Touriga Nacional e Alvarinho em Bordéus

Ainda circulam, pelos meandros dos teóricos da conspiração, rumores acerca dos corpos de alienígenas armazenados na 'Área 51', a base altamente secreta da Força Aérea dos EUA no deserto de Nevada. No ano passado, mais perto de casa (literal e metaforicamente falando), outros 'aliens' eclodiram da Parcelle 52. Esta foi a história que abalou o meu mundo do vinho em 2019 e veio do local mais inesperado - Bordéus.


Vejamos o que é esta Parcelle 52. Na sequência da onda de calor registada em 2003, o Conseil Interprofissional de Vin de Bordeaux (CIVB) financiou a sua primeira pesquisa em climatologia. Na última década, gastou quase dois milhões de euros em pesquisas sobre a melhor forma de adaptar as práticas vitícolas para gerir as mudanças climáticas. Foram introduzidos novos clones e porta-enxertos e, em 2009, a CIVB foi ainda mais longe, cofinanciando a plantação da Parcelle 52. Esta parcela experimental em Pessac-Léognan permitiu aos investigadores monitorizar a forma como 52 castas enfrentam as mudanças climáticas em Bordéus. Dez variedades do Parcelle 52 são autorizadas pelas regras da AOC Bordeaux. O saldo compreende outras castas francesas e 17 ‘aliens’ de diferentes países.

Convenhamos que é preciso coragem para alterar uma receita clássica - como esta de Bordéus - que estipula um lote dominado por Cabernet Sauvignon e Merlot. Bordéus é uma marca de renome, embora tenha sofrido mudanças significativas nos últimos cinquenta anos. Em 1970, os vinhos brancos representavam 49% da produção, contra apenas 10% hoje. Além disso, Petit Verdot, Malbec e Carménère (uvas tintas que antes lutavam para amadurecer) são as mais recentes beneficiárias das mudanças climáticas em Bordéus. 

Quanto ao futuro, permitam-me regressar às notícias que abalaram o meu mundo do vinho. Em 28 de junho de 2019, foram aprovadas sete variedades na Parcelle 52, consideradas “de interesse pela adaptação às mudanças climáticas” para os vinhos AOC Bordeaux/Bordeaux Supérieur – as tintas Arinarnoa, Castets, Marselan e Touriga Nacional e as brancas Alvarinho, Liliorila e Petit Manseng.  Poucos dias mais tarde, estas castas brancas foram também aprovadas para a AOC Entre-deux-Mers. 

Com decisão sujeita a validação final pelo Institut National de l'Origine et de la Qualité após um período experimental de 10 anos, as novas variedades podem ocupar até 5% das vinhas dessas AOC, com não mais do que 10% incluídos nos lotes finais dos vinhos – regras que visam proteger a tipicidade de Bordéus. As primeiras plantações destas castas recém-aprovadas devem ocorrer ainda este ano ou no próximo. Enquanto isso, Portugal pode orgulhar-se de duas das suas castas terem migrado para Bordéus. 

Preparar a mudança

Até agora, esta tem sido uma via de sentido único, ao longo da qual as variedades francesas tornaram-se populares em algumas regiões de Portugal, incluindo a Cabernet Sauvignon de Bordéus, Merlot e Petit Verdot, com um toque de Sauvignon Blanc e Semillon aqui e ali. O potencial de qualidade e o apelo do mercado foram os fatores que impulsionaram o plantio de uvas francesas em Portugal, não as alterações climáticas. No entanto, em Portugal, as castas Alvarinho e Touriga Nacional esticaram com sucesso o seu alcance para sul, encontrando climas tipicamente mais ensolarados e quentes, dando uma explicação das razões pelas quais estes ‘amigos flexíveis’ foram agraciados em Bordéus.

Uma vez que o aumento da temperatura média em Bordéus resulta no amadurecimento e vindima precoces (em aproximadamente 20 dias nos últimos 30 anos), espera-se que as características aromáticas da casta Alvarinho compensem “a perda de sabor geralmente causada pelo clima quente”. Além dos descritores aromáticos, o ciclo de maturação tardia da Touriga Nacional indica uma exposição reduzida às geadas da primavera e às maturações do verão, quando as temperaturas mais altas podem afetar o sabor e a qualidade do tanino e elevar os níveis de álcool. Com os ciclos de maturação tardios, espera-se que as castas Cabernet Sauvignon, Petit Verdot e Carménère resistam à tempestade, mas com a Merlot é outra história. A uva tinta mais plantada de Bordéus é uma variedade precoce, o que explica por que razão Cécile Ha, da CIVB, refere que o objetivo é reduzir a proporção geral de Merlot em Bordéus nos próximos 20 a 30 anos.

Depois de deixar o Château Cos d'Estournel em 1998, Bruno Prats firmou parceria com a família Symington, produzindo vinhos do Douro com o rótulo Prats & Symington. Fiquei curiosa para saber a sua opinião sobre a Touriga Nacional em Bordéus. “A Merlot está provavelmente no seu limite” e, embora as castas Petit Verdot, Carmenère e Malbec (outra variedade tradicional) “possam ter um futuro brilhante”, faz sentido considerar outras opções, considera. Fisiologicamente falando, Prats acredita que a Touriga Nacional tem futuro em Bordéus, porque é “obviamente adaptada a condições quentes e secas e de alta qualidade, com concentração, subtileza e grande potencial de envelhecimento”. Dito isso, acrescentou, resta ver como se comporta em solos bordaleses; Prats também especulou que a Touriga Franca talvez estivesse “mais alinhada com a tradição de Bordéus” devido ao seu baixo teor de açúcar e perfil aromático. 

Filosoficamente, Prats simpatiza com a recuperação que Loïc Pasquet operou com as variedades originais de Bordéus, como Petite Vidure, Saint-Macaire, Pardotte, Tarnay e Castets. Uma vez que estas castas obscuras não possuem estatuto AOC, o Liber Pater 2015 deste produtor - o vinho mais caro de Bordéus, a atingir 30.000 euros por garrafa - é rotulado como Vin de France e não AOC Graves ou mesmo AOC Bordeaux. Embora Castets seja uma das “novas” variedades aprovadas no Parcelle 52, Pasquet quer que Bordéus vá mais longe. E afirma: “[É] necessário recuperar o terroir, o local e as antigas variedades que nos permitam mostrar um senso de lugar, singularidade e história”.

Prats não sabe afirmar perentoriamente se as variedades antigas de Bordéus foram abandonadas por razões de qualidade ou devido às dificuldades no granjeio das vinhas, tal como a Touriga Nacional, casta que quase se extinguiu no Douro devido à baixa qualidade da uva e aos escassos rendimentos. Graças aos avanços na viticultura, a casta frutifica, sugerindo que as 'bibliotecas' de pesquisa varietal dos Symington em três quintas do Douro podem ser produtivas. Com 53 variedades plantadas, incluindo muitas castas raras indígenas do Douro e exemplares de outras regiões portuguesas e do exterior, os primeiros resultados mostram que o ‘pintor’ (que marca o início do amadurecimento) na mesma vinha pode variar até 25 dias, dependendo da variedade. Para Rob Symington, estas coleções ampelográficas oferecem uma oportunidade para salvaguardar o património vitícola do Douro, sendo ao mesmo tempo “uma parte crucial da adaptação às alterações climáticas, à medida que as condições de cultivo continuam a mudar”. Como a mudança é a única certeza na vida, mais vale estar preparado para isso.

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