Voltar
O Solo da Vinha

O Solo da Vinha

11 Fevereiro, 2009 08:04 | Texto de João Afonso • Foto Ricardo Palma Veiga

É nele e dele que vivem as videiras que produzem as uvas que nos dão vinho. Das suas características físicas, químicas e biológicas depende a qualidade do vinho que bebemos. Mergulhemos no solo da nossa vinha...

O solo é a camada superficial da crosta terrestre formada por matéria mineral não consolidada e associada a organismos vivos e produtos da sua decomposição. É esta camada que serve de suporte às plantas e lhes fornece nutrição. Dela depende toda a vida à superfície da terra.
O solo, ou terra de cultivo, surge da meteorização gradual e sucessiva da “rocha – mãe” por múltiplos agentes erosivos, e só pode ser considerado como tal a partir do momento em coexistem elementos minerais e matéria orgânica resultante da decomposição dos microrganismos e organismos que nele habitam (bactérias, fungos, algas, protozoários e pequena fauna como minhocas, formigas, larvas, ácaros ratos etc.).
A formação e evolução do solo são um fenómeno de génese física, química e biológica e decorre ao longo de milhões de anos. Depende do clima (evolui mais depressa em climas quentes e húmidos e mais devagar em climas secos e frios), da permeabilidade da rocha mãe (areia é favorável à evolução, o granito dificulta e calcário bloqueia), da vegetação e respectiva capacidade de perfuração radicular e tipo de matéria orgânica produzida (resinosas com humo ácido favorecem a degradação do solo ao contrário das folhosas de humo suave), do relevo, da intervenção humana e também, claro está, do tempo.

Horizontes e Perfis
Com o decorrer da evolução, ao longo de séculos ou milénios, vão-se formando no solo várias camadas que diferem pela cor, tamanho dos constituintes e sua disposição, desde a superfície até à rocha mãe. Ao corte vertical dessas camadas (facilmente observável no corte feito pelas rodovias) chama-se “perfil do solo”.
Um solo completo, evoluído e profundo possui vários tipos distintos de horizontes. Um solo pouco evoluído e pouco profundo pode ter apenas dois horizontes. Estes são normalmente solos pobres salvo se a rocha mãe for fissurada ou porosa e conservar água passível de ser utilizada pela sistema radicular da planta.

Solos, videiras e fertilidade
Os solos distinguem-se pelas suas características físicas (cor, textura, estrutura, porosidade, permeabilidade), químicas (poder de absorção, pH, composição química) e biológicas. Estas características condicionam a sua fertilidade.
A vinha para produção de vinho de qualidade prefere solos pobres ou pouco férteis. Gerard Seguin, conhecido investigador francês refere que as características físicas do solo e em particular a capacidade que ele tem de fornecer uma relativa humidade à videira durante a fase de maturação dos seus frutos constituem os factores essenciais para a qualidade do vinho.
A videira tem necessidades nutritivas baixas (cerca de um sexto da macieira, por exemplo) donde que é compatível com solos de fertilidade baixa. Tal como outras plantas, necessita principalmente de três elementos: azoto, potássio e fósforo em quantidades baixas ou moderadas e quantidades residuais de magnésio, manganês (ou manganésio), ferro, zinco, cobre e boro... As suas necessidades em água são também diminutas e é comum referir-se que em termos de qualidade máxima um moderado stress hídrico é aconselhável na fase de maturação.
Quando o solo dá à videira a quantidade certa de água e nutrientes, a planta desenvolverá um crescimento vegetativo com folhas de tamanho médio ou pequeno e frutos bem expostos e arejados de bago pequeno com uma relação alta entre película e polpa. Caso a videira disponha de muito alimento, em particular de azoto ou potássio, num solo mal drenado ou com dotações altas de rega, irá então desenvolver um vigor vegetativo exuberante com frutos de bago gordo mal expostos e mais sujeitos ao ataque de fungos e bactérias. O vinho produzido será de fraca ou apenas aceitável qualidade.

Os factores físicos do solo
Textura e Estrutura: são estes dois conceitos muito importantes que condicionam o comportamento radicular e sua capacidade de alimentar da videira.
A textura do solo: está relacionada com os seus elementos finos: a argila, o elemento mais fino (
A textura condiciona principalmente a microporosidade e capacidade de campo do solo, ou seja, a quantidade de água retida (por cada 100 gr de terra) e utilizável pela planta (ver caixa). Quanto mais elementos finos, menor a permeabilidade e maior a retenção de água do solo.
A estrutura do solo relaciona-se com os seus elementos grosseiros, os agregados ou torrões, formados por grãos de areia ligados entre si pelo complexo argilo-húmico. Entre eles circulam a água e o ar. A estrutura do solo condiciona a macroporosidade, a permeabilidade e drenagem assim como o melhor arejamento (e as raízes respiram assim como a maioria dos organismos vivos úteis no solo) e aquecimento.
O aquecimento é importante para o recomeço do ciclo vegetativo, crescimento das raízes e proliferação dos organismos úteis. Depende da orientação e orografia do terreno, do grau de humidade do solo e da sua cor. Solos de cor escura absorvem e convertem quase toda a luz que recebem em calor – factor importante em latitudes ou climas marginais para a cultura da vinha permitindo melhores maturações. Mas um solo arenoso muito claro reflecte grande parte da luz que recebe e em climas quentes as uvas estão sujeitas ao perigoso escaldão. A evolução da temperatura do solo ao longo do ciclo vegetativo, condicionada pela sua textura e estrutura, é muito importante: num solo arenoso a maturação de uma mesma casta é prematura face à de um solo argiloso.

