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Casa de Alpajares: pairando sobre o reino dos grifos

24 fevereiro, 2016 03:22 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

Passear pelas margens do Douro, entre visões e cheiros da Natureza intocada, pode bem ser, para muitos, a descrição de um dia ideal. Mas há ainda melhor: passear pelas margens do Douro e, ao fim do dia, desfrutar de uma bela massagem, uma retemperadora sauna ou um relaxante jacuzzi com vista panorâmica. Soa bem, não é? Então acrescente-se um belo copo de vinho, a mesa posta para jantar e um quarto confortável. Na Casa de Alpajares, em Freixo de Espada à Cinta, está tudo a postos para o descanso dos guerreiros.


Estamos já nos primeiros quilómetros da viagem de regresso quando se torna ainda mais evidente a localização privilegiada da Casa de Alpajares. Para quem chegou a Freixo de Espada à Cinta vindo de Sul, através da intrincada, mas espantosamente panorâmica, estrada que vem de Barca D’Alva, o acesso (bem sinalizado) a este alojamento enoturístico faz-se por ruas estreitas que saem do centro da secular vila transmontana. Uma vez lá, o casario circunda-nos a uma cota mais baixa e o olhar teima em virar-se para Leste, onde o rio Douro corta as serranias e marca a fronteira com Espanha. Mas só agora, já na estrada que sobe para Norte, conseguimos ângulo para abarcar a paisagem na sua desmesurada grandiosidade. E está lá tudo: o anfiteatro das casas, a colina isolada de Alpajares, o rio e o mar de serranias ao fundo.


Por estas paragens, a regulação do olhar exige competências fotográficas. Tanto somos atraídos pelos pequenos detalhes como somos forçados a abrir o campo para cenários impressionantes. A silhueta bruta do Penedo Durão, uma fortaleza natural a mais de 700 metros de altitude, onde se encontra um fantástico miradouro e de cujas fragas os grifos se lançam em imponentes voos. O brilho hipnótico das águas do Douro, num plano regulado pela parede da barragem de Saucelle, alguns quilómetros a jusante. A silhueta heterogénea do casario de Freixo de Espada à Cinta, dominada pela singular torre heptagonal do castelo, e o presépio de luzes que se desenha à noite.


Sim, há grandes panorâmicas. Mas, e então, as flores de amendoeira quando é época delas? E os frutos pendurados nas árvores, as azeitonas grandes como ginjas, as flores que resistem ao vento frio do Inverno? E a textura das pedras, as silhuetas da passarada, os pormenores da casca das árvores. Há tanto por onde passear o olhar e as pernas que até parece estranho entrar pelas portas e passar para baixo de telha. Mas também vale muito a pena.


Principalmente se a porta que se abre é a da Casa de Alpajares, que se apresenta com Casa de Campo, Enoteca e Spa. Ou seja, local de refeições e pernoita, sede de boas e enriquecedoras provas de vinhos e oásis de mordomias numa terra implacável. Aberta há cerca de três anos, paira autenticamente sobre a paisagem duriense, um sem-fim de ondulações montanhosas e campos agrícolas, pastos, pomares e vinhas, as torres cilíndricas dos velhos pombais, agora recuperados mas sem função.


Pés ao caminho


Os mais activos depressa encontram motivos para sair. A pé ou de bicicleta (a casa empresta), há trilhos e ruelas para percorrer; no rio, passeios de barco e uma praia fluvial da Congida, ali mesmo ao lado; miradouros espectaculares onde os apaixonados pela observação de aves podem acompanhar o voo imponente dos grifos, abutres-do-egipto ou as mais variadas rapaces. Aqui é possível marcar caminhadas com guia no Douro Internacional (incluindo a épica ligação entre Barca D’Alva e La Fregeneda pela desactivada linha férrea, uma aventura por terras bravias e paisagens esmagadoras que inclui 20 túneis e 13 pontes – certamente um dos treks mais radicais de Portugal…).


Outras saídas enquadradas no menu são as visitas às adegas do concelho ou passeios à cidade espanhola de Salamanca (a pouco mais de 100km), com refeição incluída. Todos estes programas são personalizáveis, consoante as preferências dos clientes, exactamente o que faz a diferença em relação ao turismo de massas. E, naturalmente, os preços variam conforme as opções.


Para quem aprecie um “banho” de património histórico, um passeio pelas ruas de Freixo de Espada à Cinta oferece bastos motivos de interesse. Terra cujas origens precedem largamente a nacionalidade, esta vila transmontana, tão longe do mar quanto se pode estar em Portugal continental, exibe uma surpreendente profusão de detalhes manuelinos – um estilo que exalta os Descobrimentos. Diz-se mesmo que é a vila mais manuelina de Portugal e aos pequenos detalhes em portas e janelas tem de se juntar, como exemplo máximo, a Igreja Matriz, cujo interior replica a igreja dos Jerónimos, em Lisboa, e onde se encontra um retábulo quinhentista com 16 telas atribuídas a Grão Vasco.


A história do castelo é bem menos virtuosa. Classificado como monumento nacional, é hoje uma pálida imagem do reduto fortificado que ali se ergueu durante séculos e foi sujeito a sucessivas transformações. A função militar foi perdida no século XIX e o espaço foi utilizado como cemitério municipal a partir de 1836, opção que implicou a demolição de alguns troços da muralha. Também a antiga torre de menagem se perdeu, restando agora, praticamente isolada, a Torre do Galo, ou do Relógio, uma inusitada construção de planta heptagonal irregular com torre sineira no topo.


