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Quinta do Pôpa, uma varanda sobre o Douro

09 Dezembro, 2015 03:16 | Luís Francisco (texto) e Ricardo Palma Veiga (fotos)

A Quinta do Pôpa é um condensado feliz de tradição familiar e modernidade, de respeito pela terra e saudável irreverência. Visita a um miradouro privilegiado sobre o Douro, onde as vinhas se aninham e se consegue travar o tempo.


Há tantas maneiras de ver o Douro e, afinal, todas se condensam neste momento de contemplação, copo na mão e paisagem a perder de vista. Fosse isto um western e não deixaria de se ouvir o pio agudo da águia; assim, resta o rumor do vento. E sempre a miragem líquida do rio. Estamos na Quinta do Pôpa, ali entre Peso da Régua e Pinhão, margem esquerda do Douro, um perder de vista de encostas onde as vinhas se alinham em equilíbrios improváveis.


Esta quinta é um sonho. No sentido estético e sensorial, sim, mas também literalmente. É um sonho tornado realidade, o projecto de vida de um homem que contagiou as gerações seguintes. O avô Pôpa sempre trabalhou na vinha com a ilusão de um dia vir a ser proprietário de um pedacinho de Douro. A história deste homem – Francisco Ferreira, de seu nome – é a enésima variação de um tema comum: filho ilegítimo de um homem com posses, nunca foi reconhecido pelo pai e acabou por morrer, novo, sem chegar a pisar um chão que fosse seu.


Passou o sonho ao filho (que emigrou e se casou em França), herdaram-no os netos. E, um dia, o Pôpa ganhou a sua quinta. Em 2003, a família adquiriu parte desta encosta vertiginosa que saltita de socalco em socalco até às águas determinadas do Douro. Seguiu-se uma fase de “muito bricolage”. A expressão de Vanessa Ferreira, que, com o irmão, Stephane, assumiu a gestão da propriedade, resume de forma elegante a ideia de que se trabalhou muito com poucos meios para transformar a antiga Quinta do Vidiedo (ou, melhor dizendo, a metade adquirida pela família) neste local moderno e funcional, recheado de pormenores que lhe conferem uma personalidade muito especial.


À chegada, logo no portão de entrada que se “esconde” de quem segue pela estrada na direcção do Pinhão, encontramos um sinal que nos dá as boas-vindas. E depois outros, a mesma linguagem gráfica, mas com mensagens surpreendentes e bem-humoradas. “Do Not Disturb, Brilliant grapes growing”, “24H Pipas Surveillance” (numa alusão ao cão da quinta, que entretanto já morreu), “Warning: do not feed the vineyards”, “STOP and take a picture”. E por aí fora. Curva após curva, o sorriso está garantido ao cabo desta íngreme subida até à casa, encrustada na pedra e quase invisível para quem chega.


Esta irreverência, depressa se confirma, é uma das imagens de marca da Quinta do Pôpa, uma boa disposição que se conjuga de forma surpreendente com o respeito pela terra e a homenagem às memórias e aos sonhos do avô Pôpa. Após várias aquisições, a propriedade tem agora 30 hectares, 14 deles de vinha – e quatro de vinha “muito velha”. Em 2007 aconteceu a primeira vindima e o potencial dos vinhos foi quase imediatamente enfatizado por Luís Pato, o emblemático e irrequieto enólogo/produtor da Bairrada que é também responsável enológico da casa desde 2006. Da ideia inicial de produção para consumo próprio (e dos bem-aventurados amigos…) depressa se deu o passo rumo ao mercado.


À BEIRA DA ESTRADA


Mas, por agora, o vinho ainda é secundário. Acabamos de sair do carro e a imensidão da paisagem monopoliza os sentidos. A estrada por onde subimos parece agora um carreiro de presépio, lá ao fundo. O rio corre, lentamente visto daqui, sabe-se lá que correntes e segredos esconde este portento líquido, este gigante adormecido capaz de fúrias imparáveis, a força motriz que desenhou toda esta paisagem.


Respira-se fundo o ar limpo da montanha (a pouco mais de meia encosta, estamos a 400m de altitude), vira-se, por um momento, costas ao rio e ao bailado dos socalcos pelas encostas, como um mapa animado, as curvas de nível bem definidas em linhas de videiras e paredes de pedra. E olhamos para a casa. Antes de mais, os pátios, um à entrada, outro, relvado, na lateral. Miradouros privilegiados, apetece ficar por aqui. E a presença de mesas e cadeiras reforça a tentação.


Mas há que entrar. A espaçosa sala da recepção, delimitada por um balcão, está decorada num estilo ilusoriamente caótico que lhe dá um charme muito especial. Estantes, caixas de vinho, garrafas, cestos, revistas, cadeiras e mesas, tudo um pouco por todo o lado e uma elegante harmonia a envolver o cenário. Num canto, as molduras que nenhum turista que se preze deixa de levar lá para fora para as fotografias da praxe, a imensidão da paisagem a oferecer-se generosamente ao olhar e à objectiva.


