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Caves 1890 Graham’s - Diamante polido em Gaia

31 Maio, 2013 11:00 | Texto: Samuel Alemão e Fotografia: Anabela Trindade

Duas décadas após abrir portas a visitas, as caves W&J Graham’s rejuvenescem. Há agora um museu, com imenso que contar sobre a Symington, novas salas de prova, um wine-bar e um restaurante com grandes ambições. Mas a sedução das velhas barricas de vinho do Porto mantém-se intocável.


Ao chegar à bonita loja do novo centro de visitas da W&J Graham’s, as Caves 1890, em Vila Nova de Gaia, já no final do percurso desenhado para os turistas, olhando à direita, uma imagem cativa-nos de imediato. Na parede branca – tonalidade prevalecente nas salas, à excepção da expectável penumbra das caves de barricas -, despontam os nomes de cidades, na sua grande maioria europeias ou do eixo atlântico, em recorte perfurado em chapas de metal pretas. “Glasgow”, “Amsterdam”, “Liverpool”, “Hamburg” e por aí adiante, numa disposição a fazer lembrar as contemporâneas “tag clouds” usadas em sites e blogs. Eram os destinos gravados nas pipas expedidas do cais de Gaia, pela empresa fundada por William e John Graham, em 1820. A nuvem de nomenclaturas urbanas internacionais remete-nos para uma época em que o cosmopolitismo ou a simples evocação do além-fronteiras eram coisa de abastados. Viajar, entretanto, tornou-se fácil e barato e, hoje, os estrangeiros desaguam nas caves de uma das mais tradicionais empresas do Vinho do Porto.


O vinho continua a ser exportado, claro está, pois esse é o negócio da companhia. Mas, o início deste século tem trazido um acréscimo da curiosidade sobre o local onde estagia o generoso da preferência de muitos. Com ela, vieram as visitas. Tantas, que os responsáveis da família Symington, proprietária desta casa desde 1970, sentiram necessidade de reformular de forma profunda as condições de acolhimento do enoturismo, em funcionamento desde 1993. Instalado no alto de uma colina, situada a 340 metros do rio Douro, o edifício construído em 1890 para albergar o armazém de envelhecimento dos vinhos conheceu uma profunda remodelação, que lhe dá agora argumentos para estar à altura do seu nome, mas também das ambições. “Quisemos fazer uma coisa de nível internacional, elevando a fasquia, assim ao nível do que se vê em Napa Valley (Califórnia), na África do Sul ou em França. O objectivo é subir o padrão do que se faz no Norte de Portugal”, diz Paul Symington, presidente do conselho de administração da Symington Family Estates.


A importância do cenário


Paul fala do projecto com especial alegria. Nota-se que tem orgulho naquilo que idealizou, há cerca de dois anos. E tem razões para se sentir satisfeito. Basta chegar ao edifício das Caves 1890 - assim baptizadas em explícita referência ao ano da construção dos armazéns – e do novo restaurante e winebar Vinum, para com ele concordar. Antes de mais, a concorrer para a inequívoca elegância do espaço está a alvura das paredes. O branco tomou conta de tudo, conferindo até às superfícies graníticas uma leveza enorme, antes desconhecida. Se a isso somarmos o novo soalho, as clássicas traves de madeira do telhado e o mobiliário de pinho, temos o que Paul diz ser uma opção por “deixar o cenário falar”. E ele fala. De forma bem eloquente. O projecto de arquitectura de Luís Loureiro e de interiores de Nuno Gusmão (Atelier P-06) conseguiu tirar o melhor partido de um espaço cheio de história, tradições e respeitabilidade e “dar-lhe a volta”, resgatando-o para um ambiente inequivocamente contemporâneo.


E, no entanto, apesar dessa ligação ao presente, estamos a falar de um lugar onde, sob o seu telhado – sustentado por magníficas asnas de pinho de Riga, originais de 1890, e, na sala de entrada, também por pilares de metal da mesma época –, dormem 3.200 cascos de carvalho e oito balseiros de 70 mil litros cada (equivalendo a um total de duas mil pipas) dos melhores vinhos da Graham’s. Casa que é uma das grandes do Vinho do Porto, sem dúvida. Um verdadeiro ícone, com uma história extensa e cheia de coisas para recordar. Por isso, o novo museu, juntando o espólio e os nomes de duas famílias britânicas que ajudaram, com outras, as solidificar o prestígio da mais conhecida exportação portuguesa, é um concentrado de evocações e de memórias vitais. “Queríamos fazer um museu, porque não faz sentido vir só visitar o armazém e provar os vinhos. É importante contar a história das pessoas por trás disto, quem eram, o que faziam”, diz Paul Symington.


