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Portalegre, o Alentejo do Norte

12 outubro, 2016 11:10 | João Afonso (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

O Nordeste do Alentejo pertence ao distrito de Portalegre e possui uma diversidade geográfica que o torna um caso muito especial de produção vitícola, originando vinhos com características muito próprias, bem diferentes do resto da região.


Na minha viagem pelos vinhos do distrito de Portalegre, comecei abaixo da cota de 100 metros, do lado de lá do paredão da Albufeira de Montargil, no Monte da Raposinha. Terras aluvionares, profundas, frescas, inseridas na área sedimentar da bacia cenozóica do Tejo e do Sado. Aqui o Alentejo respira mais fresco. Os campos de arroz de Coruche, muito próximos, anunciam a influência atlântica que aqui chega sem barreiras e em dose bem mais generosa que para Leste de Ponte de Sôr. O Alentejo do Monte da Raposinha é mimoso, suave e os vinhos ali produzidos são o retrato deste lado mais temperado da província.


Tudo nasce da partilha de uma herdade e do gosto pelo vinho de Nuno Ataíde, juiz de profissão, e que aqui começou por plantar dois hectares de vinha para ver o que é que dava. Hoje vai já nos 15. São 100.000 garrafas repartidas pelo Monte da Raposinha, Athayde e Lágrima Furtiva e a gestão é feita pelo filho João Nuno, que me explicou como ali tem de controlar produções para conseguir uvas de alta qualidade. Não é fácil, mas a frescura e elegância dos vinhos e a satisfação de um sonho alcançado pagam o esforço. E ainda dão troco.


A planície do Nordeste


Deixei Montargil e os solos mais recentes para rumar às terras mais antigas do território. Cotas de 200 a 400 metros. Por terras de Alter, Fronteira e Seda.


O clima atlântico ficou lá para trás. As azinheiras são as primeiras a falar da secura mais marcada da região. Estamos no Maciço Antigo, com solos extremamente variados e oriundos de rochas com centenas de milhões de anos. As herdades visitadas espraiam-se pela peneplanície (terrenos ondulados mas quase planos, devido à erosão) do Alentejo. Granitos, xistos, quartzitos, calcários, gneisses, etc. etc. originaram uma miscelânea de solos que confundem o mais erudito dos geólogos.


“É uma manta de retalhos” dizia-me Flávio Guiomar “capataz” de Vale Barqueiros. Solos com pH muitos distintos, texturas e fertilidades quase opostas e todo um modo específico de fazer agricultura.


Por exemplo, o pH básico de algumas parcelas não deixou plantar vinha e a opção foi cultivar olival e pinheiro manso. De olival são 350 hectares. É a cultura principal da herdade de 760 hectares na posse da Focor (fornece corantes a outras indústrias), empresa de Vasco Faria, conhecido homem de negócios do Norte que agarrou a agricultura na década de 1980, quando Mário Soares lhe pediu para investir na terra alentejana que estava a ser adquirida em grandes áreas por espanhóis e holandeses. Comprou três herdades. Vale Barqueiros é a do vinho. Um pouco mais de 100 hectares, quase todos a fornecer uvas para terceiros, apenas 10% para vinificação própria. A maioria do vinho sai em bag-in-box e as garrafas andam pelas 15.000, divididas entre dois brancos e quatro tintos. O vinho é apenas uma das actividades desta fantástica herdade, onde se pratica uma agricultura sensata e pragmática. Os vinhos são idênticos: sensatos e pragmáticos.


Por sua vez, Terras de Alter é um caso curioso: duas famílias de Alter e Fronteira (Soc. Agr. do Monte Barrão e Soc. Agr. da Herdade das Antas) que se uniram ao enólogo Peter Bright quando decidiram dedicar-se à produção de vinho em vez continuarem a vender uva. Com 80 hectares de vinha, compram ainda 60% da uva que transformam. Um milhão de garrafas e 26 referências, apontadas principalmente aos mercados inglês e norte-americano. Pedro Castel Branco, do Monte Barrão, esclarece: “Aqui temos uma posição mista na produção de vinho, procuramos vinhos que conquistem o consumidor mas o terroir está longe de ser esquecido, basta comparar o nosso Telhas, vindo de solos graníticos, e o Outeiro, de solos argilo-calcários, e comprovar as grandes diferenças de carácter que conseguimos alcançar nas nossas vinhas.”


