×
image

Vinhos do Porto de Sonho

Fotografia: Fabrice Demoulin
Marc Barros

Marc Barros

Foi o presidente do IVDP, Gilberto Igrejas, quem melhor a descreveu: uma “prova de vinhos, muitos dos quais já ultrapassaram um século de história”, em que marcaram presença produtores e provadores de “várias faixas etárias, entre os quais muitos jovens”, que “conseguem dar uma nova dinâmica à forma de comunicar o Vinho do Porto”. É mesmo disso que se trata a prova”, como resumiu Bento Amaral, cicerone e brilhante anfitrião -, aos mais jovens é incumbida a tarefa de prosseguir este legado único.


Em jeito de introdução, Bento Amaral apresentou os produtores e enólogos das diversas casas presentes, referindo-se-lhes como “guardiões do tempo, encarregues de fazer chegar às gerações atuais e futuras os vinhos feitos pelos nossos antepassados”. E discorreu sobre os vinhos em prova, desde “Porto Vintage, mas também brancos e tawnies muito velhos e Tawnies muito velhos”, numa demonstração da enorme “diversidade do Vinho do Porto”.

A prova foi conduzida sob a forma de uma linha temporal, que começou em 1994, com o Quinta do Noval Nacional Vintage e terminou no início do século XX, com um Very Old Tawny do produtor Costa Boal. Pelo meio, desfilaram estrelas de décadas passadas, sob a forma de vinhos excecionais.

Vamos seguir, então, a linha do tempo. Começamos pelo Quinta do Noval Nacional Porto Vintage 1994, apresentado pelo atual enólogo, Carlos Agrellos, sobrinho de António Agrellos, enólogo responsável por esta pérola “nacional”. Um vintage com “apenas” 25 anos, oriundo de uma das mais emblemáticas vinhas portuguesas. Nasce de vinhas em pé-franco, intocadas pela filoxera, das castas Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinta Roriz, Tinto Cão e Sousão. “O ano climático foi extremamente favorável”, resultando num vinho concentrado, rico e intenso, harmonioso e elegante, de grande suavidade e finesse.

Por sua vez, o Taylor’s Porto Vintage 1970, feito com uvas da Quinta de Vargellas e Quinta de Terra Feita, apresenta-se “com a harmonia e tensão” que definem o estilo da casa, como explicou Nicholas Heath, da The Fladgate Partnership. Provado em garrafa Magnum, revela já os aromas da garrafa que resultam do seu envelhecimento, mas ainda com muito para oferecer. Excelente para acompanhar queijos azuis, frutos secos e frutos cristalizados.

De um dos melhores anos da década de 60, o Dow’s Porto Vintage 1963 surge no seu esplendor de equilíbrio e concentração, apresentando aromas de mel, frutos silvestres, complexo, de sabor frutado, intensa frescura e final interminável. Gonçalo Brito, da Symington Family Estates, recordou que “este é um dos melhores Vinhos do Porto do século XX; equiparável ao antecessor de 1945”. Foi, também, um Vinho do Porto importante para a empresa e para a região, pois permitiu ultrapassar as dificuldades colocadas pelo final da II Guerra Mundial, com a abertura de novos mercados para o Porto Vintage – os Vintages 1963, 1966 e 1970 registaram grandes resultados, determinando a recuperação económica dos operadores da região e o desenvolvimento da mecanização do Douro. Como se vê, estes vinhos também contam a história da região…

O poder do tempo


A prova prosseguiu com um novo capítulo, desta feita ditado pelo desfilar dos Colheita, vinhos de um ano apenas, envelhecidos em casco, e os inexcedíveis Tawnies velhos. Cristiano van Zeller apresentou o Quinta do Vale D. Maria Colheita 1969 e explicou que resulta de “um trabalho intenso – mas divertido - de procura e aquisição, em adegas antigas da região”, de exemplares guardados de Colheitas antigos. Foi assim capaz de constituir uma coleção cuja primeira amostra é este 1969, engarrafado em outubro de 2019, ou seja, com 50 anos de estágio mínimo em barricas de Vinho do Porto. De cor ambarina, mostra uma imensa complexidade, com as notas terciárias a conferirem densidade e profundidade a um vinho longo, cheio de frescura e vivacidade.

