A nossa obrigação moral

Se é leitor da nossa revista certamente é conhecedor ou pelo menos um curioso por vinhos e gastronomia. Pois bem, arriscaria dizer que consumimos mais de 90% dos vinhos à mesa, em nossa casa ou nos restaurantes que selecionamos. Mais do que nunca, esses restaurantes precisam de nós; mais do que nunca, alguns produtores de vinho precisam de nós.
 
O mais recente inquérito difundido pela AHRESP – a Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal, realizado de 30 de setembro a 4 de outubro, conclui que mais de 63% de restaurantes e bares registaram uma quebra de faturação acima de 40% em setembro face a período homólogo de 2019. No verão, de junho a setembro, o trambolhão foi superior a 50%. Perto de 9% das empresas não conseguiram pagar salários em agosto e quase 28% tiveram que recorrer a empréstimos para garantir os salários de setembro. No Algarve, 49% das empresas já tinham despedido pessoal, na Grande Lisboa, 44%. Perante estimativas de faturação, 36% dos inquiridos disseram que em outubro não conseguiriam suportar os encargos habituais (recursos humanos, energia, fornecedores…) e  32% consideravam seriamente pedir insolvência.
 
Na sequência da pandemia, a restauração vive dos períodos mais negros da história.
 
Os números até agora conhecidos relacionados com o setor do vinho são mais animadores, mas devem ser interpretados com cautela. A ViniPortugal, associação interprofissional cuja principal missão é promover externamente os vinhos portugueses, admite que o ano termine com um aumento de 2,5% nas exportações. Mercados como o Brasil estão a reagir muito bem nestes tempos de pandemia, o que parece suavizar o balanço e contas finais.
 
Em Portugal, as marcas com boa presença nos super e hipermercados têm conseguido um desempenho positivo. Os vinhos com PVP nas prateleiras até 5,00€ ou 6,00€ têm sido vendidos, acima disso nem tanto. Tal como sucede no resto do mundo, espumantes e fortificados estão genericamente a ser dos mais penalizados com quebras acentuadas de vendas.
 
Mas, perante o cenário dramático hoje vivido pela restauração, os pequenos e até alguns médios produtores que possuem o negócio quase totalmente assente nesse canal, em Portugal ou mercados externos, debatem-se com o perigo de estrangulamento.
 
Defendo, por isso, que todos nós temos uma obrigação moral – a de continuar a frequentar restaurantes e, sempre que possível, solicitar vinhos para acompanhar essas refeições. Independentemente dos constrangimentos atuais ou daqueles que o futuro próximo possa acrescentar, não podemos ceder ao medo de não sair de casa ou de marginalizarmos duas áreas que tanto prazer e sentido à vida nos dão.
 
Se não nos quisermos sentar na mesa de um restaurante, optemos por levar um take-away. Se não queremos entrar numa garrafeira, vamos realizar a encomenda de vinhos online. Não podemos esperar pela primavera para ver no que dá, simplesmente porque poderá ser tarde demais. Os restaurantes, sobretudo aqueles que nos propiciam grandes experiências ou que nos tratam como se fôssemos da família, são como as nossas casas, locais de afeto. Virar-lhes as costas quando mais precisam de nós é como bater a porta de casa sem termos coragem de nos despedir de quem gostamos.

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