Castas nacionais e internacionais servem os objectivos do projecto. Os topo de gama (Telhas e Outeiro) têm castas internacionais, os Reserva usam castas nacionais. Uns e outros têm alcançado enorme sucesso nos mercado nacional e na exportação.


No sopé da serra


Cada vez mais próximo da Serra de S. Mamede, chego ao Monte da Figueira de Cima, de Julian Reynolds. Aqui já se sente um dos principais factores climáticos da serra – a predominância dos ventos de Norte que sempre refrescam o Verão e regelam o Inverno. Claro que se mantém a heterogeneidade de solo: uma parte da vinha é xisto degradado com muita argila e mais fértil e a outra parte de origem granítica mais pobre e arenosa. Na mais fértil há que controlar produção do Alicante e do Aragonez. A melhor Trincadeira vem do granito, mais pobre.


A produção total anda pelas 220.000 garrafas de vinhos muito diferenciados e com um bom potencial de envelhecimento – o tinto topo de gama Gloria chega a ter um estágio em garrafa de 8 anos antes de sair para o mercado. Não é para todos!


O monte de Julian já faz parte do Sul da Serra de S. Mamede, mas é à medida que nos aproximamos do seu cume que tudo se modifica.


A serra ergueu-se há 300 milhões de anos num lapso relativamente curto de tempo. Quando o supercontinente Pangea se formou, enormes forças tectónicas empurraram para cima, e de todas as maneiras possíveis, as rochas em profundidade: granitos, xistos, quartzitos, calcários, arenitos… Um caos que atirou os cumes dos três lombos da serra e as restantes serras dos Montes de Toledo, maciço a que pertence, para alguns milhares de metros de altura. Eram uma espécie de Himalaias ibéricos. Depois seguiram-se 300 milhões de anos de intensa erosão.


O terroir S. Mamede


Pela sua longitude, S. Mamede é totalmente diferente das congéneres. Aqui a azinheira dá lugar ao carvalho negral, anunciando que estamos de volta ao clima atlântico, bastante mais marcado do que em Montargil, mercê da forte contribuição da altitude. Em termos de solo estamos na mesma; grande heterogeneidade e origens muito distintas. Aqui se encontram dos solos mais antigos e mais recentes de Portugal. A sua orientação NO/SE promove, como já referi, os ventos predominantes de Norte, com dias quentes e noites frias. O clima ideal para amadurecer uvas.


No fim da campanha cerealífera do Estado Novo, quando no Alentejo não existiam praticamente videiras, a serra tinha 260 hectares de vinha, e no final da década de 1970 um pouco mais de 400 hectares. Vinho feito em dezenas de pequenas adegas de talhas, muitas delas instaladas no meio das pequenas vinhas e cujo vinho era transportado em carro de machos até à cidade que o consumia. Destes tempos muito pouco resta. A inovação começou com a Tapada do Chaves, chamada então Frangoneiro, e a inauguração da Adega Cooperativa em 1955. Surgem então os autovinificadores em betão e o engarrafamento regular de vinho.


Tapada do Chaves é hoje propriedade da Murganheira –, exímios profissionais na área dos espumantes e a minha pergunta foi mesmo essa: como é que alguém que vive de, e para, a produção de vinhos espumantes tem tempo, cabeça ou objectivos para recuperar um dos ícones alentejanos das décadas 60, 70 e 80? Herlânder Lourenço foi muito realista: “Isto esteve muito difícil pelas razões que todos conhecemos [os problemas financeiros associados à SLN, a holding detentora do BPN e anterior proprietária da herdade], eu e a Marta estamos aqui desde 2010 e o objectivo é repor a marca no lugar que merece e que já foi seu. Melhorar a qualidade, aumentar um pouco a produção e, se as coisas correrem bem, voltar a comprar uva como nos bons velhos tempos.”