Especialista em Porto Colheita, a Kopke, a mais antiga casa de Vinho do Porto, guarda uma verdadeira livraria de vinhos velhos, incluindo Porto brancos, como o exemplar de 1940 que foi apresentado pelo master blender Carlos Alves. Apesar de branco, este vinho mostra todas as tonalidades do envelhecimento profundo, entre o âmbar, esverdeado e castanho escuro; cítrico, especiado, frutos secos, toda a complexidade e equilíbrio de um vinho que apresenta 130 gr/l de açúcar e 5,06 gr/l de acidez total. Portentoso. 

E o que dizer dos 7,06 gr/l de acidez total vs. os 140 gr./l. de açúcar exibidos no Maynard’s Colheita 1935 Barão de Vilar? Toda a doçura sublime de um Vinho do Porto, ancorada na frescura intensa manifestada num vetusto senhor que conta já 85 anos de idade! Mariana Van Zeller recordou que, tal como o congénere da Quinta Vale D. Maria, também este “foi adquirido no Douro há alguns anos trás”, ficando a envelhecer nas caves de Vila Nova de Gaia – e não do Douro, sublinhe-se -, refletindo a influência “do armazém e do microclima”, que contribuem para um vinho sedoso, untuoso, mas com frescura exemplar e equilíbrio notável.

Datado do ano anterior, coube a Miguel Martins, diretor geral da Vallegre, apresentar o Vista Alegre Colheita 1934, um vinho deslumbrante de cor dourada, que solta aromas terciários nobres, como verniz, iodo, vinagrinho, frutos secos; amplo, corpo volumoso mas imensamente sedutor, fresco e tenso. Um vinho que não desdenharia um bom charuto maduro, de diâmetro largo e tiro suave. Da Niepoort, surgiu em seguida um Very Old Dry White. Daniel Niepoort, filho de Dirk, foi o responsável pela apresentação do vinho, tributo a Rolf, pai de Dirk. Três gerações em torno de um vinho único que, apesar de seco, “exibe” 138 gr/l de açúcar, suportados nos 7,54 gr/l de acidez total. Na boca, mostra toda a proverbial secura, limpo e fresco e, ao mesmo tempo, irreverente.

Tal como o exemplar que se seguiu: o Quinta da Boeira Very Old Tawny 1917, comercializado em… frascos de perfume. Com efeito, Sara Castro, responsável de marketing da empresa, revelou que este vinho, adquirido à família Strecht Ribeiro, é colocado no mercado em unidades de 100 ml, pelo que se bebe em “pequenas vaporizações”. Na prova, foi servido em copo, mostrando-se complexo, balsâmico, com notas de frutos secos, figos, especiado, cheio e longo. A terminar esta viagem pelo tempo e pelo Vinho do Porto, o Costa Boal Very Old Tawny. Um vinho que, segundo apurámos, deu que falar até na Câmara de Provadores do IVDP. Elaborado pela dupla formada pelo produtor António Boal e o enólogo Paulo Nunes, este vinho centenário foi guardado por gerações na adega da família do produtor em Cabeda, Alijó, sem qualquer intervenção nas últimas três décadas. Seco (apesar dos seus 266 gr/l de açúcar), fresco e tenso (dados os 7,92 gr/l de acidez total), um deslumbramento em tons ambarinos, notas intensas de verniz, caramelo, caixa de tabaco, frutos secos como noz e avelã, mel. Intenso, elegante e vivo. Como se pede aos Vinhos de Porto de sonho, que nos desvendam memórias do tempo futuro.