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Onde está o carácter?

17 Março, 2013 05:02 | Luís Lopes

Chamamos carácter regional ao conjunto de características de aroma e sabor que são comuns aos vinhos de uma dada região e, ao mesmo tempo, os distinguem dos vinhos de outras regiões. Mas será que isso existe?


Lembro-me do tempo em que a todo o momento se tropeçava na palavra “tipicidade”. A tipicidade era omnipresente, nas leis que regulamentavam o vinho, no discurso dos produtores, nas descrições de provadores e jornalistas. Os anos passaram e a palavra ganhou um sentido pouco positivo, conotada com algo retrógrado, antiquado, desactualizado, de qualidade inferior, acabando por se ver expulsa da linguagem do vinho, como se fora uma obscenidade.


E é verdade que existiram razões para esse ostracismo. Em nome da “tipicidade” foram cometidos inúmeros atropelos, foram plantadas castas sem valor enológico, foram desclassificados vinhos de qualidade, foi tolhida a inovação, a experimentação, o desenvolvimento. Muitas vezes se preferiu um mau vinho típico a um bom vinho atípico. Tudo isso vai longe, porém, e hoje os problemas são outros, e talvez de sinal contrário.


Vem tudo isto a propósito de um comentário de José Gaspar, presidente da CVR do Tejo, publicado nesta revista. Diz José Gaspar que “o carácter regional dos vinhos praticamente desapareceu, a partir do momento em que se usam as mesmas castas e as mesmas técnicas. Por isso não há identidade nem no Tejo nem em região nenhuma, salvo zonas onde um clima especial ou uma técnica mais singular possa marcar a diferença”. Compreendo-o perfeitamente e, em parte, concordo com ele. Afinal de contas, é quase unânime o lamento de que os vinhos (de Portugal ou do Mundo) estão cada vez mais iguais. Mas não acredito que o carácter regional tenha desaparecido. Apenas é mais subtil, mais difícil de encontrar.


Para explicar melhor o que quero dizer com isto, deixem-me utilizar a feliz analogia da cebola, celebrizada no romance de Günter Grass. Tal como na cebola, o carácter regional apresenta-se em camadas. A camada superficial, a que os nossos sentidos percepcionam de forma mais imediata, é normalmente dada pela casta ou conjunto de castas. Mas como chegamos ao carácter quando essas castas são plantadas em diversas regiões? Há que continuar a tirar camadas da cebola e percepcionar os efeitos que o solo, o clima, as horas de sol, a altitude, têm nas uvas e suas combinações. Existem regiões que têm o seu carácter mais à superfície; noutras, porém, é preciso escavar mais fundo para dar com ele.


Não é verdade que os vinhos do Tejo não possuam carácter regional. Mas, tal como noutras regiões, a sua percepção não é imediata, há que ir mais longe. Os tintos do Tejo provados nesta edição, produzidos com uma grande variedade de castas, têm para mim um denominador comum: aquela conjugação de fruta madura e sumarenta com uma fresca acidez que os distingue dos congéneres produzidos pelas regiões vizinhas. Esse é o seu carácter regional, debaixo de várias camadas de cebola. Mas se somos pouco pacientes e buscamos personalidade mais imediata e singular, não precisamos de sair do Tejo para a encontrar, nos vinhos brancos feitos com base numa uva mal compreendida e ainda pouco explorada no seu potencial: a Fernão Pires.


 

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