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Norte a sério - Escondidinho e Amândio

07 setembro, 2013 03:00 | Texto Luis Antunes* Fotos Ricardo Palma Veiga

Mais Norte não há, pelo menos Português. Na margem do Rio Minho encontram-se boas razões para um passeio, com a natureza exuberante a desfazer-se em ofertas, de rio, mar e terra. Namorando com a Galiza, no Alto Minho as boas tradições portugueses encantam.


Restaurante Escondidinho


Morada: Rua de Chamosinhos, 37, São Pedro da Torre, 4930-503 Valença


GPS: N 41º 59.134’ W 8º 40.449’


Telefone: 251 839 256


Fecho: Domingo à noite e Segunda-Feira, Agosto


Horário: 12h00-15h00 e 19h00-22h00


Estacionamento: próprio


Chefe de cozinha: Óscar Pereira


Escanção chefe: não tem


Reservas: não fazem


Preço médio sem vinho: 20€


BYOB: aceite sem custos


(+) Carnes com boa origem, muito bem grelhadas.


(+) Ambiente popular, preços simpáticos.


(-) Ementa algo limitada.


(-) É preciso melhorar as sobremesas e rever a carta de vinhos.


Valença, dominada pelo Rio Minho. Desce-se em direcção a Vila Nova de Cerveira para chegar a São Pedro da Torre. Vira-se para o centro e depois de um edifício (vê-se claramente que é um edifício, não apenas uma casa) vira-se à esquerda e segue-se a estrada até passar a ponte romana. A partir daí o Escondidinho mostra-se mais. Esplanada ampla, com telheiro que convida a ficar, desfrutando a brisa que acalma o tórrido calor de um Julho extremado. Lá dentro é ainda mais fresco, graças ao ar condicionado, e a imensa estante bem abastecida de vinhos mostra que estamos no lugar certo. Escuta-se o ambiente e percebe-se a presença de alguma Galiza. Peregrinações gastronómicas fronteiriças são usuais, uma versão gourmet da parábola da galinha da vizinha. Aqui vêm-se encontrar mais carnes e o calor da grelha, enquanto lá os mariscos dão-se melhor com a plancha. Pretextos nunca faltam, para se procurar um cantinho para comer. Explorando a lista, comecei por uns quitutes fritos (0,75€). Croquetes com um interior leve e ligeiramente fumado, como um chouriço com pouca cura, interessantíssimos. Pastéis de bacalhau fazendo jus ao Minho como origem do bacalhau sempre de boa qualidade e muito bem tratado. Rissóis de camarão igualmente apetitosos, com o creme interior muito apaladado, o camarão a aparecer em versão micro, muito saborosa, e a capa de fora crocante como é devido. Todos exibiam fritura irrepreensível, o que é de louvar. Ainda pedi um prato de mexilhões cozidos com molho verde (4,50€), sendo este apenas uma vinagreta suave com cebola e pimentos. Os mexilhões eram dos laranja avermelhados, super-saborosos e texturados, e o molho contribuía para lhes abrir o sabor. Provei ainda uma sopa de legumes (1,65€), que se revelou fresco e competente. Depois passei para assuntos mais sérios, os grelhados que fazem as delícias dos visitantes e que na verdade são a verdadeira razão da visita a esta casa. Há outros pratos, como o cozido à portuguesa, o anho assado no forno. E ainda há peças de caça exótica para grelhar, como crocodilo, zebra ou bisonte. Mas as primeiras pedem mais um dia de Inverno, e as segundas, bem, como dizer, ferem a minha consciência ecológica. Não me recusaria a prová-las, mas hesito muito em pedi-las. Se calhar faço mal. Ou seja, fui-me aos pratos mais comuns, e foi na frente da banalidade que encontrei a excelência. Provei o frango (7€), a presa de porco pata negra (8,80€) e a costeleta de vitela na brasa (8,25€). Frango de boa qualidade e bem grelhado, com um molho verde por cima que acompanhava muito bem todos os outros grelhados. A acompanha um arroz de tomate e pimentos um pouco seco e banal, mas as batatas fritas estavam magníficas. Cortadas em palitos médios, conseguiam mesmo assim impor um estaladiço exterior acompanhado por maciez interior que faziam de cada uma mais um vício. Gordura da fritura imperceptível, sal só um pouco a alegrar, um prazer simples mas que se torna raro. Além disso, a salada de alface era fresquíssima e crocante, o tomate é que ainda não estava no ponto, e a cenoura crua sendo saborosa apresentava-se algo heterogénea no corte, o que dava um ar desleixado à apresentação. Ficou o melhor para o fim: a origem das outras carnes falou por si: muito macias e saborosas, com mão firme na grelha a dar-lhes bom respaldo. A presa, de corte grosso, deixou que o marmoreado original da carne se desfizesse em sabor durante a confecção. A costeleta estava cortada no formato T-bone, algo raro em Portugal, com o osso em T ladeado de um lado pela vazia de outro pelo lombo. Carne de sabor fantástico, com o ponto de grelha rosado e sumarento por dentro, enquanto a parte de fora exibia tostados. Infelizmente, o capítulo das sobremesas foi algo desastroso. Experimentei a mousse de chocolate (2,75€) e a baba de camelo (2,75€), mas não fiquei adepto. Ai ai... Uma das melhores razões para visitar o Escondidinho é a sua garrafeira imponente. A região dos Vinhos Verdes está naturalmente muito bem representada, mas impressiona também a colecção de vinhos do Douro e do Alentejo, com verticais de algumas grandes marcas. É pena que a lista tenha erros de agrupamento dos vinhos, que algumas datas de colheita estejam em falta, e que alguns dos vinhos não estejam de facto disponíveis. Mas muitos dos preços são sensatos, há bons copos, e nota-se carinho pelo vinho. Recomenda-se uma actualização e revisão da lista, e algum trabalho de casa para gerir o consumo atempado de algumas das referências. Fechando, um belíssimo restaurante de comida simples mas muito boa, onde o apreciador de vinho pode ir tão longe quanto queira, um endereço incontornável.