Um museu singular


Uma missão conseguida através da exposição de documentos escritos, fotografias e objectos saídos do imenso acervo das marcas Graham’s e Symington. O que está à vista, reunido numa sala situada logo no início do percurso da visita, é testemunho da profusão e riqueza do mesmo. Desde registos comerciais da empresa, a cartas de Maurice Symington (o avô de Paul), a partir das trincheiras da frente de combate na I Guerra Mundial, passando por facturas das compras de vinhos Graham’s por parte de Winston Churchill, mas também notas de agradecimento por parte da rainha Isabel II e do presidente Barack Obama, são múltiplos os motivos para os olhos se demorarem pelos expositores – a maioria da documentação encontra-se disposta numa mesa com 15 metros de extensão. Para além das evidências epistolares e demais legado em papel - como mapas, rótulos ou os postais que eram enviados diariamente da Quinta dos Malvedos com os registos das temperturas -, há artefactos muito interessantes.


Existem objectos únicos, como o relógio que a Patek Phillipe produziu, em 1887, para a Rainha Dona Maria Pia. Mas também se podem observar colecções de equipamentos de medição de precisão usados na actividade comercial ou mostruários com garrafas antigas. Num deles, acompanhamos a evolução dos seus formatos, correspondente a um arco temporal superior a dois séculos. Descendo as escadas, mas ainda na antecâmara das caves, junto aos depósitos de cimento, o prolongamento do núcleo museológico expõe artefactos relacionados com as diferentes fases da produção vinhateira, da agricultura ao trabalho na adega, passando pela tanoaria. Há ferramentas usadas na lavoura, cangas de bois e foles gigantes. Tudo coisas de outrora. E que nos lembram quão árduos seriam o trabalho e a vida das gerações de homens e mulheres que ajudaram a moldar a paisagem do Douro, a aperfeiçoar um dos mais notáveis vinhos do mundo, a solidificar o prestígio de uma marca e, no fundo, a escrever parte da história do país.


Da sala de vídeo às barricas


Os objectos antigos continuam a ser revelados mais à frente, já no final do percurso da visita dos enoturistas, junto à loja e ao restaurante – onde fazem parte da decoração, ao serem expostos suspensos por detrás de uma parede de vidro. A dada altura, damos por nós a perguntar qual a razão de apenas agora a Symington se ter lembrado de mostrar um tão valioso património, que será só uma parte do que a empresa foi acumulando, reconhece Paul Symington. Mais items serão acrescentados ao museu, garante o administrador. Também em breve, ficará disponível o filme sobre a Graham’s que está a ser realizado para mostrar na sala de projecção de vídeo. É lá, aliás, logo após a recepção, que se iniciam as visitas (5 euros, com direito à prova de três portos: um LBV, um reserva e um dez anos). Por agora, em substituição, mostra-se um outro, feito a partir de fotos e que conta de forma inteligente muito do que há a saber sobre a história, as quintas, a lavoura, a vindima, o trabalho na adega, o estágio dos vinhos e a tanoaria – ficamos a saber que a empresa é das poucas que ainda tem uma equipa especializada neste mester.


A seguir à passagem pela sala de vídeo e pelo museu, os visitantes têm o momento alto do périplo no armazém onde estão depositadas as barricas. Fica ali, naquela grande nave, o coração da Graham’s – como em qualquer empresa produtora de Vinho do Porto, afinal. Apesar de, no essencial, o espaço se manter como estava, foi também melhorado. Além da iluminação e da remodelação de parte do pavimento – que mantém o chão de terra batida na maior parte da área, permitindo um melhor controlo da temperatura em dias quentes, através da sua irrigação -, foram realizadas obras para valorizar o efeito cénico da sala. Foi lá colocada uma fonte, que verte para um tanque em granito, trazidos de uma quinta do Douro. O som e a visão da água a correr, naquele ambiente à meia-luz, sublinham a intimidade do local. Nele, é agora possível assistir a projecções de imagens, durante as visitas, e existem também mapas iluminados da região duriense.