Com calhaus, ainda melhor
A presença de pedras e calhaus na vinha, seja à superfície seja em profundidade, é um factor importante na estrutura do solo. Espalhadas pelo perfil de solo facilitam a drenagem do mesmo e, apesar de diminuírem a capacidade de campo, facilitam o crescimento da raiz, além de permitirem um melhor arejamento e aquecimento do solo. À superfície do solo impedem parte da evaporação, retendo alguma humidade num solo capaz de um fornecimento mais consistente de água à planta. Evitam ainda a erosão, absorvem calor e conseguem transmiti-lo em profundidade, o que é particularmente vantajoso em climas frios.
Constata-se uma forte relação entre solos pedregoso e a qualidade do vinho. Alguns dos vinhos mais famosos do Mundo vêm de vinhas plantadas no calhau – Bordéus, Porto, Rhône, Mosel, etc..

A composição química do solo
A influência da composição química do solo na qualidade do vinho está ainda por descobrir ainda que, segundo Brian Forde, da Universidade de Lancaster na Grã-Bretanha, inúmeros estudos sugiram que a pobreza de um ou outro elemento nutritivo pode condicionar a qualidade ou carácter final do vinho dando-lhe assim uma espécie de marca de “terroir”. Muito trabalho de investigação decorre em biologia molecular da videira e na definição de genes que condicionam o aroma do vinho para melhor se compreenderem as implicações químicas do solo.
O grau de acidez ou alcalinidade do solo, ou seja, o seu pH, influencia a cultura. O solo é ácido com pH menor que 6 e básico acima de 8. Valores extremos (pH 8,5) podem trazer dificuldades à videira ou mesmo impedir a sua cultura. Com pH abaixo de 5,5 o sistema radicular da videira tem dificuldade de crescimento. Solos muito ácidos dificultam a absorção de azoto, fósforo, potássio e magnésio e em solos muito básicos a plantas têm carência de zinco, ferro, manganês e boro. Nos casos extremos, os solos devem ser corrigidos antes de receberem a cultura da vinha.

Conclusão
Para lá das características físicas e químicas do solo temos a intervenção humana que tem evoluído exponencialmente nas últimas décadas. Onde dantes parecia impossível criar vinha ou vinhos de grande qualidade hoje reclama-se “terroir” (conceito de âmbito alargado a discutir num próximo Segredos do Vinho). As técnicas de rega, o melhoramento dos porta-enxertos e a selecção clonal das videiras, assim como um sem número crescente de técnicas enológicas, torna a questão solo bastante mais secundária que outrora. Seja como for, e sem querermos ou podermos generalizar, eis algumas características para um solo adequado à produção de uvas para o fabrico do vinho de qualidade.
• Solo moderadamente profundo ou profundo ou sobre um extracto de rocha -mãe “podre” que permita o avanço das raízes e o seu abastecimento moderado em água.
• De textura fina de preferência com calhaus numerosos tanto no perfil como à superfície.
• Com drenagem natural e fácil.
• Com suficiente matéria orgânica que satisfaça as necessidades básicas da planta e promova uma intensa e saudável fauna subterrânea.
• Em regra um solo pouco fértil que forneça apenas os minerais suficientes para um crescimento saudável e pouco vigoroso da videira.


A Água no Solo



A água encontra-se no solo em quatro formas distintas. São conceitos que se intercalam pois a água tem um comportamento dinâmico e passa continuamente de um estado ao outro.

Água de constituição. Faz parte da estrutura física dos minerais e não está disponível para a planta.

Água higroscópica. Absorvida através de ligações fortes. Forma uma película à superfície dos minerais ou dos seus agregados e não está disponível.

Água capilar. Sujeita a fenómenos capilares ocupa os espaços livres mais finos (microporosidade). É a principal fonte de água disponível para a planta.

Água gravitacional. Água que não é retida pelo solo. Encontra-se temporariamente nos espaços lacunares (macroporosidade) e pode ser pontualmente utilizada pela planta.
Escrever novo comentário
0 Comentário(s)
pubFlash Gourtmet
pubRevista de Vinhos
Pesquisar segredos do vinho
Explore
© 2016 Revista de Vinhos
Todos os direitos reservados. Política de Privacidade
Media Capital Edições e Prisa Revistas

Ao navegar neste site, está a concordar com o uso de cookies. Mais informaçõesAceitar

Os cookies são importantes para o correto funcionamento de um site. Para melhorar a sua experiência, o site Revista de Vinhos utiliza cookies para lembrar detalhes de início de sessão, recolher estatísticas para optimizar a funcionalidade do site e apresentar conteúdo de acordo com os seus interesses. Caso clique em Aceitar ou se continuar a utilizar este site sem alterar as suas configurações de cookies, está a consentir com a utilização dos mesmos durante a sua navegação no nosso site.

Fechar