Restaurante Amândio


Morada: Rua Direita, 129, 4910-146 Caminha


GPS: N 41º 52.715’ W 8º 50.293’


Telefone: 258 921 177


Web: amandiorestaurante.vivercaminha.com


Fecho: domingo ao jantar excepto Verão


Horário: 12h30-15h00 e 20h00-23h00


Estacionamento: razoável


Chefe de cozinha: Amândio Rodrigues


Escanção chefe: Não tem


Reservas: recomendadas


Preço médio sem vinho: 30€


BYOB: aceite sem custos


(+) Ingredientes de origem irrepreensível, cozinha clássica com grande apuro.


(+) Lista de vinhos muito bem escolhidos, a explorar.


(-) Muitos itens da ementa não têm preços.


(-)  Acolho com escolhos, mas justifica-se a tenacidade.


Caminha namora com o Rio Minho, eleva-se por entre muralhas, e espraia-se por ruas antigas onde os umbrais de granito procuram em vão fornecer sombra que abrigue do sol tórrido. Numa fachada discreta, o restaurante Amândio oferece penumbra. Ainda é cedo, mas a porta aberta permite descobrir pilhas de livros, arcas de vinhos, objectos de artesanato, quadros, posters. A decoração é desgarrada, solta, anunciando histórias para quem as quiser ouvir. Chega Amândio Rodrigues, com algumas compras de última hora, acendem-se luzes, muda-se as notícias do rádio para música bem escolhida, o sorriso há-de demorar um pouco mais a acender. Parece haver um período de estudo mútuo, que só se resolverá já muito mais tarde, quando insistirmos em abrir a última garrafa de uma referência acarinhada durante anos. Amândio Rodrigues é a cara do restaurante, e também a sua alma. O seu humor impõe-se e faz o ambiente. Tenho a sensação de que a coisa não começou bem, mas não me deixo abater. Sei o que me traz. E tudo em volta me vai dando razão, até os “warnings” da ementa convidando à poesia. Temos que deixar a poeira assentar. Amândio é um homem baixo e seco, com uns 50 e tal anos e um bigode vivido. Olhando para ele, vemos um lobo do mar que aqui aportou com os seus baús de livros. Sabendo que abriu este restaurante já há 14 anos não resisti e perguntei-lhe “então e antes?” “Andei a vadiar.” Não perguntei mais nada. Juntando esta informação ao que tinha já comido, fiquei satisfeito. E o que tinha comido? Começo lento, inspeccionando a lista para deixar que Amândio escolhesse de entre a longa lista de entreténs de boca. Enquanto os fogões aqueciam, um pequeno queijo de ovelha fatiado e um chouriço da região foram ajudando a fazer tempo. Bom pão e melão no ponto perfeito de maturação seguiram-se. Uma sopa de legumes com ênfase na couve foi bem recebida. Aí começaram as coisas mais sérias. Mexilhões pequenos, apenas abertos no vapor a deixar os seus sucos oferecerem-se ao pão e ao limão. Logo a seguir, pataniscas de bacalhau, pequenas e grossas, como bolinhos de bacalhau mal formados, com fritura competente, e uma massa cujo interior se oferecia borrachudo, difícil, mas