Ribafreixo: A construção de um sonho

Fotografia: Fabrice Demoulin
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Célia Lourenço

Célia Lourenço

Vamos encontrar a Herdade do Moinho Branco na saída sul da vila da Vidigueira, bem visível do IP2 (que liga Évora a Beja). É aqui que se concretiza o projeto de Mário Pinheiro e Nuno Bicó, a Ribafreixo Wines.

 

O início remonta a 2007. Mário Pinheiro, com um percurso profissional de sucesso na África do Sul, enquanto gestor e CEO no campo das novas tecnologias, e Nuno Bicó, engenheiro agrónomo, alentejano de Serpa, cujo sonho era viver da terra e do vinho, com um percurso profissional que lhe tinha já dado experiência na área dos investimentos e financiamentos agrícolas. O projeto conta ainda a enologia de Paulo Laureano.

A partir de uma primeira vinha de 4 hectares, juntaram-se dezenas de outras parcelas de terra abandonadas, algumas com vinha, que foram sendo reconvertidas, recuperadas e plantadas. A propriedade tem 114 hectares, dos quais cerca de 75ha são de vinha em produção integrada.

A fixação na Vidigueira foi intencional, a tradição vitivinícola um modelo e o carácter dos vinhos o objetivo. A escolha recaiu sobre castas portuguesas. Nos brancos, Antão Vaz, Arinto, Verdelho, Roupeiro, Alvarinho e ainda Chenin Blanc. Para os tintos, Alicante Bouschet, Alfrocheiro, Tinta Miúda e Aragonez. Bem, Alicante Bouschet não é uma variedade portuguesa, mas a fixação no Alentejo aconteceu há tanto tempo e com resultados tão respeitados, que é a mais portuguesa (e alentejana) das castas francesas. Já o Chenin Blanc não tem qualquer tradição e, se o critério passava por escolher apenas encepamentos portugueses, porquê esta presença? É a exceção e tem a ver com a vontade do produtor, Mário Pinheiro. Mário passou grande parte da vida na África do Sul e quis ter um vinho que testemunhasse essa história. A Chenin Blanc é originária do Loire, onde está na base de vinhos de grande personalidade, tendo viajado até à África do Sul, onde se adaptou muito bem e se tornou emblemática. E na Vidigueira comprova, mais uma vez, a versatilidade. A vinha, com 1ha, foi iniciada em 2009. Já este ano foram plantados mais 3ha, escolhendo solos de xisto e zonas mais baixas (próximo da linha de água que passa na herdade, a ribeira do Freixo).

A adega tem cinco anos e é um objeto de arquitetura integrado na paisagem. O interior é claro e luminoso, com muita luz zenital e uma sensação de espaço que não é comum. O primeiro vinho, Antão Vaz, foi feito em 2009 e nesses primeiros anos era usada a adega de Paulo Laureano.

Ribafreixo tem um restaurante com oferta genuinamente alentejana (Paula Caetano, do antigo restaurante Vila Velha, está à frente da cozinha), cuja carta inclui também os doces conventuais das “Maltesinhas”, de Beja. O enoturismo estende-se a provas, visitas à adega e às vinhas. 

Em 2016, a produção atingiu os 350.000 litros e, no portefólio da Ribafreixo, a preferência por vinhos brancos traduz-se nuns expressivos 70%. Os principais mercados são Angola e Austrália.

Os vinhos que conhecemos na nossa visita, e que são agora lançados, revelaram uma qualidade e frescura muito consistentes, com alguns a assumir quase uma provocação, como o Pato Frio Grande Escolha Antão Vaz, cujo 2014 revelou uma capacidade de evolução extraordinária e confirmou que estamos perante vinhos que precisam de algum tempo. A diferença para a colheita agora lançada, 2015, é bastante notória, com aromas que tendem já para algum petróleo, a boca muito cremosa numa coluna vertebral de acidez e mineralidade. Neste vinho são usadas vinhas velhas (das mais antigas vinhas de Antão Vaz da Vidigueira, primeiros exemplos de castas separadas). Fermentou 50% em madeira e 50% em inox, com bâttonage de cerca seis meses. Já o Connections Chenin Blanc 2016, do qual foram produzidas 7.500 garrafas, é um vinho com alguma discrição e uma componente de ervas aromáticas suave, com um perfil sério e elegante (que o afasta dos modelos pré-concebidos de vinhos do Novo Mundo). Ficámos também a conhecer o estilo dos vinhos tintos, resultado de lotes clássicos alentejanos, a que se juntou a Touriga Nacional. O Gáudio Clássico 2014, com estágio parcial de sete meses em carvalho francês, enquanto o Gáudio Reserva 2013, apenas com Alicante Bouschet e Touriga Nacional, tem 100% de madeira nova, num estágio de 13 meses. São vinhos de carácter marcado, o primeiro com a frescura da Tinta Miúda (10%), o segundo mais denso e texturado. Ambos, grandes exemplos que a Vidigueira não é apenas terra de brancos.

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