São 26 hectares de vinha de sequeiro (coisa rara), em solos de origem granítica, onde a Trincadeira ocupa cerca de 60% do encepamento (mais Alicante Bouschet, Aragonez e um pouco de Touriga Nacional). E ainda 2,5 hectares de vinha velha onde há de tudo um pouco, com a Trincadeira a liderar e de onde saem os vinhos mais especiais. Agora, há que dar tempo ao tempo.


Um pouco mais acima, a Adega Cooperativa de Portalegre. A compra da Quinta da Cabaça a Jorge Avillez, seguida da crise financeira, atiraram a adega para um aperto financeiro. A chegada à região de produtores engarrafadores interessados na uva da serra, retiraram-lhe também boa parte da uva de melhor qualidade. Hoje, a adega cooperativa luta em várias frentes para procurar voltar ao estatuto que teve, quando fazia alguns dos vinhos mais prestigiados do Alentejo.


Vinhos de altitude


Lembram-se das marcas Morgado do Reguengo e D’Avillez? Eram vinhos feitos pela José Maria da Fonseca para Jorge Avillez, que tinha um pequeno império de quintas na Serra de S. Mamede. As propriedades foram entretanto vendidas e as marcas desapareceram.


João Lourenço, com as suas Altas Quintas, foi um dos compradores e passou a “dar cartas” a partir de 2004. Passados 10 anos, os seus vinhos Altas Quintas e Obsessão, são produtos de referência nesta sub-região alentejana região. Existem duas castas estrangeiras (Syrah e Cabernet Sauvignon) que ocupam 7 dos 60 hectares de vinha, mas estas aprenderam a falar alentejano porque o “sítio” aqui fala mais forte do que a casta. Cotas entre os 500 e os 600 metros de altitude, exposição SO, muita água a correr por muita bica, solos que vão do xisto ao quartzito, passando pelo granito, noites frescas, paisagem de encantar e alguns vinhos inesquecíveis. João Lourenço tem alma de lutador, não se entrega a derrotas ou contratempos. O caminho é sempre em frente e os seus vinhos são um espelho desta maneira de ser: estruturados, longevos, genuínos e generosos como o seu criador.


Noutro bastião que já pertenceu a Jorge Avillez fomos encontrar o enólogo Rui Reguinga a trasfegar vinho na adega do Sonho Lusitano, sociedade que mantém com Richard Mayson e José Luís Marmelo (responsável vitícola). Reguinga chegou à serra em 1991 enviado por João Portugal Ramos, para fazer os vinhos da Tapada do Chaves (quando esta tinha apenas 6 ou 7 hectares de vinha muito velha) e da Adega Cooperativa.


Em 2004 decidiu abraçar um projecto pessoal na serra, cujas vinhas velhas sempre admirou, não só pelo vinho mas também pela estética paisagística que entregam ao local. Terrenus é a marca, e terá a partir do fim deste ano cinco referências, duas de branco e três de tinto. Vêm de três vinhas alugadas e duas pequenas parcelas próprias. Um total de cerca de 8 hectares que produzem de 30 a 40 mil garrafas. Reguinga tem uma das vinhas mais altas do país (750 metros), situada em plena crista quartzítica da serra de Marvão. Vinhas muito velhas, não aramadas, com castas todas misturadas, é também este um dos segredos deste sucesso e do seu terroir.


“Aqui as grandes diferenças são a altitude e as vinhas velhas, não há nada igual a isto em todo o Alentejo” concluiu Reguinga. E essa é uma grande verdade.


(Reportagem publicada na edição 305 da Revista de Vinhos, Abril de 2015)

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