Sala de provas, wine-bar e a comida


Percorridos os corredores entre os cascos de carvalho nacional, que exalam um característico aroma, a surpresa vem do outro lado. De volta à claridade, para lá da parede de vidro. As novas sala de provas, loja, wine-bar e restaurante vêem a sua arquitectura linear e as paredes brancas serem banhados pela luz entrada através das janelas viradas para o Douro e o Porto. Essa panorâmica pode ser plenamente desfrutada lá fora, na esplanada, uma tentação quando está bom tempo. A excepção às vistas largas está numa sala recatada, a Vintage Room, na qual os aprecidores mais exigentes têm a chance de beneficiarem de um tratamento diferenciado e provarem os melhores vinhos do Porto da Symington. A decoração é requintada, clássica, em tons escuros e dominada por prateleiras repletas de livros antigos. Ali, as provas mais personalizadas começam nos 20 euros. Na garrafeira Porto Vintage das caves, há muito por onde escolher ou apenas contemplar – por exemplo, os derradeiros exemplares dos vintages 1896 e 1904.


Toda esta nova ala é, aliás, um deleite para o mais exigente enófilo. Se na principal sala de provas se disponibilizam todas as referências da Symington (além da Graham’s, há Cockburn’s, Dow’s, Warre’s, Quinta do Vesúvio e Altano, num conjunto saído de 28 quintas durienses), já no wine-bar e restaurante Vinum oferece-se ainda mais do que isso. É ali possível degustar vinhos de outras empresas, regiões e países, tendo por critério de selecção o que os responsáveis do espaço descrevem como sendo originários de “produtores amigos da família de várias regiões vitivinícolas do mundo”. Tanto no bar, como no restaurante, cuja exploração (sacrilégio!, dirão muitos) está a cargo da empresa espanhola Sagardi – especializada em alta gastronomia -, os pratos, as entradas e as sobremesas são, naturalmente, pensados para acompanhar os vinhos, que podem ser pedidos a copo.


Se a escolha de uma firma estrangeira para dirigir o restaurante e o wine-bar é algo atípica, o mesmo se poderá dizer da entrega dos comandos da cozinha a uma mulher. No caso, uma portuguesa, a minhota Celme Teixeira, de 31 anos e percurso feito na Galiza. Além dos petiscos do bar (quentes e frios, dois euros cada), Celme oferece no restaurante uma comida de concepção simples, com ingredientes naturais e atenta ao que a época tem para dar, procurando aliar a tradição do Norte do país ao pescado chegado à lota de Matosinhos. Isto pode resultar em entradas como “torta de sardinhas e pimento verde assado”, “salada de queijo de cabra, maçã e frutos secos”, “chamuças de Moura e maçã”, mas também em “sopa de peixe, à moda dos pescadores da Póvoa de Varzim”, em pratos como o “bife tártaro de vaca velha de Trás-os-Montes”, “pescada de anzol com pencas” ou em “vieiras com papas de milho”. E ainda há as sobremesas, que todos os dias terão a acompanhar um vintage decantado. Infelizmente, o espaço destinado a este artigo não chega para explanar todos os predicados do Vinum e das Caves 1890. O que só nos pode deixar felizes.


Caves 1890 W&J Graham’s


Rua Rei Ramiro, 514


4400 Vila Nova de Gaia


Tel: 22 377 37 76


e-mail: grahams@grahamsportlodge.com


web: www.grahams-port.com


GPS 38º 42´ 47 . 19´ N/ 9º 18´ 36 . 65 O


As visitas guiadas e provas acontecem todos os dias (entre as 10h e as 18h, com última entrada às 17h30) e podem custar entre 5 euros (prova clássica com três vinhos) e 50 euros. O wine-bar funciona entre as 10h e as 24h e o restaurante entre as 12h30 e as 16h e as 19h30 e as 24h.


Classificação:


Originalidade (máx. 2): 1,5


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx.4): 4


Venda directa (máx. 4): 4


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 3


Ambiente/ Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 19,5


 

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