E são muitos os turistas que vão chegando. No final do Verão, o movimento é importante na estrada panorâmica que leva ao Pinhão e as quintas situadas nesta margem ficam mesmo a jeito. O mesmo não se dirá das que se alinham na encosta fronteira… Apesar de parecer mesmo ali ao pé, a “vizinha da frente” - Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo - fica a mais de 20km pelo asfalto, via Pinhão e com uma incursão às curvas e contracurvas serranas. No Douro, a margem esquerda é dos carros; a direita pertence aos carris do comboio. Entre as duas, poucas ligações. Embora, às vezes, com sorte, possa aparecer algum barco tripulado por bons samaritanos…


A visita à quinta, com ou sem prova de vinhos, vale por si. Mas há extras que vale a pena considerar, a começar pela possibilidade de marcar uma refeição – seja um inesquecível almoço no terraço panorâmico (só uma mesa por dia, o que garante exclusividade e privacidade) ou um pitoresco piquenique nas vinhas ou outro qualquer local da escolha do visitante. A dimensão da propriedade e a própria filosofia da casa justificam a regra, não inflexível, de não receberem grupos “com mais de 25 pessoas”. Mas o grosso dos visitantes são mesmo as famílias estrangeiras que alugam carro no Porto para percorrer a região.


PARAR O TEMPO


Depois das boas-vindas na recepção, visitam-se as instalações. A adega, com lagar e cubas em inox, não foge ao que é tradicional, mas se alguém pensou que a Quinta do Pôpa já esgotara a sua capacidade para nos surpreender, a sala das pipas conta uma história bem diferente. Aqui não há teias de aranha nem bolores nas paredes. O espaço, delimitado de um dos lados pela face de xisto da montanha, é luminoso e vasto, decorado de forma profusa e divertida.


Há relógios, muitos. “Chamamos-lhe Sala do Tempo”, explica Vanessa. Porque o vinho precisa de tempo, claro. Mas há outra razão. “Somos fanáticos por relógios, todos nós…” Compraram alguns, outros são oferecidos por visitantes e amigos. O resultado é uma verdadeira exposição de aparelhos de contar o tempo alinhados nas paredes e espalhados por todo o lado, aqui, por contrassenso, num local onde o tempo é forçado a abrandar. Talvez por isso, pela manifesta incapacidade para imporem a sua lei, estes relógios estão parados.


A um canto, uma pilha de caixas de vinho, um cadeirão, uma velha mala a recordar histórias de uma família de emigrantes que um dia encontrou a sua terra e nela fez vinho. É esse vinho que flui por gravidade da adega (a sala das pipas fica numa cota mais baixa) até às barricas e aqui estagia antes de ser engarrafado. No espaço seguinte encontraremos as garrafas, arrumadas em grades de ferro como as que se preparam para as lajes de betão na construção civil (“bricolage”, lembram-se?). A “lotação” é de 90.000 garrafas e algumas hão-de passar aqui bom tempo – norma da casa é guardar 40 garrafas de cada vinho, para memória e provas especiais.


Da escuridão da garrafeira até à luz exterior, o trajecto pode ser curto, mas a ideia é alongá-lo, aproveitando um túnel recém-escavado no xisto da montanha. Esta galeria será decorada com artefactos tradicionais da actividade agrícola da região, transformando a passagem subterrânea numa verdadeira viagem no tempo. Uma boa maneira de reforçar a ligação à terra e a homenagem a quem a trabalha.


Quando chegamos ao exterior, o choque da paisagem é ainda maior do que na impressão inicial. Saímos da escuridão e chegamos à luz, verdade, mas o que se impõe realmente é a profundidade de campo. De repente, o nosso foco visual passa de escassos metros para um horizonte de quilómetros sem fim. E essa é uma boa desculpa para nos sentarmos nesta mesa pendurada sobre o rio…


Segue-se o almoço. E mais conversa, à volta de um copo de vinho. Apetece parar o tempo e pairar por aqui. Ainda bem que os relógios ficaram todos lá dentro.


 


Quinta do Pôpa


Morada: EN122 – Adorigo, 5120-011 Tabuaço


Tel: 915 678 498 (enoturismo: 916 653 442)


E-mail: geral@quintadopopa.com


Web: www.quintadopopa.com


GPS: 41º09’18.31 N; 7º35’48,98 W


A visita à quinta (entre as 10h30 e as 17h30) dura cerca de uma hora e é gratuita mas carece de marcação prévia, para haver garantia de atendimento personalizado e imediato. Os visitantes ocasionais são sempre bem-vindos, mas podem ter de esperar até haver alguém que os guie (o que, com tanto horizonte para fruir, não será propriamente um problema para quem não estiver com pressa…). O percurso da visita inclui passagem pela adega, caves e garrafeira e termina com uma prova de vinhos, também ela gratuita, a realizar na sala da recepção ou no exterior, num dos vários espaços com vista sobre as vinhas e o rio. É possível marcar refeições e piqueniques e adquirir os vinhos da casa.


Classificação


Originalidade (máx. 2): 2


Atendimento (máx. 2): 2


Prova de vinhos (máx. 4): 3,5


Venda directa (máx. 4): 3,5


Arquitectura (máx. 3): 2,5


Ligação à cultura (máx. 3): 2


Ambiente/Paisagem (máx. 2): 2


Classificação: 17,5


 


(Texto publicado na Revista de Vinhos nº 301, Dezembro de 2014)

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