioso Reserva, um dos vinhos emblemáticos da Falua. Ao longo do tempo, o estudo e reconhecimento de parcelas mais individualizadas de vinhas, de talhões e de castas, tem permitido captar o real potencial das diferentes expressões que daqui se poderão obter. Afinal, a interação homem/natureza aprimora-se por conhecimento mútuo.


O trabalho a uma escala micro-parcelar permitiu a expressão individual de cada casta. O monocasta Touriga Nacional, por exemplo, é um vinho fermentado com leveduras indígenas, sem colagem nem intervenções enológicas vincadas, que procura representar a origem de forma mais crua e fiel. Em breve, outros vinhos similares chegarão ao mercado, num processo maior que pretende proporcionar um entendimento mais solidificado do verdadeiro potencial desta vinha. A partir de uma pequena área, hoje reconvertida, estão a ser produzidos três ensaios “totalmente diferentes”.


Entretanto, o mais recente resultado desse trabalho de apuro é o Conde Vimioso Vinha do Convento 2017, lançado em outubro de 2020, lançamento do qual demos nota na edição nr. 372.
A colheita de 2017 foi desafiante. Pela primeira vez, a Falua decidiu colocar em barrica o Castelão da Vinha do Convento, habitualmente mais concentrado face ao que é habitual no Tejo. Para as barricas foram ainda Touriga Nacional (60%) e Cabernet Sauvignon (20%), duas variedades que sempre integraram o Reserva. As 11 melhores barricas estiveram na origem deste Conde Vimioso de perfil mais “terroirista”, onde a integração do Castelão, pela primeira vez no lote final, faz toda a diferença. É senhorial e antecipa larga margem de progressão em garrafa.


A beleza do vinho está – em muito – nesta compreensão pormenorizada do local. E quando esse local é uma vinha como a do Convento, o desafio é certamente suplementar pela imensidão de oportunidades, por entre processos de tentativa/erro até resultados surpreendentemente bons.

 

18,5
Conde Vimioso Vinha do Convento 2017
Regional Tejo / Tinto / Falua
Púrpura. Nariz de alguma violeta, cereja escura, pimento, folha de tomate, urze, balsâmicos e especiaria fina de boa barrica. Tanino firme, estrutura seca e guerreira, dimensão elegante. Termina de forma muito profunda, com nuances de cedro e folha de tabaco. Um vinho senhorial, com larga margem de evolução em garrafa.
Consumo: 2021-2030
85,00 € / 16ºC


18
Conde Vimioso Vinha do Convento 2017
Regional Tejo / Tinto / Falua
Púrpura. Nariz de alguma violeta, cereja escura, pimento, folha de tomate, urze, balsâmicos e especiaria fina de boa barrica. Tanino firme, estrutura seca e guerreira, dimensão elegante. Termina de forma muito profunda, com nuances de cedro e folha de tabaco. Um vinho senhorial, com larga margem de evolução em garrafa.
Consumo: 2020-2030
85,00 € / 16ºC

 

TEXTO E NOTAS DE PROVA José João Santos, Nuno Guedes Vaz Pires