Mudança de paradigma na viticultura

A vinha já não é vista simplesmente como uma planta de produção e o solo como apenas um meio para suportá-la. Em vez disso, estamos a pensar a vinha como um agroecossistema.


Quando comecei a escrever sobre vinhos, no final dos anos 90, a vinha apresentava-se em toda a parte sempre limpa e arrumada. As fileiras de vinhas mostravam-se bem cuidadas, quase que ‘penteadas’, sobre um cenário de solo nu, o que era considerado um sinal de boa viticultura. Não fazia ideia que, na sua maioria, esse cenário resultava do uso de herbicidas e do excesso de mobilizações do solo. A viticultura biodinâmica e orgânica era um pequeno espetáculo paralelo e os seus praticantes olhados com certo grau de suspeição. Mesmo em 2004, quando escrevi o meu primeiro livro sobre ciência do vinho, era possível compilar uma lista de vinhas biodinâmicas - e não era uma lista longa.

Além disso, naqueles tempos, toda a atenção estava focada nas adegas. O enólogo era considerado inerente à qualidade do vinho e acreditava-se que um enólogo talentoso era capaz de fazer bons vinhos a partir de quaisquer uvas que acabassem na adega. Em parte, isso ocorreu porque era a época em que a produção tecnológica estava a transformar os vinhos que os consumidores bebiam. No início dos anos 90, produziam-se por toda a Europa muitos vinhos de fraca qualidade e, por isso, a fruta menos boa dava o seu lugar a normas de higiene, equipamentos modernos, controlo de temperatura e produtos enológicos, que limpavam vinhos correntes, tornando-os frutados e atraentes. Os ‘flying winemakers’, usualmente formados na Austrália, Nova Zelândia ou Califórnia, tornaram-se personalidades conhecidas.

Mas, recentemente, vemos este pêndulo balançar no sentido oposto. Primeiro, surgiu o interesse crescente no terroir: a ideia de que alguns locais são mais privilegiados do que outros e que a vinificação sensível, associada à boa viticultura, permitia que os vinhos capturassem o sentido do lugar. O estilo ‘internacional’ de vinhos tintos, feitos de uvas muito maduras e banhados em carvalho novo, começou de repente a perder o seu apelo. A Borgonha, com a ênfase no terroir, tornou-se o local de peregrinação para os amantes de vinhos de qualidade.

E, com tudo isto, muito rapidamente verificou-se uma mudança de abordagem na viticultura. Agora não olhamos para a vinha simplesmente como uma planta de produção e o solo como apenas um meio para suportá-la, fornecendo ancoragem e nutrientes. Em vez disso, estamos a pensar a vinha como um agroecossistema.

Do glifosato à agricultura regenerativa

Uma mudança significativa surgiu com as atitudes públicas em relação aos herbicidas, um em particular: o glifosato. Há cinco anos, quem não trabalhasse na agricultura jamais tinha ouvido falar do glifosato. Mas alguns processos judiciais nos EUA de elevada repercussão trouxeram esse herbicida, também conhecido pelo seu nome comercial Roundup, para o centro das atenções. É incrível e amplamente utilizado na agricultura, incluindo a viticultura, por ser barato, eficaz e seguro (ou pelo menos foi considerado seguro até aos ditos processos nos EUA, embora o tópico seja altamente discutido).

Na vinha, tem sido a maneira preferida de lidar com as infestantes, especialmente nas entrelinhas. Embora seja comum permitir que algumas gramíneas ou culturas de cobertura cresçam nas linhas entre as vinhas, sendo depois cortadas, destroçadas ou incorporadas, é a tratar das infestantes nas entrelinhas que a sua utilização é mais problemática. Existem ferramentas para o controlo mecânico destas ervas, mas é um trabalho lento e torna-se bastante menos oneroso usar simplesmente o herbicida. O resultado são faixas de terra nua, uma visão comum em vinhas de todo o mundo. É permitido nos protocolos mais sustentáveis de viticultura, mas não no modo biológico e na biodinâmica.

Agora, porém, parece que o glifosato poderá ser banido em breve, o que tornará a viticultura mais cara, mas será positivo para a vida no solo. O que acontece sob a superfície do solo é cada vez mais o foco das atenções. A área em redor das raízes da vinha é conhecida como rizosfera e as interações entre a vida microbiana da rizosfera e as raízes da vinha são complexas e importantes. Solos saudáveis e cheios de vida tornam as vinhas mais resistentes a doenças, mais produtivas e aumentam a resistência à seca.

O glifosato é altamente prejudicial à vida microbiana do solo de duas formas. Por um lado, remove as plantas, e as raízes das plantas são vitais para a estrutura e a vida do solo. As raízes - e isso inclui as vinhas - alimentam a vida no solo libertando compostos orgânicos, incluindo açúcares, no solo, podendo ser uma proporção significativa dos produtos da fotossíntese. Em troca, a microvida do solo recicla nutrientes e disponibiliza-os para a vinha. A ligação mais conhecida dá-se com um grupo de fungos que formam as micorrizas. Estas invadem o tecido radicular da vinha de forma controlada e, em troca de alimento, atuam como um sistema radicular aperfeiçoado. Por outro lado, o glifosato ‘apropria-se’ dos iões minerais e torna-os indisponíveis para as raízes. Antes de o glifosato ser usado como herbicida, era empregue como produto de limpeza industrial precisamente por causa dessas propriedades. Quando é usado numa vinha, uma parte acaba no solo e, embora a sua permanência no solo seja de apenas seis semanas em média, mesmo assim é tempo suficiente para causar danos.

Esta ênfase na vida do solo colocou os viticultores e viticólogos a concentrarem-se não apenas na vinha, mas também nos solos. Há um interesse crescente nas culturas de cobertura como forma de melhorar a vida do solo. Obviamente, todas as vinhas são diferentes e não há receitas que possam ser aplicadas em todo o mundo. Num clima húmido como o Estado de Nova Iorque, deixar as infestantes crescer pode ser útil para reduzir o vigor, enquanto num clima quente e seco como a África do Sul ou o Douro, permitir que as ervas cresçam livremente pode resultar em muita concorrência por água na redução correspondente do rendimento da  vinha para níveis economicamente insustentáveis. Mas, por outro lado, talvez não.

Além de sistemas para a gestão da vinha como os biológicos e biodinâmicos, agora temos um novo modelo – a agricultura regenerativa. É aqui que a viticultura pretende trazer a vida de volta às vinhas. Os viticultores experimentam novas formas de controlo biológico de doenças e pragas, em vez de simplesmente recorrerem a soluções químicas, e estão a pensar em formas de ajudar as vinhas a tornarem-se mais resistentes. Alguns apercebem-se que um agroecossistema saudável, com diversidade abaixo e acima do solo, é muito mais resistente do que a vinha ‘convencional’ agricultada quimicamente. Ainda não se sabe até que ponto essa revolução vitícola se espalhará. Mas tem sido ótimo observar essas mudanças.

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