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Quinta do Gradil - Nos antigos domínios do marquês

14 Fevereiro, 2013 12:55 | Samuel Alemão e Foto de Ricardo Palma Veiga

As ruínas do antigo palacete setecentista destacam-se da vinha. Vestígios de quando o Marquês de Pombal era dono da maior quinta do Cadaval. Comprada no final do século passado, transformou-se numa marca relevante. Agora também tem um restaurante.


Não há nada como falar com alguém que tem plena consciência do peso das palavras. E que sabe que as estórias fazem parte e ajudam a construir uma história. Como Luís Vieira, 40 anos, dono e administrador da Quinta do Gradil, em Vilar, no concelho do Cadaval. O seu avô, António Gomes Vieira, iniciou o comércio de vinhos na região de Fátima, em 1945, desencadeando aquilo que viria a ser uma tradição familiar. O filho continuou-lhe o negócio. E o neto também. A ligação ao mundo dos vinhos, dado o ambiente em que cresceu, é-lhe por isso natural. Pode-se dizer que lhe está entranhada desde sempre. “Quanto tinha aí uns três ou quatro anos, lembro-me de saltar frequentemente sobre a abertura de um depósito de vinho e, uma vez, tive o azar de falhar o salto e cair lá dentro. Ia-me afogando, pois estava a afundar nas borras e, se não me tirassem, lá ficava”, recorda Luís, sorriso denotando o gozo conferido pelo instinto de contar um daqueles episódios que sabe serem de apetite certo para qualquer jornalista.


Vivê-la para contá-la, diz certa máxima. É isso que esperamos ouvir de todas as pessoas ou instituições por quem temos consideração ou sobre as quais alimentamos alguma expectativa. E esta é, precisamente, uma daquelas quintas que tem que contar, apesar de a marca de vinho ali produzida apenas ter chegado ao mercado há cerca de uma década. As origens da propriedade encontram-se no século XV, quando, em 1492, Dom Martinho de Castro lhe viu outorgadas por Dom João II a jurisdição e as rendas das terras do município do Cadaval - e, por conseguinte, destes domínios agrários. Já no século XVIII, a propriedade foi adquirida pelo Marquês de Pombal, na sequência do movimento de ocupação de terras municipais, ocorrido a partir de 1760. Desses tempos, em que a produção de vinho já ali acontecia, ficou o edificado que é agora a imagem de marca da quinta. A capela nobre ornamentada e o arruinado palacete – que mantém praticamente intacta a fachada – destacam-se no mar de vinha que nos acolhe (120 hectares numa propriedade de duas centenas de hectares), mesmo junto ao sopé setentrional da Serra de Montejunto.


Restaurante dentro da quinta


Um dia, depois de recuperada, essa importante parte da quinta – que se destaca dos restantes edifícios pelo amarelo ocre das paredes – será visitável, com certeza. Por agora, as atenções maiores estão concentradas quer nas vinhas e na adega, quer no novo restaurante Chuva, aberto desde Agosto. Na verdade, o estabelecimento do chef Luís Flávio Rato (47) já existia, desde 2007, no centro da aldeia de Vilar. Ele decidiu foi aceitar o desafio que Luís Vieira entretanto lhe lançou para transferir as operações para o espaço que, até há pouco tempo, funcionava como sala de provas e lugar de tertúlias – e que era antes o lugar onde estavam as cocheiras da quinta. O restaurante, que o seu mentor diz ter como princípio orientador fazer “comida caseira, mas não como ela é entendida entre os portugueses”, apresenta todos os dias uma ementa diferente, dependendo do que ele encontra no mercado local. Luís Flávio, artista plástico que apenas começou a cozinhar a sério em 2006 e se define como autodidacta, propõe-nos pratos como lasanha de broa com bacalhau, empada de pato, estufados e gizados para os dias de Inverno e doçaria tão elementar quanto mousse ou bolo de chocolate e tarte de limão.


