A avaliação e os bitaites sobre vinho

Ciente da subjetividade que avaliar um produto da esfera do gosto, como é o vinho, sempre encerra, defendo que o provador deverá colocar o rigor técnico acima do gosto pessoal. Não sou fã de música clássica mas tenho obrigação de perceber se uma orquestra está melodiosa ou dissonante. 


Certamente já terei sido injusto na avaliação de alguns vinhos ou terei sobrevalorizado outros, que mais me entusiasmaram. É um risco inerente à função. Os que falam, escrevem, comentam e pontuam vinhos não são infalíveis e devem, inclusive, estar preparados para o exercício do contraditório. 

Como em tudo na vida, também no vinho entendo que se nos levarmos demasiado a sério corremos o risco da soberba do pensamento. Em última análise podemos ficar toldados pelo que acreditamos ser o primado da razão – a nossa opinião, portanto. Aceitar responsabilidade com alguma leveza e naturalidade parece-me salutar, desde que não resvalemos para a desresponsabilização ou a ligeireza.

O julgamento público de um vinho é frequentemente um ato individual. Não raras vezes, todavia, é a súmula de um conjunto de avaliações – como numa mesa de jurados de um concurso ou em reuniões alargadas de painéis de provadores, por exemplo. Em qualquer caso deve estar suportado por conhecimentos de base sólidos, sendo a experiência de prova e a abrangência de diferentes realidades inegáveis mais-valias.

Numa prova “às cegas” – sem conhecimento prévio da casta, do país, da região, do produtor, etc. –, quanto mais diversificado for o “background” do provador, melhor. Perante uma jornada de provas com três, quatro, cinco ou mais dezenas de exemplares do mundo, a mundividência conta, é relevante. Estranho, por isso, a frequência de expressões como “não gosto deste tipo de vinho”, saídas da boca de alguns provadores durante um momento de prova. Ciente da subjetividade que avaliar um produto da esfera do gosto, como é o vinho, sempre encerra, defendo que o provador deverá colocar o rigor técnico acima do gosto pessoal. Não sou fã de música clássica mas tenho obrigação de perceber se uma orquestra está melodiosa ou dissonante. 

A par dessa avaliação de matriz técnica, sempre que necessário importa captar “a estética do vinho” – uma expressão muito feliz recentemente usada por um conhecido enólogo português que, em conversa descontraída, reconhecia que muitos enólogos estão apenas treinados para captar imperfeições nos vinhos tendo dificuldades na interpretação geral de vinhos tecnicamente imperfeitos. A um bom provador exigem-se ambas as dimensões: a compreensão técnica e a contextualização estética do vinho. 

Em conjunto, por vezes a nossa avaliação não irá prevalecer. Aí, teremos que aceitar o juízo de grupo. A solo devemos ser mais exigentes connosco, temos que nos autodisciplinar para que o nosso gosto pessoal não seja o fundamento maior da avaliação de um vinho. Esse papel é-nos reservado na qualidade de consumidores, quando selecionamos os vinhos que mais gozo nos dão beber em casa ou partilhar com os amigos.


Elas, eles… e um telemóvel

A começar por Bordéus, durante anos Robert Parker foi o guru da opinião mundial sobre vinho. Com ele, a crítica centrou-se na atribuição de pontos. Outros nomes, desde logo o de Jancis Robinson, mantêm uma aura especial, neste caso com um papel suplementar igualmente notável na formação e educação para o vinho. O mediatismo crescente das sociedades e o advento das redes sociais trouxe a jogo centenas de outras personalidades, que falam, escrevem, comentam e pontuam vinhos. Umas sabem o que fazem, outras…

Tudo começou pela blogosfera. Ao separarmos o trigo do joio, é importante reconhecermos que há excelentes exemplos de bom trabalho nessa área, blogues que já se tornaram autênticas referências e fontes de conhecimento. As redes sociais notabilizaram, entretanto, os chamados “influencers” e aí o cenário é distinto, uma vez que são frequentes as demonstrações de falhas de conhecimento sobre o que publicam. 

É verdade que as revistas especializadas mantêm-se como referências junto de um público mais detalhista, é verdade que existe hoje uma vasta oferta de conteúdos didáticos, informativos e de entretenimento sobre vinho, muito bem elaborados. Mas, para um público menos avisado, o curioso que se encontra numa fase muito iniciática do percurso, a fotografia bonita de um rótulo acompanhada pelo emoji da moda pode valer tanto ou até mais do que uma classificação de 95 pontos da Wine Spectator, na altura de decidir o vinho a comprar.

O vinho é hoje mais popular e menos dessacralizado. Ainda bem. Todavia, o rigor com que se publicam comentários sobre um determinado vinho deixa a desejar. Inconscientemente, muitos dos que se assumem influenciadores ou fazedores de opinião “bitaitam” com perigosa soberba, confundindo conceitos ou escapando aos factos de uma realidade que vai muito além do ecrã de um telemóvel. Quantos “influencers” participaram numa vindima, entraram num laboratório ou respiraram o silêncio de uma cave de envelhecimento? Sim, sentir o pó, sujar os sapatos e as mãos é fundamental para conseguirmos interpretar um vinho. É precisamente aí que começa a ficar definida a estética de um vinho, não no rótulo douradinho que o filtro do editor de imagens vai fazer brilhar ainda mais.

O que hoje é dito ou escrito sobre vinho já não dita preços como nos tempos de Parker nem abre novos capítulos dos livros de Jancis. A razão é simples: há muitos mais atores a comentar vinhos e o acesso generalizado dos consumidores a informação está mais facilitado. Porém, apesar de não ser uma ciência exata, comentar vinho com alguma profundidade merece premissas como estudo, conhecimento, rigor e, claro, respeito por quem o faz – os viticultores, os enólogos e os produtores. Por tudo o que significa, o vinho não merece ser tratado somente como uma fatiota nova que se fotografa junto ao espelho do corredor de nossa casa. O vinho vai muito além disso. O verdadeiro crítico será quem lhe consegue captar as diferentes dimensões, que lhe conhece a complexidade e o consegue descodificar para o transmitir com simplicidade. Será quem reconhece méritos e identifica deméritos de um vinho de 5,00€ ou de 50,00€, justificando-o com factos e com lógica, independentemente de fotografar ou não o rótulo. 

A quem estar atento? Partilho algumas sugestões à escala global: Alice Feiring, Allen Meadows, Andrew Caillard, Andrew Jefford, Antonio Galloni, Carolyn Evans Hammond, David Schildknecht, Eric Asimov, Ferran Centelles, Fiona Beckett, James Laube, James Suckling, Jamie Goode, Jeb Dunnuck, Joe Fattorini, Jon Thorsen, John Platter, José Peñin, Julia Harding, Lisa Perrotti-Brown, Luis Gutierrez, Madeline Puckette, Michel Bettane, Neil Martin, Peter Moser, Peter Richards,Richard Juhlin, Sarah Ahmed, Stephan Reinhardt, entre outros. Felizmente, alguns são colunistas da Revista de Vinhos. E, felizmente para mim, tenho o privilégio de partilhar uma redação e um painel de provas com um conjunto de pessoas que respeito, admiro e com quem diariamente aprendo algo mais. 

Trabalho, rigor, isenção, seriedade, conhecimento, prática, humildade (muita humildade). Terá que ser esta a fibra de um crítico de vinhos. O público rever-se-á mais no nome A ou no B, mas a substância e o conteúdo prevalecerão sempre sobre o fogacho de uma qualquer “story”. Afinal, os bons vinhos também são muito assim, não são?

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