Quinta da Serradinha: Biológico desde o dia zero

Fotografia: Daniel Luciano
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Luís Alves

Luís Alves

A Quinta da Serradinha, em Leiria, é um bom exemplo de viticultura biológica. Não se trata de uma conversão da agricultura convencional, antes uma opção de fundo e de princípio. Está atualmente sob a batuta de António Marques da Cruz, que diz viver “a utopia do vinho”.

 

 

Quem entra na Quinta da Serradinha não espera encontrar o polimento de uma propriedade vitícola tradicional: o enrelvamento cortado nas entrelinhas dos bardos, um alinhamento perfeito de tudo, qual jardim de uma urbe europeia. Por ali, a uns brevíssimos cinco ou seis quilómetros do centro da cidade de Leiria, a erva cresce numa consociação propositada com os vinhedos e cria-se todo um ecossistema que a agricultura biológica estuda e defende. Na adega, entre vinhas, mantém-se a mesma constância de sentido. Mais uma vez: não se espere encontrar uma adega de arquiteto, com uma organização e um alinhamento de elementos apuradíssimos. Num espaço e no outro, ou seja, no campo e entre portas, respira-se a filosofia da família Marques da Cruz, pioneira na agricultura biológica, e agora na quinta geração, com as responsabilidades a pousarem nos ombros de António. Recebe-nos num dia ainda de primavera que parece mais de inverno profundo. “It’s raining cats and dogs”, diriam os britânicos; “chovem cães e gatos”, traduzimos nós. Um pequeno passeio nas vinhas e logo uma retirada em passo de quase corrida para a adega. A chuva não permite mais. Logo à entrada, uma surpresa: um pequeno tonel que parecia ter sofrido pressões laterais e ganho uma forma estranha. “Uma ancoreta”, informa António. “Está na minha família desde 1915. Tem um formato oval porque era necessário transportar vinho das adegas para as tabernas. E para entrar nas portas, a largura não podia ser grande”, explica para acrescentar uma outra vantagem, menos evidente: “Da minha experiência, este formato permite também que as correntes convexas, durante a fermentação, sejam mais perfeitas e o produto final fique pronto mais rapidamente”. Com vinho desde 1915 – a única boa forma de manter barricas de madeira bem conservadas e utilizáveis -, António tem usado as ancoretas para fazer um monovarietal de Castelão. Confessa uma admiração especial por esta casta, pelo bom comportamento no campo e também na adega. Do primeiro porque resiste a problemas fitossanitários, seja o míldio ou o oídio. Tem alguma sensibilidade ao calor extremo e isso foi particularmente notado no tórrido agosto do ano passado. Na adega, e já enquanto vinho, tem uma acidez muito presente e uns taninos redondos. Resultado? Um vinho que pode ser bebido ao fim de dez meses ou dez anos. “Um vinho franco”, resume Marques da Cruz.


Vinhos como os que o avô fazia


O portefólio da Serradinha não é extenso. Por ano produzem quatro vinhos tintos, um rosé e dois brancos. A prevalência está nos tintos, sobretudo no já falado Castelão e também no Baga, este último com um estágio bem mais prolongado que pode chegar aos sete anos até estar pronto a ser engarrafado e seguir para o mercado.
Já nos brancos produzem dois lotes. Um com Arinto e Fernão Pires, castas tradicionais da região; e um outro com Encruzado e Arinto. O rosé varia de ano para ano. Por vezes é produzido apenas com Touriga Nacional, outras vezes acompanhado pelo Castelão e outras colheitas ainda apenas com esta última casta.
Uma marca distintiva da Quinta da Serradinha é a pequena joaninha colada em cada rolha, de cada garrafa. Um statement de produtor, como quem avisa ao que o consumidor vem. E por falar em consumidor, para que latitudes seguem os vinhos da quinta? “Exportamos cerca de 85% do que produzimos. Os nossos grandes mercados são os EUA, o Canadá, o Japão e a Suécia”. Os restantes 15% são vendidos em Portugal e por vezes na própria quinta, pelo interesse que o modo de produção em biológico suscita. “Temos pessoas que vêm cá e compram apenas uma garrafa, outras umas caixas. Temos sentido um interesse em crescendo. Perguntam-nos o que é isso de produzir em biológico ou como se fazem vinhos que não são corrigidos na adega”, conta António, orgulhoso, sobretudo quando ouve no final o comentário que tanto deseja: “São vinhos como os que o meu avô fazia”.


“Não sei produzir de outra forma”


A tradição vitivinícola da família Marques da Cruz está agora na quinta geração. Uma tradição já longa, de muitos anos e muitas pessoas. Começaram numa pequena aldeia perto do centro de Leiria. Depois, em 1952, o avô de António plantou as primeiras vinhas na Serradinha e em 1974 o pai assumiu os comandos. A agricultura biológica chega pouco depois. “Em 1978 o meu pai foi a uma feira em Montpellier e teve um primeiro contacto com o biológico. Desde aí, começamos a produzir nesse modo e, em 1994, quando começou a existir regulamentação em Portugal, certificamo-nos até aos dias de hoje”, recorda o produtor.


A pergunta clássica aos viticultores que produzem em biológico repete-se: é difícil produzir neste modo? “Não sei responder a essa pergunta. Nunca produzi de outra forma. E vejo com ainda mais dificuldade a pergunta porque a minha área de formação de base é economia. Não é agronomia. O que sei foi o meu pai que me ensinou e é desta forma que sabemos trabalhar”, responde Marques da Cruz. Já quando questionado sobre as vantagens deste modo, a resposta chega-nos com outra facilidade. António arranca a resposta com o facto de não ter de lidar com produtos químicos na vinha e acrescenta que sente estar a trabalhar com a natureza e não contra ela. “Este modo de produção trabalha fortemente o solo. Em biológico temos um solo vivo, com todos os nutrientes essenciais. Os macronutrientes (azoto, fósforo e potássio) e os micronutrientes. Estes últimos são especialmente importantes e temos nos nossos solos em abundância. Permitem às videiras enfrentar as doenças e as adversidades com uma muito maior resistência”, defende António que acredita ter “uvas mais complexas e, por consequência, vinhos melhores”. O produtor remata a conversa sobre o biológico numa mescla entre o passado e o futuro: “A agricultura biológica é a que os nossos bisavós e avós faziam com duas grandes e muito relevantes diferenças: o conhecimento que hoje temos sobre as doenças que afetam a vinha é muito maior e está muito mais acessível; e a meteorologia a três dias é muito precisa. Com estes dois fatores fazemos o que os nossos avós faziam mas com uma vida muito mais facilitada”, conclui.

 

Quinta da Serradinha
Rua Imaculada Conceição, Leiria
244 831 683/ 919 338 097
www.quintadaserradinha.com 

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