O restaurante está aberto, de segunda-feira a sábado, para almoços e, de quinta-feira a sábado, para jantares. A ideia é oferecer o necessário complemento gastronómico, numa casa que começa a perceber a enorme importância de franquear as portas aos enófilos, depois de ter a certeza que vai bem encaminhada no processo de consolidação do seu projecto de produção e comercialização de vinhos. O volume anual é de cerca de um milhão de litros, metade dos quais para exportação. A marca Quinta do Gradil tem dez referências de vinhos, distribuídas por quatro tintos (70% do total), quatro brancos, um rosé e um espumante. No mercado nacional, encontra-se presente, predominantemente, em hotéis e restaurantes das regiões de Lisboa e do Algarve. A exportação aponta sobretudo ao crescente mercado chinês, mas também ao Reino Unido e a Angola. A marca também engarrafa azeite, mas o que resulta da apanha dos seis hectares da cultura de pêra rocha é encaminhado para outros comerciantes.


Regenerar uma tradição


Olhando agora, retrospectivamente, foi uma evolução notável, admite Luís Vieira. A referência é Maio de 1999, quando a quinta foi adquirida por ele - então um economista de 27 anos desejoso de lançar um projecto próprio de produção - à família Izidoro de Oliveira, responsável pelo surgimento da famosa marca de salsichas. Era ela quem detinha esta propriedade, desde a passada década de 50, quando a comprou aos descendentes do Marquês de Pombal. A quinta produzia vinho a granel, como muitas outras. Desse período, ficaram os grandes depósitos de cimento da antiga adega e que, entretanto, foram renovados para obedecerem às exigências dos padrões de qualidade actuais. Quem já lá laborava era António Ventura, enólogo sobejamente conhecido pelo seu trabalho nas regiões do Tejo, de Lisboa e do Alentejo. Manteve-se e continua a ser o responsável pelas principais decisões enológicas, coadjuvado agora pela técnica residente Vera Moreira, 35, que ali chegou há dois anos.


António Ventura ficou, mas tudo o resto mudou. A começar pelas vinhas. As mais antigas foram plantadas há aproximadamente uma década. Entre os encepamentos tintos, que ocupam a maior área, contam-se Aragonês, Alicante Bouschet, Touriga Nacional, Syrah, Cabernet Sauvignon, Tannat, Alfrocheiro e Castelão e nos brancos figuram Fernão Pires, Arinto, Sauvignon Blanc, Chardonnay, Viosinho, Verdelho, Viognier e Moscatel. A ideia foi, desde o princípio, abandonar a produção desqualificada do granel e alcançar um patamar de exigência mais elevado. Se, numa fase inicial, a casa apenas apresentava duas marcas, o portfólio foi aumentando com a consolidação do projecto agrícola e comercial – vertente que beneficiou de uma parceria com a Dão Sul, até 2008. Desde há cerca de dois anos, começou também a engarrafar vinhos monovarietais, para já apenas brancos. No catálogo, existem um Viognier de 2010 e um Viosinho de 2011. A caminho vem o Verdelho da última vindima. A experimentação e a mudança, afinal, fazem parte do código genético desta casa. O passado conta, antes de mais, como inspiração para ajudar a renovar uma tradição de séculos.


 


Quinta do Gradil


Sociedade Vitivinícola, SA


Estrada Nacional 115


2550-073 Vilar


Cadaval


Tel: 262 770 000


Fax: 262 777 007


Web:  www.quintadogradil.pt


www.facebook.com/quintadogradill


Email: info@quintadogradil.pt


GPS: 39°12´16.30"N / 9°6´55.06"O


 


Convém ligar para ter a certeza que vai ser recebido. A visita à adega e às vinhas termina com uma prova de três vinhos (tinto, branco e espumante) e custa 5 euros por pessoa. O restaurante também pode acolher jantares, sob marcação, de segunda a quinta-feira.


 


Classificação:


Originalidade (máx. 2): 1


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx.4): 4


Venda directa (máx. 4): 3


Arquitectura (máx. 3): 2


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 16


 


 

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