Fora do perímetro urbano, outros pólos de interesse são a gravura rupestre do Cavalo de Mazouco, o primeiro sítio de arte rupestre paleolítica a ser descoberto em Portugal (e Foz Côa ali tão perto…); a Calçada de Alpajares, via medieval muito bem conservada e que deverá datar dos tempos da ocupação romana; e ainda os vestígios castrejos que se podem encontrar em diversos pontos do concelho.


Conforto e requinte


Mas também se pode fazer exercício no interior, numa das máquinas instaladas no andar inferior da casa, onde outras opções, mais relaxantes, ganham protagonismo. Sala de massagens (recomendada marcação prévia), sauna, banho turco e um enorme jacuzzi com vista panorâmica compõem o spa. Lá fora, uma piscina exterior aguarda pelos calores de outras estações (ou por algum aventureiro a quem o frio transmontano não meta medo).


A Casa de Alpajares tem seis quartos, quatro duplos no edifício principal e outros dois, em mezzanine, com quatro camas, numa construção lateral, onde ficam também a enoteca e a loja de vinhos. O contraste entre o ambiente campestre e o visual moderno dos interiores reforça a ideia de que, aqui, temos o melhor de dois mundos. E com alguns detalhes de verdadeiro luxo. É o que acontece, por exemplo, com as casas de banho: em cada um dos quartos duplos há uma opção diferente: cabina de duche com assento, banheira redonda de enormes dimensões, banheira tradicional, duche duplo.


Outro pormenor revelador do espírito que aqui se aplica é o facto de todos os quartos do edifício principal terem uma porta interior para além da que dá para os espaços comuns – garantindo que nenhum ruído chega ao interior da habitação. Ao contrário dos hotéis massificados, onde ninguém quer hóspedes a dormir até tarde, na Casa de Alpajares cada um faz o seu horário (e, verdade seja dita, também não há ruídos para filtrar, tirando as ocasionais tiradas vindas da cave, onde o papagaio Nicolau saúda os visitantes).


Mas, por mais confortáveis que sejam os quartos, onde se está mesmo bem é à mesa. Porque se come e bebe muito bem e porque a paisagem se estende aos nossos pés num ângulo de mais de 180 graus para lá das paredes de vidro da sala de refeições. Marco Moreira da Silva, o proprietário e gestor da Casa de Alpajares, é também produtor de vinhos e tem no enoturismo o canal praticamente exclusivo de escoamento da sua pequena produção (entre 3000 e 4000 garrafas). Ou seja, para além de muito bom, o que aqui bebemos não se encontra em mais lado nenhum…


Da cozinha saem pratos de clara inspiração rural, que procuram sintetizar o que de melhor se faz em ambos os lados da fronteira. Espanha é já ali e, para os espanhóis, Portugal fica a um passo (eles representam 40 por cento da clientela, uma percentagem semelhante à de portugueses). Mas há sempre um factor de novidade para apimentar a refeição. Alie-se a esta filosofia de compromisso ibérico um toque de sofisticação e a preocupação de utilizar os produtos da época e o que temos é uma mesa irresistível.


Um mar de silêncio


Cai a noite, o jantar já cedeu terreno ao digestivo e torna-se impossível resistir ao apelo de sair para o pátio exterior, de onde a vista se pode espraiar pelos terrenos contíguos à casa (onde será, em breve, plantada uma vinha pedagógica, com todas as castas tradicionais da região), os campos agrícolas e o pomar de amendoeiras que em breve vão florir e criar a ilusão de neve, depois as encostas vertiginosas que levam ao rio. Mas agora, à noite, tudo isto se adivinha apenas sob um céu onde as estrelas dançam com as nuvens.


Não estivéssemos em véspera de lua nova e outro galo cantaria… Diz quem conhece que o luar aqui cria atmosferas mágicas, inundando a noite de luz, ao ponto de criar sombras. Esta noite, luzes, só as de Freixo de Espada à Cinta, do outro lado da casa, e a auréola quase irreal de pontinhos luminosos no cocuruto de um morro do outro lado do rio, sinalizando o casario de Saucelle, Espanha.


O silêncio é quase absoluto, cortado aqui e ali pelo ladrar de algum cão e pelo gentil rogaçar da brisa no pomar biológico junto à casa (onde os hóspedes têm luz verde para colher a fruta da época). Lá ao fundo, denunciado pelo difuso reflexo prateado das suas águas, o Douro vigia a paisagem. Está frio, mas, será do vinho, será de estas não serem ainda paragens da terra fria transmontana, não se sente desconforto. Ainda assim, sabe bem voltar para dentro. A lareira está acesa e a conversa continua noite fora. O tempo aqui sabe esperar.


 


CASA DE ALPAJARES 


Morada: Lugar do Cabeço da Forca, 5180-112 FREIXO DE ESPADA À CINTA


Tel: 962 727 101 / 965 063 232


E-mail: info@casadealpajares.com


Web: www.casadealpajares.com


Os preços dos quartos oscilam entre os 85/90 euros (duplo) e os 160/170 euros (quádruplo em mezzanine). Todos têm TV, ar condicionado e wi-fi livre. São servidas refeições mediante marcação e os menus podem ir dos 20 aos 35 euros por pessoa. Há um leque variado de provas comentadas (Porto, vinhos do concelho, vinhos do Douro, vinhos das vizinhas regiões espanholas) cujos preços variam conforme o número de participantes e o tipo de vinhos provados. Uma opção acessível é a Conversa Com o Vinho, uma sessão mais informal que envolve a prova de três vinhos e custa 20 euros por pessoa. A frequência do spa é gratuita para quem reservar mais do que uma noite (custa 5 euros por pessoa para quem fique só de um dia para o outro) e o menu de massagens inclui opções que vão dos 50 aos 150 euros.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3


Arquitectura (máx. 3): 3


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 17,5


 


(Texto publicado na Revista de Vinhos nº 303, Fevereiro de 2015)

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