ao mesmo tempo irresistível. Uma das estrelas veio a seguir: ovos estrelados sobre broa ligeiramente frita em azeite e presunto demolhado e só muito ligeiramente salteado. Broa frita também a seguir, acompanhando uma alheira de excelsa proveniência, simplesmente corada na frigideira. Todas estas entradas foram acompanhadas por um vinho simples: Alvarinho e Trajadura, trazido pelo chefe Amândio sem grandes perguntas. Como viessem os pratos principais, pediu-se um tinto especial, a tal última garrafa da prateleira, e todas as dúvidas se foram dissolvendo. O bacalhau com broa da nossa avó (17€) é uma das recomendações do chefe, tal como aliás o arroz de robalo à Tio Maçarico (25€) que se lhe seguiu. Ambos são pratos muito sérios, que valem a viagem. O bacalhau era um lombo, demolhado na perfeição e depois assado com crosta de broa e aromáticos, incluindo uma excelente aguardente velha, e vem por cima de um olho de couve cozido num ponto carnudo e crocante, e acompanhado com batatas a murro e excelente azeite. Peixe a lascar generoso e brilhante, todos os aromas em sintonia, uma ponta de pimentão da dar um twist, perfeito. Como perfeito vinha o robalo. Tachinho na mesa, a nadar em caldo generoso, com tomate e ervas usados com mestria. Arroz infelizmente agulha, mas cozinhado na perfeição. Mesmo o excesso de caldo é bem vindo, já que guardou todas as virtudes da confecção. Não me esqueço do peixe, apenas o deixo para o fim. Robalinho pequeno, mas de origem de mares largos e impecável ponto de frescura, cozinhado num apuro que chegava a emocionar. Frescura marítima que se desfaz no garfo e colher, com carne cuja firmeza de desfiava numa maciez fresca e húmida, muito sedutora. Pareceria que o clímax tinha chegado, a conversa já fluía e os sorrisos bem-dispostos mostravam a satisfação da mesa e da cozinha. Mas trabalho é trabalho e tive que provar umas sobremesas. Pera bêbada clássica, firme e especiada. Espetada de abacaxi grelhada refrescante e com tostados gulosos. Tarte de ovo e canela como uma sericaia nortenha, muito interessante, e uma compota caseira de laranja que integrava a polpa e a casca numa provocação sensual. Amândio insistiu ainda que provasse uma rabanada, e em boa hora o fiz. Por vezes na vida percebemos porque é que certas coisas foram criadas, e desta vez percebi as rabanadas. Pão branco, denso, marinado em leite até o resultado da fritura em polme se transformar num pudim firme e lascivo. Uma pinta de compota caseira de frutos silvestre era quase dispensável, e este é mais um prato que justifica a viagem. Junte-se uma garrafeira com vinhos escolhidos a dedo, preços razoáveis, copos de excelente qualidade, ambiente que convida a ficar, talvez pegar num livro, beber mais um copo e declamar. Eis o Amândio, lobo-do-mar.

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